Crítica | Crônicas de Natal

Nunca antes na história da Sétima Arte Snake Plissken foi o Papai Noel. E o mero fato de Wyatt Earp ser o bom velhinho em Crônicas de Natal, mais novo filme natalino (ainda que lançado no Thanksgiving) do Netflix, já é suficiente para que ele mereça ser conferido. Não é nenhuma maravilha, bem longe disso, na verdade, mas são 104 minutos descompromissados com alguns bons momentos e uma bela ponta bem lá no finalzinho.

Os demasiadamente longos 20 minutos iniciais sem que Stuntman Mike apareça são utilizados para apresentar-nos à família Pierce por intermédio de filmagens de Natais passados até chegar a 2018 com as duas crianças, Teddy (Judah Lewis), o mais velho e Kate (Darby Camp), de 11 anos, bicando-se nos raros momentos em que estão juntos após a morte do pai. A mãe, Claire (Kimberly Williams-Paisley, a eterna Annie, de O Pai da Noiva), tem que fazer turno noturno no Natal e as crianças acabam, claro, vendo Papai Noel (vivido por Ego) chegar e, na excitação, causam uma tragédia que pode significar o fim da data comemorativa no ano. Os dois e mais o próprio São Nicolau, então, partem para consertar os problemas – trenó quebrado, saco de brinquedos perdido e renas espalhadas por todo lugar – ao longo de diversas aventuras por Chicago.

Esse tipo de produção encomendada normalmente não brilha pelas escolhas técnicas e, dito e feito, o diretor é Clay Kaitis cuja única experiência anterior foi no estupendamente ruim Angry Birds: o Filme e o roteirista, Matt Lieberman, é marinheiro de primeira viagem nessa capacidade, com os dois não sabendo dosar muito bem a narrativa que, se ora tem lampejos divertidos, na maioria do tempo se arrasta ou sem rumo ou dependendo de textos dolorosamente expositivos e pouco criativos. Chega a surpreender positivamente o figurino do Papai Noel, assim como alguns cenários e outros poucos momentos em computação gráfica, como o mergulho de Kate no saco de presentes e sua chegada à casa de Noel. Mas, na maioria do tempo, a renderização das imagens é pobre, como um videogame de pelo menos uma geração atrás.

Claro, trata-se de um filme que mira nas crianças e um julgamento rigoroso pode parecer injusto ou fora de lugar. Mas defendo fortemente que não. Filmes para o público infantil não precisam ser trabalhados na base do denominador comum e podem ganhar em sofisticação nem que seja apenas eliminando as passagens explicativas tintim por tintim, aí incluídas as lições de moral que só faltam aparecer escritas ou com gráficos. Crianças não precisam disso e a prova são as animações da Pixar e do estúdio Ghibli, além de diversas outras obras que encaram os pequenos como seres que precisam e devem ser desafiados, nem que seja só um pouquinho. Esse “degrau acima” inexiste aqui e Crônicas de Natal acaba realmente tendo como único atrativo o próprio MacReady, algo que, claro, as crianças pequenas não apreciarão.

E é por isso que eu não estava brincando quando disse, logo no início, que é a presença magnética de John Ruth, mesmo em um papel leve e bobo, que  torna este um filme a ser conferido. Quando o destaque fica efetivamente no Xerife Hunt, Crônicas de Natal ganha graça e diversão, mesmo quando ele está apenas parado olhando para as crianças. Sua simpatia é contagiante e Mr. Nobody rouba, sem dificuldade alguma, toda as cenas em que aparece, com sua única concorrente sendo a jovem Darby Camp, mas mesmo assim de longe, já que a atriz não chega a ser brindada com grandes momentos como a simpática e exagerada sequência na prisão que conta inclusive com uma participação de Steve Van Zandt.

Crônicas de Natal não deixa de ser enternecedor para todos, mas ele deverá divertir somente os bem pequenos. Infelizmente, o filme deixa muito a desejar por não haver qualquer semblante de esforço em fazer algo minimamente sofisticado ou pelo menos um passo além do meramente burocrático e automático por parte de Kaytis e Lieberman, algo que, somado ao orçamento diminuto para efeitos especiais, torna o resultado final completamente esquecível. Ou quase completamente esquecível. Afinal, tem o Coronel Jack O’Neil (o original, não o de Richard Dean Anderson) como Papai Noel e isso não tem preço!

Crônicas de Natal (The Christmas Chronicles, EUA – 22 de novembro de 2018)
Direção: Clay Kaytis
Roteiro: Matt Lieberman
Elenco: Kurt Russell, Darby Camp, Judah Lewis, Oliver Hudson, Kimberly Williams-Paisley, Lamorne Morris, Martin Roach, Lauren Collins, Tom Kane, Steve Van Zandt
Duração: 104 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.