Crítica | Crimes Obscuros

Não deixa de ser notável os rumos que Jim Carrey tomou na carreira de uns anos pra cá, mesmo diante das tragédias em sua vida pessoal (alguns desses rumos, dizem, motivados por essas dificuldades). Tendo explodido como comediante nos anos 90 com Ace Ventura – Um Detetive Diferente, O Máskara e Débi  Lóide – Dois Idiotas em Apuros, os trabalhos atuais do ator se assemelham mais quando Carrey se entregou à dramaticidade com O Show de Truman, O Mundo de Andy, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças e, numa escala um tanto infeliz, Número 23, com o qual este Crimes Obscuros reserva pequenas semelhanças.

Hoje dedicado às artes (Carrey adotou a pintura como uma das paixões de sua vida) e a trabalhos na TV (as séries I’m Dying Up Here e a sensacional Kidding), Crimes Obscuros chega ao Brasil com uma janela de três anos desde seu lançamento, uma vez que sua recepção fraca nos EUA, que resultou no lançamento direto em streaming para alguns países, dificultou o crescimento no interesse pelo projeto, por mais que seu principal responsável seja o diretor grego Alexandro Avranas, que chocou há alguns anos atrás com o repugnante Miss Violence.

Crimes Obscuros, sem fazer questão de esconder tal preferência, parte de todos os clichês primordiais, para não dizer básicos, que formulem uma trama investigativa com elementos suficientes que fisguem o mínimo de atenção do público. E o faz. Mas o roteiro de Jeremy Brock, baseado no artigo de David Grann sobre o caso real do assassinato de Krystian Bala, é um desperdício de backgrounds e plot twists que poderiam transcender Crimes Obscuros da mera experiência sombria e de fotografia soturna sobre crimes e mentiras.

Num arremedo de história que, querendo ou não, remete ao excitante Instinto Selvagem de Paul Verhoeven, tadek (Carrey) é um investigador de passado misterioso, que mantém uma relação distante com sua ex-esposa e a filha, que desenvolve uma obsessão particular pelo caso do assassinato de mulheres numa orgia, em especial quando descobre paralelos entre o caso com o livro do autor Koslov (Marton Csokas), o que convence Tadek de que o escritor está envolvido no crime. Cercando o sujeito, Tadek não deixa de desenvolver uma relação com Kasia (Charlotte Gainsbourg), esposa do escritor.

O que há de obscuro sugerido pelo título é traduzido, principalmente, na fotografia de Michael Englert, que abusa de tons dessaturados e mergulha seus enquadramentos numa iluminação fraca, cinzenta, ressaltando a solidão, a frieza e os sentimentos mais introspectivos que cercam aqueles personagens. Avranas, misteriosamente, demonstra pouco apreço pela naturalização da violência que tanto marcou Miss Violence, e prefere se dedicar a enquadramentos focados no rosto dos atores (e que rapidamente cansam) e a uma narrativa claudicante que muito mais prejudicam o crescimento de Crimes Obscuros enquanto suspense do que lhe conferem alguma densidade. Da mesma forma, falta para o diretor um suposto conhecimento de artifícios menos ingênuos para atenuar a tensão, oferecendo uma dualidade rasa e se atropelando nos fatos que, lá pelas tantas, não deixam claro para onde o filme está caminhando.

Carrey, ao menos, se faz notar com uma performance introspectiva que deixa clara, no olhar e na postura de Tadek, os conflitos que carrega nas costas, apesar de algumas de suas atitudes oferecidas pelo roteiro soarem anti-naturais e prejudicarem o desenvolvimento do personagem. Gainsbourg (em mais um papel onde toda a violência é descarregada sobre si, tal qual em Anticristo e nos dois volumes de Ninfomaníaca) e Csokas se contentam em abraçar a caricatura de personagens que carecem de camadas, algo que a primeira quebra somente nos últimos instantes do longa, que reservam a melhor cena dentro de um filme desequilibrado, frágil e que, por incrível que pareça, pede por um pouco do sensacionalismo que marcou o trabalho anterior do diretor.

Crimes Obscuros (Dark Crimes, 2016) – EUA/Polônia/Reino Unido
Direção: Alexandro Avranas
Roteiro: Jeremy Brock
Elenco: Jim Carrey, Marton Csokas, Charlotte Gainsbourg, Kati Outinen, Vlad Ivanov, Agata Kulesza
Duração: 92 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.