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Crítica | Crimes e Pecados

por Luiz Santiago
624 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4,5

Mas definimos a nós mesmos pelas escolhas que fizemos. Na verdade, somos feitos da soma total das nossas escolhas. Tudo se dá de maneira tão imprevisível, tão injusta, que a felicidade humana não parece ter sido incluída no projeto da Criação.

Com motivos de Crime e Castigo, de Dostoiévski, aos quais Woody Allen voltaria em Ponto Final, O Sonho de Cassandra e O Homem Irracional, o longa Crimes e Pecados é praticamente um filme-resposta do diretor a outro de seus filmes, Hannah e Suas Irmãs, obra na qual ele dizia ter sido “bonzinho demais” com os personagens. Segundo sua visão, a família e as relações entre as pessoas passavam por um caminho bem mais árido e bem menos lírico ou caloroso que naquele filme. Daí a ideia de realizar algo que envolvesse boa parte daqueles temas tão bem conhecidos mas sob uma perspectiva mais intensa e com um grande simbolismo logo de início, a metáfora da “miopia de vida” do homem e, possivelmente, de Deus.

Com uma mistura de Monsieur Verdoux (1947) e Morangos Silvestres (1957), Allen nos chama a atenção para aquilo que faz o homem ser o que ele é, o conjunto de suas escolhas, principalmente aquelas escolhas tomadas em momentos de crise, medo, ira ou grandes paixões. Mas há também uma linha cômica que perpassa a história de uma maneira cínica, como se quisesse sugerir algo muito sério sob um ponto de vista peculiar, chamar a atenção ou de fato incomodar o espectador pela densidade de suas observações e visão da realidade. É por isso que Crimes e Pecados é um marco na filmografia de Woody Allen. Ele é o último filme que teve essa coragem e essa abordagem dentre as suas “obras clássicas”.

O enredo da fita é a vida de dois homens, um consumido pela culpa e outro tentando encontrar um grande amor. Mas é curioso que essas são apenas máscaras iniciais porque culpa, desejo e busca são elementos que circulam pela vida dos dois, embora seja mais forte aqui e ali, dependendo do momento, dos familiares ou cônjuges/amantes envolvidos. Dessa forma, Woody Allen faz um jogo de responsabilidades e julgamentos a partir de elementos simples do cotidiano, só que expostos a condições extremas, como por exemplo, o fato de uma amante querer de todo modo conhecer a esposa do homem com quem está a tantos anos ou, em outra ponta, o fato de um homem que odeia o cunhado ter que dirigir um documentário sobre ele.

Novamente trabalhando com o fotógrafo Sven Nykvist, o diretor utilizou bem os ambientes sombrios e de luz dura para desenvolver cada um dos personagens, mesmo que suas preocupações e vontades fossem simples demais comparadas aos grandes conflitos de Judah (Martin Landau) e Cliff (Woody Allen), a exemplo das personagens vividas por Mia Farrow ou Claire Bloom. Essa simplicidade é quebrada por adversidades que contestam o âmago da moral e da ética seculares e religiosas, como a pergunta do por quê existe maldado no mundo; por quê alguns fieis acabam sofrendo tanto enquanto outros infiéis vivem bem, muito e [aparentemente] felizes; e por quê a felicidade não pode durar mais do que apenas um breve e fugaz espaço de tempo.

Através das decisões de cada um, vemos que esses questionamentos apontam mais como uma quebra em relação à conformidade (de um paraíso vindouro onde tudo será maravilhoso ou de um otimismo cego dizendo que “tudo vai ficar bem, basta confiar nas leis“) do que como críticas diretas e “batidas” por parte do diretor. Em Crimes e Pecados, as muitas fases da vida, as escolhas em cada uma delas, as pessoas que são escanteadas, decepcionadas, mortas ou abandonadas no processo servem como trampolim para o “crescimento” dos envolvidos, o que acaba dando origem a situações que — ponto máximo da ironia — as mesmas perguntas feitas anteriormente voltam, como se fossem companheiras constantes do homem, não importando a fase. A diferença que é no “momento B” existe muito mais gravidade, rancor e medo do que no “momento A”. E é ainda mais interessante que nessas situações, diríamos que o indivíduo do “momento B” é alguém “maduro”.

Esse preço da maturidade, da experiência de vida, do acostumar-se com o horror e o sofrimento são temáticas nas entrelinhas de Crimes e Pecados e colocadas ou como observação ou como análise de ações. Em uma narrativa ousada cheia de idas e voltas, o longa mostra um Woody Allen plenamente seguro na direção de um drama denso e com uma linguagem que foge muito da simplicidade cômica que muitos de seus espectadores antigos esperavam e lhe cobravam. Os flashbacks são tão orgânicos e recebem uma montagem tão boa que chamam a nossa atenção e complementam a história de uma forma inesperada, sem nos desviar a atenção e ‘escondendo’ o fato de serem pontes narrativas dentro do próprio filme.

Trazendo um grande elenco em excelente atuação (Martin Landau recebeu uma indicação ao Oscar) e um roteiro e direção quase exemplares (Woody Allen foi indicado ao Oscar nas duas categorias), Crimes e Pecados finaliza a década de 80 e mais uma fase na carreira de Allen de forma digna e inesquecível. Um drama para fazer pensar sobre consequências e, talvez, felicidade. Afinal de contas, muitas ocasiões em que as duas palavras do título acontecem acompanham [algum tipo de] felicidade para quem os comete. E isso é ainda mais problemático, porque nos deixa com uma pergunta final: a felicidade tem um preço?

Crimes e Pecados (Crimes and Misdemeanors) — EUA, 1989
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Woody Allen, Bill Bernstein, Martin Landau, Claire Bloom, Anjelica Huston, Alan Alda, Sam Waterston, Stephanie Roth Haberle, Gregg Edelman, George J. Manos, Jenny Nichols, Joanna Gleason, Zina Jasper
Duração: 104 min.

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4 comentários

Karam 25 de junho de 2016 - 01:17

Mais uma bela crítica para mais um belo filme do Woody. Aliás, tenho um adendo curioso a fazer: nas entrevistas que ele dá pro Eric Lax ele fala que a sua intenção inicial era fazer de “Crimes e Pecados” um drama, mas ele acabou por mesclar duas tramas, uma mais voltada para o drama (a do Martin Landau) e outra para a comédia (a do Woody). O mestre diz em seguida que com “Match Point” ele teve a coragem de fazer uma espécie de “Crimes e Pecados” só com a parte dramática, e talvez seja por isso que ele considere “Match Point” o seu melhor filme. Pelo que eu me lembre, ele ficou bem insatisfeito com a parte cômica de “Crimes e Pecados”…

Dito isto, acho que há um equilíbrio perfeito aqui. O Woody transita entre esses dois gêneros de maneira fluida, e no final ainda converge as histórias e produz aquele diálogo arrebatador entre os dois personagens principais.

Foda.

Responder
Luiz Santiago 25 de junho de 2016 - 20:56

Valeu, @pedrokaram:disqus!
Esses lados são muito bem entrosados. Lembro que da primeira vez que vi o filme, tive um misto de sentimentos tão forte que não soube dizer se tinha gostado ou não, justamente por essa dualidade do roteiro. Com futuras revisões, minhas dúvidas ou ressalvas caíram por terra. O filme é mesmo muito foda.

Responder
Luiz Santiago 25 de junho de 2016 - 20:56

Valeu, @pedrokaram:disqus!
Esses lados são muito bem entrosados. Lembro que da primeira vez que vi o filme, tive um misto de sentimentos tão forte que não soube dizer se tinha gostado ou não, justamente por essa dualidade do roteiro. Com futuras revisões, minhas dúvidas ou ressalvas caíram por terra. O filme é mesmo muito foda.

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Karam 25 de junho de 2016 - 01:17

Mais uma bela crítica para mais um belo filme do Woody. Aliás, tenho um adendo curioso a fazer: nas entrevistas que ele dá pro Eric Lax ele fala que a sua intenção inicial era fazer de “Crimes e Pecados” um drama, mas ele acabou por mesclar duas tramas, uma mais voltada para o drama (a do Martin Landau) e outra para a comédia (a do Woody). O mestre diz em seguida que com “Match Point” ele teve a coragem de fazer uma espécie de “Crimes e Pecados” só com a parte dramática, e talvez seja por isso que ele considere “Match Point” o seu melhor filme. Pelo que eu me lembre, ele ficou bem insatisfeito com a parte cômica de “Crimes e Pecados”…

Dito isto, acho que há um equilíbrio perfeito aqui. O Woody transita entre esses dois gêneros de maneira fluida, e no final ainda converge as histórias e produz aquele diálogo arrebatador entre os dois personagens principais.

Foda.

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