Crítica | Crocodilo – A Fera Assassina (1979)

Filmes de animais assassinos geralmente possuem um poderoso subtexto. Alguns fazem críticas ao sistema capitalista que devasta a natureza sem pudor, outros apresentam como nós, seres humanos, em determinadas ocasiões, somos mais selvagens que os animais habitantes das densas florestas repletas de mistérios. O que muitos realizadores não entendem é que o subtexto não se faz sozinho, pois ao falarmos de cinema, torna-se necessário a mínima estrutura estética e um bom texto dramático para que nós, espectadores, do lado de cá de nossas existências, observadores dos perigos apresentados pelas narrativas, possamos nos envolver de maneira catártica com o destino dos personagens apresentados.

Em Crocodilo – A Fera Assassina, dirigido pelo oportunista Sergio Martino em 1979, somos obrigados a abandonar qualquer expectativa diante de um dos filmes mais abomináveis não apenas do horror ecológico, mas de toda a história do cinema. Com roteiro absurdamente escrito por quatro pessoas, isto é, Ernesto Gastaldi, Mara Maryl, George Eastman, Cesare Frugoni, com colaboração do próprio Martino. A trama se estabelece da seguinte maneira: um crocodilo bastante esfomeado ataca turistas ou qualquer coisa que entre na água num resort na África e para combater as suas ações, unem-se a bióloga Alice Brant (Barbara Bach), o fotógrafo Daniel Nessel (Claudio Cassinelli) e Joshua (Mel Ferrer), este último, o proprietário do estabelecimento.

O trio também precisa enfrentar a ira da tribo Kuma, personagens indignados com o estado do crocodilo que para eles, é a representação espiritual dos seus antepassados, uma espécie de divindade. Transformados em objetos para o circo formado pelo resort, os habitantes da aldeia servem como alegoria para a suposta crítica social do filme, focado em apontar o dedo reflexivo para as grandes corporações inescrupulosas, despreocupadas com a fauna e a flora das regiões submetidas aos seus avanços desmedidos. O subtexto é até simpático, mas a forma como a história é contada, no entanto, não é nada interessante.

Visualmente, Crocodilo – A Fera Assassina é bastante questionável. A direção de fotografia de Giancarlo Ferrando tenta construir alguma tensão, mas o crocodilo de espuma de Carlo De Harchis é aberrante demais. A direção de arte de Massimo Antonello também tenta criar alguma coisa relevante, mas a história em si é muito cretina. Um dos piores elementos estéticos, no entanto, é a condução sonora de Stelvio Cipriani, esquizofrênica e excessivamente fora do compasso das imagens. Um horror, mais assustadora que o próprio réptil assassino apresentado pelo filme.

Ademais, cabe ressaltar que a fera de Sergio Martino é uma das primeiras após o sucesso de Tubarão, antecipadora de Alligator – O Jacaré Assassino, talvez o mais bem-sucedido filme com esses animais no subgênero horror ecológico.  Além do filme quase similar de 1989, dirigido por Fabrizio De Angelis, temos Crocodilo Assassino 2, de 1990, concebido por Giametto De Rossi, por sua vez, inspirado pelo mesmo De Angelis do antecessor. A história, em seu segundo filme, parte para um pântano caribenho, proposta tão bizarra quanto outros dois filmes. O que tudo isso delineia é o interesse dos italianos por um cinema tosco e despreocupado com qualquer convenção narrativa mínima que apresente bom senso e escrúpulos.

Crocodilo – A Fera Assassina (Il Fiume Del Grande Caimano) — Itália, 1979.
Direção: Sergio Martino
Roteiro: Sergio Martino, George Eastman, Cesare Frugoni, Ernesto Gastaldi, Mara Maryl
Elenco: Barbara Bach, Claudio Cassinelli, Mel Ferrer, Romano Puppo, Fabrizia Castagnoli, Enzo Fisichella, Lory Del Santo, Anny Papa, Bobby Rhodes
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.