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Crítica | Cursed: A Lenda do Lago – 1ª Temporada

por Ritter Fan
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As Lendas Arturianas são campo fértil para a literatura, para a televisão e para o cinema, tendo ganhado incontáveis releituras e versões ao longo das décadas. Mesmo sendo profundamente enraizado como parte da chamada Matéria da Bretanha, uma espécie de nome coletivo dado às lendas e histórias de diversos cunhos que compõem o universo histórico-literário da Inglaterra e mesmo que suas provavelmente mais famosas fontes – Historia Regum Britanniae, de Godofredo de Monmouth, Le Morte d’Arthur, de Sir Thomas Malory e O Único e Eterno Rei, de T.H. White – sejam razoavelmente ignoradas pelo público em geral, é impressionante notar o quanto os nomes, os elementos, os objetos e as principais ações que formam esse rico arcabouço literário são conhecidos no mundo todo.

Cursed: A Lenda do Lago, série baseada em romance ilustrado (não confundir com graphic novel, pois não é uma HQ) escrito por Tom Wheeler e desenhado por Frank Miller,  é apenas a mais recente versão dessa tão famosa história, versão essa que parece beber do espírito de outra obra importantíssima e razoavelmente recente sobre a mesma temática: As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley, que reconta as lendas sob pontos-de-vista femininos. O conceito de Wheeler, porém, vai bem mais além do que Bradley fez e transforma as Lendas Arturianas em uma versão de O Senhor dos Anéis (que, por sua vez, tem as Lendas Arturianas como inspiração, claro), com um objeto metálico cobiçado por todos e que corrompe seu usuário, seres mágicos variados populando esse universo e uma jornada que opõe esses seres, chamados de Feéricos (ou Fey, em inglês), à Era do Homem. Nesse processo, muita coisa é completamente reinventada e alterada, o que absolutamente faz parte do jogo e torna tudo até mais interessante.

Na história somos imediatamente apresentados a Nimue (Katherine Langford, de 13 Reasons Why), uma feérica que, mesmo em seu vilarejo de feéricos, é vista com preconceito pela manifestação anormal de poderes. Quem conhece o mínimo das Lendas Arturianas sabe que a personagem é a famosa Dama do Lago (ou Senhora do Lago em algumas versões), que protege e entrega Excalibur a Arthur, mas, aqui, ainda que a referida espada lhe seja confiada por sua mãe moribunda depois que todo o seu mundo é destruído pelos inquisidores que se autodenominam Paladinos Vermelhos, liderados pelo Padre Carden (Peter Mullan), seu papel é infinitamente maior do que apenas de protetora do super-poderoso objeto cortante.

Os eventos que narrei acima estão, todos eles, contidos no primeiro episódio da temporada de 10 e que é, ironicamente, o menos interessante de todos. Muito corrido e não funcionando muito bem para estabelecer a amplitude e a ambição da história, esse primeiro capítulo carece perigosamente de atrativos para um público que queira mais do que uma sucessão de clichês óbvios e mal trabalhados. No entanto, julgar uma série somente pelo seu comecinho é sempre uma injustiça e posso dizer que Cursed paga dividendos pela perseverança e sem nem exigir muito, já que, a partir do segundo episódio, a história engrena de verdade com uma riqueza de personagens e linhas narrativas paralelas e entrelaçadas que envolvem lendas e personagens celtas, clãs vikings rivais, uma freira ensandecida e até o Papa e tudo sem que o espectador fique perdido.

Mas há que se ter a compreensão de que esta é uma completa reinvenção do mito, muitas vezes até parecendo que é uma história totalmente diferente que só tem nomes iguais aos das Lendas Arturianas. Esse argumento detrator é válido, sem dúvida alguma, mas tenho para mim que é outro sinal de impaciência, assim como alguns outros argumentos que vi flutuando por aí sobre a “inclusividade forçada” da série, tendo como exemplo principal Arthur, vivido por Devon Terrell, um ator negro. Não pretendo entrar aqui nessa discussão, mas imaginem meus olhos revirando para vocês perceberem o que eu acho dessas reclamações…

Bem, voltando à série, confesso que entrei já com má vontade por imaginar mais uma bobajada adolescente ou de “jovens adultos” como Camelot, mas fui ficando cada vez mais impressionado com a forma como os roteiros fazem todas as peças se encaixarem, fazendo algo muito raro de se ver por aí, que é a utilização ampla de todos os personagens apresentados ao longo da narrativa, sem deixar aquela impressão ruim que muitas séries deixam de personagens que aparecem e desaparecem somente na medida em que eles são úteis para a narrativa. Dá para sentir o bom planejamento dos episódios que leva à fluidez da temporada e que acaba promovendo a construção e desenvolvimento completo de Nimue de uma garota perdida a uma rainha dos feéricos com todo um ecossistema ao seu redor que serve bem tanto à ela quanto à história como um todo.

E, com isso, não quero sequer dizer que Langford está excepcional em seu papel, pois não está. A jovem precisa aprender muito ainda de artes dramáticas, pois ela carece de nuanças. No entanto, ela tem o porte físico necessário para seu papel, além de oferecer intensidade e esforço naquilo que se propõe a fazer. É, sem dúvida, uma promessa que talvez só precise de mais lapidação, o que pode vir no futuro da própria série. Devon Terrell tem praticamente o mesmo problema que Langford, mas com a desvantagem de seu papel não ser muito desenvolvido, notadamente para um personagem em tese tão importante. Talvez ele ganhe mais destaque para a frente e, com isso, consiga dizer efetivamente a que veio. Ainda na tríade mais importante de personagens jovens, há que se destacar Igraine, irmã de Arthur, que Shalom Brune-Franklin faz de maneira muito competente, ainda que seu desenvolvimento final (bem lá no final mesmo) seja de coçar a cabeça de tão fora de esquadro, exigindo algum tipo de explicação em eventual segunda temporada.

Por outro lado, o Merlin bêbado, sem mágica e desgostoso de Gustaf Skarsgård é um divertimento só que começa extremamente bobo e histriônico, mas que vai ganhando interessantes camadas com direito até a flashbacks para “outras vidas” que criam uma ótima mítica ao seu redor. Seu protetor, Uther Pendragon (Sebastian Armesto), é estabelecido com um vilão de filme de 007 que, falando na primeira pessoa do plural o tempo todo, irrita tanto que cumpre seu objetivo, assim como sua mãe, a Rainha Regente Lady Lunete (Polly Walker), que faz escorrer veneno de todos os seus poros. Do lado dos odiosos Paladinos Vermelhos, Peter Mullan é sem dúvida o destaque, seguido do misterioso Monge Choroso (Daniel Sharman) que funciona no “estilo Boba Fett” de ser, ou seja, o caladão com uniforme bacanudo.

No entanto, por ser uma série que recorre ao bom e velho artifício do “ah, mas então ele/ela na verdade é o/a [inserir personagem famoso das Lendas Arturianas]”, as grandes revelações de identidades diferentes vão pontilhando um tanto quanto artificialmente os episódios, com uma delas acontecendo muito cedo ainda, outra lá pela metade da série quando um personagem chamado Cavaleiro Verde  (Matt Stokoe) literalmente cai de pára-quedas na história como amigo de longa data de Nimue que nunca havia sido sequer mencionado, ganhando enorme destaque a partir daí, e uma terceira e quarta revelações já mais para o final. O expediente cansa um pouco e não precisava ser manejado dessa forma, por ficar parecendo truques baratos de festinha de criança.

Falando em “barato”, apesar de a série ter grandes ambições e pretender construir um universo bem amplo e rico, quando a produção recorre a cenários naturais construídos artificialmente, é impossível não trincar os dentes. A fotografia beneficia-se bem de filmagens em locação, mas, quando por exemplo a ação é transferida em parte para Nemos, esconderijo dos Feéricos ou para o castelo de Uther (que desnecessariamente fica em um penhasco digno de Bruxa Malvada), as pedras de isopor doem nas retinas, assim como as plantas de plástico. Há uma determinada cena então em uma banheira de águas termais que dá vontade de cravar a Excalibur na barriga até…

Mas o CGI, que também não é nenhuma maravilha, até que consegue segurar as pontas, em particular o efeito criado no rosto de Nimue quando ela invoca seus poderes naturais e o sangue das diversas vítimas de sua espada que consegue não ser dos piores. Aliás, sangue e violência não faltam na série, o que é uma surpresa interessante.  Entre Nimue e o Monge Choroso, é como se exércitos inteiros tombassem em meio a piruetas e rodopios em câmera lenta com efeitos sonoros metálicos. É tudo talvez artificialmente limpo demais – como o balé de Qui-Gon e Obi-Wan contra Darth Maul -, mas o aspecto inteiro da série é assim, pelo que não há muito o que fazer a não ser imaginar como seria a produção nas mãos de um Peter Jackson (pré-O Hobbit) da vida.

Cursed é uma bem-vinda e divertida reformulação completa das Lendas Arturianas que amplifica enormemente o lado místico e mágico criando um vasto e sólido universo que promete boas e sanguinolentas aventuras e que sabe usar toda a constelação de personagens que tem ao seu dispor. Como toda série, há o risco de ela estender-se demais, mas parece que Tom Wheeler sabe muito bem o que pretende com sua nova e turbinada Dama do Lago.

P.s. Quem foi o gênio que, sem assistir a série ou sem ter a mínima noção sobre as Lendas Arturianas, inventou esse subtítulo desnecessário? A Lenda do Lago? Jura? Não seria A Lenda da Dama do Lago? Não tem lago nessa série…

Cursed: A Lenda do Lago – 1ª Temporada (Cursed, EUA – 17 de julho de 2020)
Criação: Frank Miller, Tom Wheeler
Direção: Zetna Fuentes, Daniel Nettheim, Jon East, Sarah O’Gorman
Roteiro: Tom Wheeler, Janet Lin, Rachel Shukert, Leila Gerstein, William Wheeler, Robbie Thompson
Elenco: Katherine Langford, Devon Terrell, Gustaf Skarsgård, Daniel Sharman, Sebastian Armesto, Lily Newmark, Shalom Brune-Franklin, Bella Dayne, Matt Stokoe, Peter Mullan, Emily Coates, Polly Walker, Billy Jenkins, Adaku Ononogbo, Catherine Walker, Jóhannes Haukur Jóhannesson, Sofia Oxenham, Clive Russell, Sophie Harkness, Aidan Knight, Andrew Whipp, Nickolaj Dencker Schmidt, Peter Guinness
Disponibilidade no Brasil: Netflix
Duração: 546 min. (10 episódios)

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