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Crítica | Curtas Baseados nos Filmes da Pixar – Parte 3

por Iann Jeliel e Davi Lima
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  • Acesse aqui nossas críticas sobre os outros curtas da Pixar.

Terceira parte de nossa jornada para cobrir todos os curtas da Pixar baseados em seus filmes originais. Desta vez, falaremos do curta com os personagens de Ratatouille (escrito por Iann Jeliel), do curta baseado no universo de Wall-E (escrito por Davi Lima), do curta com os personagens de Valente (escrito por Davi Lima), do curta com os personagens de Divertida Mente (escrito por Iann Jeliel), e por fim, do curta baseado no universo de Viva: A Vida é uma Festa (escrito por Iann Jeliel).
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Seu Amigo, o Rato

A ironia da comédia de Ratatouille é transferida para um curta de caráter educacional, realista e igualmente irônico. Remy e seu irmão (ou melhor, só o Remy) ao longo de 11 minutos destrincham a relação dos ratos com os humanos através da história para convencer o público infantil de que os roedores, no fim, não são tão maus assim.

A questão é: esse convencimento não exatamente faz parte da encenação didática, mas de uma piada para que ela funcione de forma mais estimulante na mente das crianças. O verdadeiro ensinamento aqui está na origem da repulsa vinda dos primórdios da peste negra, até a série de contextos que levaram as duas espécies a conviverem tão próximas enquanto sociedade. Nesse sentido, o curta tem bastante recurso ilustrativo no 2D para fornecer essas informações de um modo antagônico ou complementar às falas de seus narradores. Há uma série de piadas nesse meio-tempo que seguram a atenção e são literalmente conduzidas através do contraste entre imagem e fala. Desse modo, o curta garante o educativo e o entretivo em proporções parecidas, deixando muito claro aos olhos infantis onde entra um e sai outro, ou vice-versa.

Destaque para o aviso nos créditos que alertariam os verdadeiros malefícios dos ratos aos humanos como transmissores de doenças, com o Remy e seu irmão tentando impedir que eles apareçam. É uma ótima piada que sintetiza bem o que se corresponde no curta, essa dualidade de didatizar algo por um ponto de vista contrário, em que o humor equilibra e direciona o ensinamento.

Seu Amigo, O Rato (Your Friend the Rat | EUA, 2007)
Direção: Jim Capobianco
Roteiro: Jim Capobianco, Alexander Woo, Jeff Pidgeon
Elenco: Patton Oswalt, Peter Sohn, Jim Capobianco, John Ratzenberger, Sigmund Vik, Tony Russel
Duração: 11 minutos

BURN-E

O timing cômico deste curta animado pode até se submeter a um exagero para alcançar a comédia, ou alguma ação conveniente demais para o trágico acontecer, e consequentemente levar a quebra de expectativa por ser uma narrativa paralela ao filme Wall-E. Mas com certeza, a história de uma missão atrelada ao protagonista, um robô de protocolo de emergência, com o único propósito de cumpri-la como satisfação também de quem a assiste é na verdade a missão cumprida de engajamento cômico do espectador com o personagem Burn-E, em toda a sua impaciência e disposição.

As proporções da piada são paulatinas nas sucessões de ações com o intuito de completar a missão de fixar uma antena na nave espacial. Porque é preciso compreender todo o caminhar do processo do protagonista, como espacialmente ele se movimenta como suspensão da jornada de um objetivo único ao que ele é acionado rapidamente. Nesse sentido não há demonstração de falha de conduta, Burn-E tem apenas uma função, porém é pego de surpresa com a chegada de Wall-E, promovendo um retrocesso na facilidade objetiva de fixar uma antena. A partir disso suas falhas tornam o programa, antes objetivo, reativo, em que a repetição de infrações não apenas acumula o riso de quem o assiste pela impaciência do personagem, como investe na complementação temporal do filme WALL•E. Esse efeito até exagera essa impaciência cômica, pois distancia a missão da plausibilidade aumentando a conveniência para a piada da “missão a qualquer custo”, porém segue a evolução da quebra de expectativa. 

Embora tal modus operandi de narrativa seja algo bem comum no gênero da comédia com esse tipo de história, é o contexto Pixar que mais uma vez em seus vários curtas baseados em filmes acaba por diferenciar a obra. Chega-se no final e a missão não importa mais na maneira mais técnica e funcional, a nave pousou, voltou para repopular a Terra, e BURN•E enclausurado por uma antena espacial. Mesmo com o exagero, o que mantém a piada engraçada, mesmo na ausência da base que era a objetividade de cumprir a missão, é a reação do personagem humanizada completamente pelo padrão Pixar de qualidade.

Burn-E (Burn-E | EUA, 2008)
Direção: Angus MacLane
Roteiro: Angus MacLane, Andrew Stanton, Derek Thompson
Elenco: Angus MacLane, Tessa Swigart
Duração: 8 minutos
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A Lenda De Mor’du

Mesmo que o humor se mantenha à espreita com a narração da bruxa, e a maneira como ela olha pra câmera  visual em primeira pessoa parece esconder uma punch line, toda a narrativa do curta-metragem, que poderia ser bem dramática como um todo, como na maneira com que o 2D e as informações fortes são apresentadas, torna-se um mero prólogo mitológico para o filme Valente

O fator “meramente” se faz pela substância tornar-se blasé na forma de contar o passado de uma família de irmãos que formaram reinos. A própria introdução que a bruxa faz para contar a história parece fora de contexto, uma justificativa engraçada que provavelmente reflete uma obra cortada do longa-metragem. Por isso o curta é insosso, em que o trunfo dramático é uma pausa para revelar uma piada. O ato de contar a história de Mor’du se transforma em distração, enquanto as primeiras cenas da bruxa que denotam algum mistério ao final se tornam diálogos nada ambíguos, se é com o espectador ou com algum personagem, quebrando o clima tenso da guerra entre os irmãos. 

Soa desonesto e inconsequente, mas não é de fato porque também não há promessa de que o curta seria sério além do 2D, o que evidencia ainda mais a escolha além dos fatores estilísticos de narrar algo do passado e lendário. No meio do drama, a bruxa até narra em seu favor e o corvo comenta em ironia. Então, tudo se torna só um grande ponto explicativo para teóricos da Pixar que se resume no humor já equivocado da exagerada infantilização masculina para apoiar um discurso do longa-metragem Valente. Um bom discurso de ter liberdade de escolha como mulher, mas com um apoio – aí sim – inconsequente para a princesa da Pixar. Infelizmente o curta só reforça isso, embora também possa levar a refletir com a história da lenda sobre o motivo de os homens do reino de Merida se tornarem o que se tornaram em medida de comparação.

A Lenda de Mor’du (The Legend of Mor’du) – EUA, 2012
Direção: Brian Larsen
Roteiro: Brian Larsen, Steve Purcell
Elenco: Julie Walters, Steve Purcell, Callum O’Neill
Duração: 7 minutos
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O Primeiro Encontro de Riley?

O fantástico é que o curta não é sobre o primeiro encontro de Riley, mas como seus pais reagiriam se fosse. É uma oportunidade para prolongar a piada do longa-metragem, que por si só já era sensacional, mas agora é levada em um contexto extremamente promíscuo para se extrair o melhor da comédia da paternidade superprotetora.

Para as crianças, é um exercício de imaginação na compreensão dos pais sobre a investida à pré-adolescência. Para os adultos, o humor ainda consegue ser mais efetivo pois se relaciona diretamente com a nostalgia da juventude para quebrar paradigmas conservadores. A ideia de o pai sempre ter que dar medo ao “namorado da filha”, quando subvertida a uma conquista por gostos parecidos – AC/DC também, né? – não só é uma piada efetiva como didatiza a prepotência de tratar a filha como objeto a ser protegido. O que é confirmado quando essa brecha nostálgica traz um sentimento de tesão da juventude que os fazem se beijar no final. Há um duplo sentido igualmente carregado entre inocência e energia que se espelha direitinho na ambiguidade de ser ou não o encontro da Riley. O mesmo vale para a parte da mãe, quando ela tenta utilizar gírias para se comunicar de modo mais próximo é bastante engraçado, mas também educativo para pais que precisam conversar sobre isso com seus filhos, e não precisa nem ser de maneira forçada, porque eles a essa altura da vida já têm suficiente conhecimento sobre tal fingimento.

Cheio de ensinamentos em poucos minutos e com um humor afiadíssimo da troca de emoções para com a reação do humano controlado por elas, este curta é definitivamente uma delícia tão gostosa quanto o filme em que é baseado.

O Primeiro Encontro de Riley? (Your Friend the Rat | EUA, 2015)
Direção: Josh Cooley
Roteiro: Josh Cooley
Elenco: Kaitlyn Dias, Amy Poehler, Phyllis Smith, Bill Hader, Lewis Black, Mindy Kaling, Diane Lane, Kyle MacLachlan, Ben Cox
Duração: 5 minutos
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Dante’s Lunch: A Short Tail

SPOILERS de Viva: A Vida é uma Festa!

O que filmes de cachorro e de pessoas deficientes têm em comum? O fato de que mexem facilmente com as emoções de qualquer consumidor padrão de obras audiovisuais que tenha o mínimo de empatia. E essa facilidade corresponde a obras que geralmente se seguram nesse apelo da fácil empatia, seja dramaticamente através do sentir pena da pessoa/bichinho, seja comicamente transformando-as em bobas para o espectador rir junto a eles.

Ora, então todo filme com cachorro bonitinho e fofinho e/ou pessoa deficiente é apelativo? Não exatamente, e este curta é a prova disso. Porque mesmo que se trate do riso fácil vindo de um cachorro bobão (e aparentemente, deficiente também?) perseguindo um osso mágico e destruindo tudo no caminho, no contexto específico de material promocional, diz muito sobre o que será o filme em que é baseado, e não só isso, depois que se assiste a Viva: A Vida é uma Festa, ele se ressignifica ainda mais. Afinal, o cachorro no filme é o guia espiritual de Miguel, então faz total sentido que ele seja o primeiro antes mesmo da história do filme começar a encontrar os esqueletos na ponte entre o mundo dos mortos e o mundo real. A ironia de ser um osso ali é colocada de forma brilhante, igualmente ao fato de ser “bobão”, dentro desse contexto de simbologia que dá a ponte para o personagem se tornar icônico no filme seguinte.

Ou nem isso, a condição de Lee Unkrich na brincadeira é tão sensível que já deixa o personagem icônico nos próprios dois minutos que desviam de quaisquer apelos fáceis da fisionomia do cachorro, capturando uma inocência e especialidade do animal sem mesmo sabermos o que de fato ele será na história.

Dante’s Lunch: A Short Tail (EUA, 2017)
Direção: Lee Unkrich
Roteiro: Adrian Molina, Lee Unkrich
Elenco: Gael García Bernal
Duração: 2 minutos

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