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Crítica | Curtas do Oscar 2021: Live-Action

por Iann Jeliel e Davi Lima
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Curtas Oscar

No seguinte compilado, você encontrará críticas de cada um dos cinco indicados a categoria de Melhor Curta-Metragem em Live-Action do Oscar 2021 em ordem alfabética. Os textos dos curtas Dois Estranhos, The Letter Room e White Eye foram escritos por Davi Lima, enquanto os curtas Feeling Through e O Presente foram escritos por Iann Jeliel.
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Dois Estranhos

Curtas Oscar

Existe algo acessível nesse curta-metragem que cria uma polaridade e forma a qualidade desse projeto disponível na Netflix. Porque, se por um lado é uma obra propagandista, com estilo pop de looping narrativo, e pega os tratamentos eufemizantes da conversa do carro entre o negro e o policial, que resolve problemas imediatos do filme da última semana, ao mesmo tempo coloca-se uma representação da juventude negra que consegue investir num curta para chegar no Oscar e dizer que a luta não acaba numa conversa, nem num tratamento pop, nem numa representação isolada. É um filme que não sabe a hora de acabar, diante disso, nem no que pode ser um absurdo cômico, nem no melodrama elíptico de um policial levar o negro para casa, nem nos close up explicativo que ironizam a cena seguinte. (A frase da porta do carro, e como o protagonista estar em perigo dentro do carro com as grades).

Então, a situação incômoda e o pop nunca se terminam, ou não terminam um na linha da outro. Não tem escolha nem destino, tem o fato redundante do racismo que de tão trágico pode se torna absurdo cômico e voltar a ser trágico de variadas formas de se tratar um mesmo tema. Por isso a aposta segura nessa fotografia limpinha, quadradinha, que coloca dois personagens em distância equitativa, e diz até o número 100 da perfeição do loop, e quebra a horizontalidade da fotografia em 90 graus para delatar o marco temporal do looping. É tudo bonitinho para o pop que nunca termina nesse discurso, termina nas pessoas e na insistência real que a propaganda investe e passa, mas a luta continua. A única escolha que o curta aparentemente faz é não contra atacar a polícia com a arma, porque a luta não é só material.

Assim, fica nesse embolo de polos, o curta falso (propaganda) e o curta sagaz (usando artimanhas pop), quando ele termina num fundo embaçado (reverso do close) de uma escada com nomes de pessoas negras mortas assim como George Floyd. Um curta que soa isolado por uma classe jovem quando é abrangente para a comunidade negra, e soa insensível por repor uma discussão com o pop, quando a própria forma é inadmissível de terminá-la exposta no curta.

Dois Estranhos (Two Distant Strangers | EUA, 2021)
Direção: Martin Desmond RoeTravon Free
Roteiro: Travon Free
Elenco: Joey Bada$$, Andrew Howard, Zaria Simone
Duração: 32 minutos
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Feeling Through

Curtas Oscar

Interessante como o curta propõe o seu exercício empático de modo convidativo sem parecer está pescando o público a um sentimentalismo apelativo. A mise en scene encorpa o olhar do jovem a situação que ele começar a ajudar por uma suposta obrigação moral, convertendo-a em um ato de boa fé quando essa ajuda levantada por ele, passa a ter uma comunicação recíproca mais direta. É bem simples, bem didático também, mas primordialmente eficiente na encenação de um raro movimento de otimismo.

Contrabalanceando esse cenário que pode até ser acusado de utópico, há uma captura precisa da urbanização preenchendo os espaços do início do curta. Realmente é como se todo mundo vivesse tanto no seu mundo que é incapaz de perceber os problemas piores que as pessoas a circundam. É uma boa isca para o curta pegar o telespectador a refletir sobre as bolhas sociais, tudo com bastante sutileza, junto a por exemplo, os desdobramentos do meio em comum que fez os personagens se relacionarem. Pouco é dito, só a elaboração dos acontecimentos já fornece as ferramentas suficientes para supormos o que aconteceu, deixando o ato de empatia do jovem com um tom ainda mais melancólico do que um simples gesto a alguém que precisa de um ajuda até maior que a aparência.

É um curta bem bonito, sem moralismos óbvios ou sentimentalismos plantados. Bastante direto e simples no seu intuito reflexivo e com isso, naturalmente emocionante e empático.

Feeling Through (Idem | EUA, 2020)
Direção: Doug Roland
Roteiro: Doug Roland
Elenco: Steven Prescod, Robert Tarango
Duração: 18 minutos
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O Presente

Curtas Oscar

Uma atmosfera de pressagio e desconforto na familia palestina é presente desde quando acordam, independentemente de ser uma data comemorativa ou não. Em Israel, nem mesmo dias ordinários dedicados coisas ordinárias e necessárias esses povos têm paz, quanto mais no “luxo” de ir comprar presentes que não necessariamente precisam ter uma justificativa.

Por que você comprou uma geladeira?”. Nem parece uma pergunta que se faça, cada um compra o que bem entender. Mas é nessa banalidade que a lente da cineasta captura que o desconforto e injuria da constante humilhação que a supremacia Israelense submete aos povos palestinos os quais dividem o mesmo território não se refere a condições financeiras, já que elas não surtem o menor efeito reativo ao preconceito cultural historicamente construído. No recorte escolhido, isso se torna bem didático e simples, mas a diretora consegue extrair daí uma atmosfera opressora muito maior, apenas com sugestões de ângulos de câmera que diminuem o espaço dos personagens, os observam com menoridade, como se eles estivessem sendo perseguidos por algum fantasma, que os fiscaliza a  qualquer movimento.

Ao final, o curta flerta com o apelo gráfico na explosão de algo rotineiro. O personagem grita porque não aguenta mais, mas pior do que se ele morresse ali por nada, é ele ser liberado para logo mais ter de voltar para lá de novo e sofrer mais outra humilhação. Uma escolha acertadíssima e sem apelos, para que a denúncia fale por si só, num sentimento natural de revolta que envolve o público observador.

O Presente (The Present – الهدية | Palestina – Qatar, 2020)
Direção: Farah Nabulsi
Roteiro: Farah Nabulsi, Hind Shoufani
Elenco: Saleh Bakri, Maryam Kanj, Mariam Basha
Duração: 24 minutos
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The Letter Room

Curtas Oscar

A possibilidade de cada milímetro desse curta-metragem seguir uma cartilha de proporcionalidade de um plano temático (quando a fotografia capta o próprio tema retratado) com seu efeito mais direto é tão possível quanto o ator Oscar Isaac ser a causa dessa produção audiovisual chegar a lista de indicados ao Oscar. Porque, por mais que o filme se esforce em tratar da ordinariedade de um agente carcerário latino, a ilustração sonora e visual, tecnicamente, é tão cartilhada na perfeição modal que esvazia os maneirismos da atuação que Oscar tenta trazer para um personagem comum.

A grande incoerência do curta se mostra nessa sua tentativa de ser comum, quando sua forma é completamente aprimorada na representação explosiva de toda a maquinaria técnica não comum. É como se na composição da fotografia, com edição de som, mixagem, design, entre outras áreas técnicas de produção audiovisual, houvesse um impulso individual tão intenso de cada área que produzisse um curto circuito de tanta potência que a tomada narrativa não sustentasse. Não há nivelação ou unidade estilística para tratar de uma temática, há o qualitativo referente ao efeito mais direto da história sem compreensão das margens que centralize tal efeito.

Dessa maneira, uma conversa indiscreta do agente carcerário com uma mulher grávida tem seu plano fotográfico tremido pela lógica clara do que isso indica, a trilha de lambada, que parece representar o caráter latino estereotipado – moralmente errático, e por isso assertivo – e quando o protagonista se excita lendo uma carta a fotografia muda o filtro que valoriza cores quentes para esse único momento. Logo, há uma sujeitação desordenada, embora cartilhada, dessas peripécias lustrosas da técnica cinematográfica, que postam um caráter bem acomodado e quentinho de se assistir uma história desrelacionada com a forma que se conta. Sem dúvida há uma mensagem em prol da vida, mas a vida que a obra transmite, além da mensagem, parece um modelo arrumado, que tenta se desarrumar (a cena de Oscar Isaac com o bigode sujo) para ficar crível.

The Letter Room (Idem | EUA, 2020)
Direção: Elvira Lind
Roteiro: Elvira Lind
Elenco: Oscar Isaac, Alia Shawkat, Brian Petsos, Tony Gillan, Michael Hernandez, Eileen Galindo, John Douglas Thompson, Kenneth Heaton
Duração: 32 minutos
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White Eye

Curtas Oscar

Quando o plano sequência se torna um caráter simbólico da culpa e do egoísmo. Ao longo do curta-metragem, a provocação do ininterrupto problema da bicicleta, na verdade, por fim, expõe a casca de um problema individual do personagem israelense que perde tempo com seu ego, enquanto desmonta um ambiente de sustento financeiro para imigrantes que fogem da burocracia. No seu planejamento de estabelecer um espaço de poucos metros para formalizar o plano-sequência, o curta aproxima a dimensão do tempo, e problematiza dramaticamente os fatores burocráticos que não se sujeitam nem ao cidadão, nem ao imigrante. E nessa falta para ambos personagens, o imigrante e o israelense que querem uma bicicleta branca, tanto o dinheiro quanto o tempo se esvaziam de significância quando se apresentam os temores sociais mais profundos.

Porque, em geral, desenvolve-se uma temática do preconceito por trás da bicicleta que tanto se almeja como ponto denso dramático do curta. Há o preconceito com o israelense que é acusado de ladrão por não ter feito o Boletim de Ocorrência quando foi assaltado, quanto com o imigrante. Assume-se, assim, um processo contínuo, sem corte, da seletividade burocrática da polícia, entre escolher a discussão do roubo nos termos legais ou prender um imigrante de visto atrasado.

Por fim, se a burocracia é o termo relativo na história, os absolutos se expõem, a tal exposição da casca para ir fundo no humanismo em jogo. O egoísmo do israelense é o que sobra junto com a bicicleta, o último problema capital no escopo burocrático desenvolvido. E se o plano-sequência preserva o plano, como função básica, o sentimento de esvaziamento, quando todos os personagens envolto da bicicleta, incluindo o israelense, é o efeito simbólico que fixa na bicicleta melancolicamente.

White Eye (עין לבנה | Israel, 2019)
Direção: Tomer Shushan
Roteiro: Tomer Shushan
Elenco: Daniel Gad, Dawit Tekelaeb, Reut Akkerman, Amir Bushari, Gosha Demin, Hameis El-Sheikh
Duração: 20 minutos

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