Crítica | Crimes em Happytime

“Eu rompi o meu hímen.”

Brian Henson deve ter péssimas memórias com o seu pai, porque Crimes em Happytime é, no mínimo, um atestado de ódio aos Muppets e aos fantoches que Jim Henson criou. A citação em destaque já exemplifica muito do cerne da comédia, e nem por causa do suposto “mau-gosto” de piadas como essa, mas em vista de que, novamente, personagens fantásticos estão à mercê de seus co-protagonistas humanos. A premissa poderia ser propícia a uma recriação de sociedade movida por preconceitos, entre quem são de carne e osso e quem são de espuma e enchimento. Crimes em Happytime, no entanto, é uma obra gratuita em relação a tudo o que se propõe. O seu conteúdo crítico, por exemplo, é simplesmente jogado na narrativa. Mas nada se sustenta mesmo?

Essa sujeira para estudar personagens que possuem uma estética costumeiramente enxergada como infantil é óbvia demais, já partindo do início do projeto, em que, do nada e por nada, uma vaca de fantoche é ordenhada de maneira erótica numa loja de pornografia. Não existe nem um propósito narrativo, porque o protagonista tenta constantemente desviar o seu olhar do caso. De acordo com a personalidade do detetive Phil Phillips (Joel McHale), que não é nenhum pervertido, não faria sentido a sua curiosidade em assistir produções da espécie, que são surreais ao extremo. Brian Henson trai o seu público, colocando-o para enxergar algo que o personagem não participaria no caso. A obra, portanto, se parece mais com uma fita que seria comandado pelo Seth Rogen – e que já existe, chamada Festa da Salsicha – do que um Os Muppets às avessas e raso.

O argumento investe em uma superfície que remete a Bojack Horseman, só que com fantoches e sem-graça, por causa do passado envolvendo uma conhecidíssima série de televisão. Mas o roteiro não possui ideia nenhuma do que movimentar com isso, o que comentar sobre a fama desconstruída após atingir o seu auge. São apenas piadas independentes umas as outras, que podem até funcionar como unidade, no entanto, não como coletivo. A única coisa que Brian Henson quer, na verdade, é causar no seu espectador sentimentos angustiantes, mas nem para construir isso de um modo coerente e enfocado. O protagonista, aqui, é irmão de um antigo ator de um seriado de comédia de décadas atrás. Os crimes que acontecem, em consequência, se relacionam com essa sitcom antiga, mas o mais importante, por algum motivo, é só uma vingança.

Nenhuma verossimilhança está acordada ao conjunto de marionetes e Brian Henson nem se propõe a isso, contraditoriamente. O artista simplesmente entrega a “magia” após a conclusão do projeto, mostrando o making off. Já no enredo, a personagem de Melissa McCarthy, por exemplo, trata Phil de um modo ríspido que, coincidentemente, também é gratuito. O passado entre os dois não é grosseiro o suficiente para sustentar uma aversão, muito pelo contrário. “Fantoches não matam fantoches”, repete incessantemente o longa-metragem. Quando é que o roteirista Todd Berger realmente consolida – e desconstrói – essa sua proposta, senão por meio dessa rasa sentença? Brian quer subverter a memória do seu pai, essa é a verdade. Mas, para um cineasta crescido, Henson apenas parece um adolescente querendo sair das asas paternas e causar asco.

Crimes em Happytime (The Happytime Murders) – EUA, 2018
Direção: Brian Henson
Roteiro: Todd Berger
Elenco: Melissa McCarthy, Elizabeth Banks, Maya Rudolph, Leslie David Baker, Joel McHale, Michael McDonald
Duração: 92 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.