Crítica | Curtas do Oscar 2019: Live-Action

Seguem as críticas dos cinco indicados ao Oscar de Melhor Curta Metragem (Live-Action) em 2019. Os títulos foram mantidos como indicados pela Academia, seguidos do original entre parênteses:

Detainment
(Idem, Irlanda/Reino Unido – 2018)

Quem não conhece ou não se lembra do caso do assassinato do menino James Bulger, de quase três anos de idade, em Liverpool, em 1993, deveria mergulhar em Detainment na completa ignorância. O efeito será ainda mais devastador. Notem, porém, que “ainda mais” é a expressão-chave, pois devastador esse curta absolutamente é de toda forma, sendo realmente difícil de assistir, mesmo que o diretor irlandês Vincent Lambe tenha sido elegante e cuidadoso o suficiente para jamais, sequer por um segundo, entrar nos detalhes gráficos do horrível incidente.

Partindo das gravações dos diversos depoimentos ao longo da investigação, notadamente dos meninos Jon (Ely Solan) e Robert (Leon Hughes), o curta costura sequências não exatamente em ordem cronológica que reconstroem os momentos mais importantes do que ocorreu. A história por si só é forte o suficiente para grudar qualquer um no sofá, sendo um daqueles filmes que poderia ser da pior qualidade, mas que mesmo assim chamaria atenção. Mas acontece que a obra de Lambe é um primor de construção de tensão, suspense e mergulho em mentes e almas profunda e misteriosamente perturbadas. A cada trecho da entrevista nossa repulsa aumenta, juntamente com a estupefação em cima de algo que simplesmente não podemos acreditar, talvez por sermos incapazes de sequer registrar a possibilidade do que vemos. Mas, como disse, trata-se de uma fidelíssima recontagem do que efetivamente ocorreu e só isso já é motivo para levar qualquer um à tristeza profunda.

Mas mais surpreendente ainda do que a história e a maestria com que o diretor e roteirista a conta são as performances dos atores mirins. Muito jovens, mas não o suficiente para deixarem de compreender a magnitude do que aconteceu em 1993, o que torna o trabalho deles ainda mais difícil, os dois entregam atuações desnorteadoras de tão verossimilhantes. O desespero em um crescendo histérico de Solan é particularmente inacreditável, mas a relativa frieza de Hughes também não fica atrás e as sequências intercaladas com um e outro personagem nos desarmam e destroem nossa resistência. Quando os 30 minutos acabam, estamos esgotados e horrorizados.

Direção: Vincent Lambe
Roteiro: Vincent Lambe
Elenco: Ely Solan, Leon Hughes, Will O’Connell, David Ryan, Tara Breathnach, Morgan C. Jones, Brian Fortune, Kathy Monahan, Killian Sheridan Martin Phillips, Caleb Mason, Barbara Adair, Julie Lockey, Helen Roche
Duração: 30 min.

Fauve
(Idem, Canadá – 2018)

Dois adolescentes sendo adolescentes e brincando onde podem, em uma locomotiva abandonada e nos arredores de uma mineradora. Momentos tranquilos de alegria e traquinagem que são construídos cirurgicamente para deixar o espectador com o proverbial cabelo em pé, em um crescendo de tensão que indica que “algo vai acontecer”, mas sem que seja imediatamente detectável exatamente o que.

Jeremy Comte trabalha, em poucos minutos, o suspense silencioso com imagens prosaicas quase completamente sem diálogos e com um desfecho devastador. Sua câmera nos aproxima da dupla mirim para estabelecer os laços de amizade, ao mesmo tempo em que trabalha planos gerais, por vezes extremamente distantes, para infundir aquela sensação de abandono e de desastre iminente. A vontade é de se jogar na tela para ajudar de alguma forma e isso é mais do que podemos dizer de muitos filmes de suspense de grande orçamento que são lançados por aí.

Félix Grenier é o destaque dramático. O jovem ator transita da alegria e descontração ao estado de choque absoluto com tamanho realismo que é quase como se estivéssemos assistindo a um documentário. Ele passa facilmente a sensação de inocência da juventude sendo completamente esmigalhada em questão de minutos para provavelmente nunca mais voltar. Seu momento introspectivo ao final é destruidor e tocante, que realmente incomoda e nos faz até parar de respirar por alguns segundos.

Direção: Jeremy Comte
Roteiro: Jeremy Comte
Elenco: Félix Grenier, Alexandre Perreault, Louise Bombardier
Duração: 17 min.

Marguerite
(Idem, Canadá – 2017)

Envelhecer é sem dúvida difícil e exige muitas adaptações, mas passar a vida sem ter concretizado um sonho ou um desejo pode ainda pior. Marguerite (Béatrice Picard) é uma senhora com deficiência renal que vive em casa, mas que recebe cuidado diário da assistente social Rachel (Sandrine Bisson), muito atenciosa e cuidadosa em seu trabalho. A relação das duas é próxima, mas com um quê de distância mantido pelo profissionalismo de Rachel. Quando, porém, Marguerite descobre que sua cuidadora é lésbica, a coisa muda. Mas não do jeito que imaginamos.

A atriz Marianne Farley, na segunda vez capitaneando um curta-metragem, primeiro brinca com nossas expectativas, fazendo-nos acreditar que a simpática senhorinha é antiquada e conservadora e que a reação dela em relação a Rachel será a pior possível. É uma excelente maneira de atrair o espectador para a narrativa e laçá-lo de maneira inescapável tendo a performance de Picard como centro das atenções. Mas se esperarmos o pior, recebemos o melhor e vagarosamente Farley faz a personagem-título entrar em um belo “modo nostalgia”, relembrando seu passado e um amor platônico que viveu.

Trabalhando close-ups inclementes que não têm vergonha de apontar dedos para o futuro de todos nós (se tivermos sorte!) e extraindo o máximo de sua estrela da terceira idade, a diretora cria um conto repleto de ternura, saudades e que passa sua mensagem inclusiva sem jamais chegar próximo de ser um sermão cansativo. Há palavras, mas elas são poucas. Os olhares dominam e encantam e trabalham a velhice e o que foi ou não feito no passado com sobriedade e beleza.

Direção: Marianne Farley
Roteiro: Marianne Farley
Elenco: Béatrice Picard, Sandrine Bisson
Duração: 19 min.

Mother
(Madre, Espanha – 2017)

Uma mãe recebe uma das piores ligações possíveis de seu filho de seis anos: ele está perdido em uma praia cujo nome ele nem sabe qual é, com ninguém por perto e a bateria acabando. Seu pai sumiu e tudo o que a mãe sabe é que os dois estariam viajando entre a Espanha e a França. O que fazer?

Rodrigo Sorogoyen não responde essa pergunta e ele nem poderia, pelo menos não nos 19 minutos que usa para trabalhar tensão e pavor, somente do lado da mãe e um pouco da avó, já que nunca vemos o filho, em um curta em um plano-sequência só (ou quase) que faz o espectador acompanhar de perto, muito perto o drama que se coloca. É como uma versão realista e encurtada de Celular: Um Grito de Socorro que não tem nenhuma intenção de fechar o círculo narrativo. Apesar de Blanca Apilánez e Marta Nieto, que vivem, respectivamente, a mãe e a avó da criança, conseguirem dar o melhor de si para evitar a teatralidade dos movimentos de câmera necessários para permitir a tomada única, por vezes o drama se perde em gritaria que, apesar de necessária e esperada, poderia ter ganhado um pouco mais de força e timing.

Usando o horror de uma situação como a possível perda de uma criança, Mother é perfeitamente relacionável por qualquer um e somente isso já atrai atenção. O plano-sequência único é um bônus interessante e bem feito, ainda que não essencial e a dupla de atrizes convence na maioria do tempo. O resultado disso é o suor frio que sentimos ao final da experiência.

Direção: Rodrigo Sorogoyen
Roteiro: Rodrigo Sorogoyen
Elenco: Marta Nieto, Blanca Apilánez, Álvaro Balas, Miriam Correa
Duração: 19 min.

Skin
(Idem, EUA – 2018)

Skin, termo de significado duplo no curta de Guy Nattiv, começa muito bem abordando a juventude sendo corrompida pela visão de pais nazistas na tão mencionada middle america. Armas, nacionalismo, tatuagens de ódio e atitudes racistas formam o dia-a-dia de um jovem alegre e aparentemente feliz de 10 anos. E um sorriso inocente de um homem negro para o garoto deflagra uma guerra.

Enquanto a narrativa do cotidiano da família caipira supremacista é o foco da fita, ela anda muito bem, passando sua mensagem sem didatismos e sem exageros. Testemunhamos uma mente jovem ser lentamente levada para o lado sombrio, mas evitando que o garoto caminhe pelo rumo óbvio, como tatuar uma suástica no braço ou algo do gênero. Sentimos o horror da situação e a pena por uma vida que provavelmente não terá um futuro muito diferente da dos adultos ao seu redor. É o ciclo vicioso da perpetuação do ódio.

No entanto, quando a virada narrativa acontece, depois do mencionado sorriso inocente no caixa de um supermercado, o filme torna-se um thriller estranho, com câmera na mão desnorteando o espectador e uma história substancialmente banal de “violência gera violência”, mas sem peso dramático e que vive do seu final que só é chocante e imprevisível para quem não tiver prestado atenção em nada. Continua sendo um bom curta, mas sua mensagem de intolerância acaba diluída e perdida em meio à confusão. Uma pena.

Direção: Guy Nattiv
Roteiro: Sharon Maymon, Guy Nattiv
Elenco: Johnse Allende Jr., Zeus Campbell, Lonnie Chavis, Jared Day, Sam Dillon, Shelley Francisco, Maliq Johnson, Ronnie Tyrone Lee, Danielle Macdonald, David Maloney, Jahdai Pickett, Katie Ryan, Jackson Robert Scott, Ashley Thomas
Duração: 20 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.