Crítica | Croc – A Fera Assassina

Os répteis, mais uma vez, foram tratados como assassinos mordazes. Esse é o mote de Croc – A Fera Assassina, filme da linha Sci-fi que retrata mais uma interação insana entre seres humanos e animais selvagens sedentos por sangue e carne humana. Os exageros, tal como já apontado em outros textos sobre o assunto, não estão muito distantes da realidade. Recentemente, por conta das fortes chuvas em uma região da Índia, um crocodilo escalou de maneira assustadora um viaduto e teve que ser removido com uma escavadeira. Moradores locais foram avisados dos riscos diante das torrentes pluviais que se aproximavam. Outro relato assustador é a morte de uma mulher grávida, engolida por um crocodilo no Lago Kyoga, em Uganda. Aterrorizante, não é mesmo?

Parece ficção, mas é a pura realidade, material que constantemente ressoa na mente de dramaturgos cheios de criatividades, tais como os realizadores de Croc – A Fera Assassina, um filme classe Z que mesmo com alguns elementos muito bizarros, ainda consegue ser deliciosamente divertido. Dirigido por Stewart Raffill, cineasta guiado pelo roteiro de Ken Solarz, o filme adentra na temática dos crocodilos assassinos com menor qualidade estética que outras produções mais pomposas, mas consegue até flertar com alguns elementos científicos que nos permite a crença diante do que é assistido. Devo, talvez, mudar a letra de classificação, para ser mais justo. Não chega a ser classe Z, mas está bem próximo da C, tamanha as aberrações narrativas entrecortadas por breves trechos narrativos.

A trama se estabelece da seguinte maneira: uma enorme e perigosa criatura começa a aterrorizar os turistas que visitam uma região paradisíaca em Krabi, na Tailândia, uma viagem considerada ideal para as pessoas gozarem de lazer e entretenimento. Para capturar o monstro, um caçador bravo e com passado traumático é convidado. Há sabotagens por parte de um proprietário de resort interessado em expandir seus negócios e exterminar o parque ecológico do local. Entre seres humanos oportunistas e um crocodilo assassino, muita aventura está à espera do espectador, juntamente com seus terríveis efeitos visuais, bem como cenas que insistem em conectar repteis de documentários ecológicos às cenas do filme, uma estratégia narrativa insana e bizarra.

Na luta entre forças do bem e do mal, juntamente com o reforço da natureza, temos Jack McQuade (Peter Tuinstra), proprietário do parque, dominado por suas preocupações ecológicas, Theo (Scott Hazzell), seu fiel e escudeiro amigo, Evelyn (Sherry Edwards), investigadora que acaba por mudar de lugar nas decisões favoráveis ao grupo de Jack, mas que anteriormente, era o olho de Konsong (Wasan Junsook), dono do empreendimento interessado em demolir o espaço e acabar com todos os animais. Por fim, temos Croc Hawkins (Michael Madsen), um dos queridinhos de Tarantino, num desempenho bem divertido e cheio de toques exagerados.

Visualmente, Croc – A Fera Assassina é uma experiência pouco satisfatória. A direção de fotografia assinada por Choochart Nantitanyatoda não é incompetente nas cenas em que o animal não aparece, guiado inclusive pelo POV de sempre para emular o seu olhar, tal como Tubarão e todos os filmes de monstros realizados posteriormente. A condução sonora, também inspirada pelo clássico do tubarão-branco, não se comporta de maneira nociva aos nossos tímpanos, mas fica muito abaixo do que poderia resultar, tamanha a preguiça da dupla formada por Mark Ryder e Charles Olins em desenvolver algo além do básico. O design de produção de Jon Bunker funciona para as cenas captadas no parque, nos escritórios e demais espaços de circulação dos personagens, em especial, no barco do caçador de crocodilos.

No que tange aos efeitos de produção da criatura, era melhor o animal não aparecer nunca, pois o que é disposto de orçamento para Brynley Cadman e Kevin Chismall não é suficiente para acreditarmos na potencia do animal como antagonista da história. Ao menos, aprendemos que os crocodilos criados em cativeiro não se alimentam quando estão estressados e que geralmente as espécies que cresceram na selva captam as suas vítimas e as levam para apodrecer, para depois se alimentar. É verdade, pois conferi em documentários científicos. Sobre a primeira informação, creio ser preferível acreditar, mas não confiar. Ah, de volta ao relato na abertura, sabe a grávida devorada pelo animal em Uganda? Pois bem, o seu marido traumatizado esperou o momento certo e conseguiu reencontrar a mesma criatura meses depois, vingando-se brutalmente.

Croc – A Fera Assassina (Croc/Estados Unidos, 2007)
Direção: Stewart Raffill
Roteiro: Ken Solarz
Elenco: Peter Tuinstra, Michael Madsen, Sherry Edwards, Elizabeth Healey, Scott Hazell, Jibby Saetang, Wasan Junsook, Jack Prinya, Deedee Kumphasee, David Asavanond
Duração: 100 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.