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Crítica | Da Colina Kokuriko

por Ritter Fan
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Cinco anos depois do ambicioso, mas fundamentalmente falho Contos de Terramar, Gorô Miyazaki retornar à direção de um longa animado para o Estúdio Ghibli, desta vez transpondo para as telas uma história intimista co-roteirizada por seu pai, Hayao Miyazaki, e Keiko Niwa, com base em mangá de Tetsurô Sayama publicado entre 1979 e 1980. Trocando a alta fantasia por um conto de raízes históricas passado em 1963, às vésperas das Olimpíadas de Tóquio, o cineasta encontra sua redenção cinematográfica e entrega um longa lindíssimo e genuinamente sentimental que gira em torno do nascente amor entre dois jovens.

A chave de Da Colina Kokuriko é a mais pura singeleza. Não há nada pretensioso ou complicado na história para além de uma ou duas revelações envolvendo parentescos que, porém, o roteiro costura muito bem na narrativa e que o diretor usa de maneira esparsa, natural e lentamente levando o assunto a uma satisfatória e certamente emocionante conclusão. Na história, Umi Matsuzaki (Masami Nagasawa), menina que vive em uma pensão no topo da colina do título em Yokohama e que todo dia hasteia e recolhe bandeiras marítimas acaba envolvendo-se com o jovem Shun Kazama (Junichi Okada) que, com seus amigos, luta para evitar a demolição do chamado Quartier Latin, um prédio histórico utilizado como sede de clubes de estudo da escola (como um fraternidade, mas no estilo japonês).

As Olimpíadas de Tóquio funcionaram como um marco simbólico da inserção do Japão no panorama mundial depois da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coréia, marcando, por assim dizer, o reconhecimento mais amplo do país fora dos estigmas bélicos, quase como um “baile de debutante”. Era importante que o país se mostrasse moderno e, principalmente, ocidentalizado, processo que iniciou mais fortemente ao fim da Segunda Guerra, claro, com a ocupação americana, mas o preço desse caminho – de certa forma até hoje seguido – é o emudecimento da cultura e tradições japonesas, algo que o fictício prédio a ser demolido simboliza no longa. A “velharia” precisa abrir caminho para o novo, de forma que o passado fique no passado e o país possa finalmente olhar para a frente.

É essa abordagem tradicionalista que Da Colina Kokuriko lauda praticamente a cada quadro da projeção, tendo a conexão de Umi, que tem a ideia de limpar e reformar o prédio de forma a espelhar a pensão muito bem cuidada em que mora e que tem mais ou menos a mesma idade que o Quartier Latin, com Shun, que se encanta pela jovem desde a primeira vez que a vê do topo de uma casa, como uma forma de justamente impulsionar essa narrativa, já que o passado deles conecta-se com as duas guerras citadas conforme vamos entendendo no desdobrar da história. No entanto, é importante deixar claro – já que a menção à “tradição”, nos dias binários de hoje, pode ser má interpretada – que o longa não é negativamente nacionalista ou tradicionalista. O roteiro empresta tons de orgulho pela cultura nipônica, mas de forma que eu interpreto como benéfica e respeitosa, mostrando que, para andar para a frente, não é necessário ignorar o passado. Muito ao contrário, andar para a frente significa justamente aprender com o passado e evoluir a partir dele para, de um lado, evitar o cometimento dos mesmos erros e, de outro, construir em cima daquilo que tem valor, tudo mantendo um senso de comunidade muito saliente, outro elemento que vemos diversas vezes ao longo da projeção.

Da Colina Kokuriko é exatamente isso: um filme que nos faz dar valor àquilo que nos informa. O Quartier Latin pode ser um prédio antigo e caindo aos pedaços – aliás, seu interior caótico é um triunfo de design de animação, contrastando fortemente com a linda e bucólica pensão de Umi -, mas ele é como nossos bisavós e avós, ou seja, o sustentáculo sobre o qual construímos nossa personalidade. A conexão de Umi e Shun, que vai muito além de namorico de escola conforme o roteiro calmamente descortina, é a manifestação física, por assim dizer, do prédio cuja demolição todos procuram evitar, com os jovens tentando entender quem são e, para isso, descobrindo sobre seus respectivos passados.

O segundo longa de Gorō Miyazaki é a vitória da simplicidade sobre os fogos de artifício, um filme que representa muito bem não só o momento histórico de “virada” do Japão, como a importância de valores muitas vezes relegados a segundo ou até terceiro plano, como se o passado fosse algo para ser ignorado ou esquecido. Da Colina Kokuriko, com graciosidade e franqueza, nos faz perceber o quanto realmente precisamos entender o que se passou conosco e com o mundo para permitir que cresçamos de forma sadia e útil para a sociedade.

Da Colina Kokuriko (Kokuriko-Zaka Kara – Japão/EUA, 2011)
Direção: Gorō Miyazaki
Roteiro: Hayao Miyazaki, Keiko Niwa (baseado em mangá de Tetsurô Sayama)
Elenco: Masami Nagasawa, Junichi Okada, Keiko Takeshita, Jun Fubuki, Yuriko Ishida, Nao Ōmori, Takashi Naito, Shunsuke Kazama, Teruyuki Kagawa
Duração: 91 min.

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