Crítica | Da Manhã à Meia-Noite

No livro A História do Cinema Mundial, Laura Loguercio afirma que não é uma tarefa fácil categorizar o Expressionismo Alemão. De Manhã à Meia-Noite. Plano Crítico.

No livro A História do Cinema Mundial, Laura Loguercio afirma que não é uma tarefa fácil categorizar o Expressionismo Alemão. Obviamente, sua característica mais marcante aos olhos é a plasticidade dramática da cenografia,  com os cenários pintados à mão e que subvertem a arquitetura em desenhos imprevisíveis, criando um clima de desconforto acompanhando a mente de seu protagonista. Quem ficou impressionado com as ruas distorcidas em O Gabinete de Dr. Caligari, o filme mais famoso na Alemanha durante a República de Weimar, não deve deixar passar a pérola escondida que é Da Manhã à Meia-Noite

Contudo, se a obra do diretor Karl Heinz Martin (baseada na peça de George Kaiser) é, esteticamente, um Caligari elevado ao quadrado, sua temática e narrativa (usando os conceitos do livro) já se afastam um pouco do padrão expressionista, o que reflete a frase de Loguercio. Primeiramente, porque a história vai muito mais para um lado moralista e de pouca ambiguidade, com uma mensagem não muito nebulosa. De mesmo modo, não há a narrativa-moldura (“o filme dentro do filme”) e o uso de intertítulos é maior do que o usual, assemelhando-se mais com as produções norte-americanas.

Uma temática quase atemporal na história do cinema é a ganância. Em algumas obras, possuir dinheiro é como uma maldição. Este é o mal que assombra Kassirier (Ernst Deutsch), um infeliz caixa de banco que decide largar sua família e roubar dinheiro do estabelecimento em que trabalha para agradar uma mulher que acabara de conhecer. Rejeitado por todos, aquele homem se torna um vagante pelas geladas terras alemãs, sem ter o que fazer com a enorme quantia.

De fato, não há muito aprofundamento no passado do protagonista e nem em suas motivações para largar sua família repentinamente, mas essa falta de informação é suprida pelos elementos de cena. A caracterização de Deutsch já remete a uma enorme sensação de infelicidade e loucura: cabelos em pé, longas olheiras e uma barba enorme, além de uma postura curvada. Aliás, é até interessante pensar na arquitetura do caixa que ele trabalha, sendo um grande quadrado, dividido em grades, no qual há um espaço para ele botar a cabeça para fora. Desse modo, é quase como se ele fosse um prisioneiro, sempre vendo um constante fluxo, tanto de pessoas em seus luxuosos casacos (ressaltado no figurino), quanto de dinheiro, passando por aquela porta. 

Assim, o personagem que já começa em total estado de desgraça, ao acreditar que será salvo pelo dinheiro, na verdade, só entra em uma espiral maior ainda de loucura. Aqui, Heinz, como diretor, usa da maior criatividade possível para expressar a desconexão da realidade de Kassirier. Entre os artifícios mais constantes utilizados  está a substituição de rostos por caveiras, que funcionam como agouros da morte, sempre lembrando que ele nunca estará livre. Pensando na cenografia e na iluminação, a maioria dos cenários são engolidos no horizonte por uma escuridão, ao invés dos tradicionais fundos pintados, quase como se fossem um enorme presságio do que viria a acontecer.

Conforme o progredir da trama, o protagonista muda sua aparência, cortando seus pelos e comprando novas roupas, numa tentativa de se aproximar visualmente daquilo que ele sempre desejou, chegando até a flertar com novas mulheres. Sem muito explicar isso, há algo que faz com que ele não consiga se relacionar com nenhuma delas, quase como se estivesse fadado a solidão. Inevitavelmente, ao se colocar no lugar da burguesia, ele quase sofre daquilo mesmo que praticou, em uma tentativa frustrada de roubo a ele. Logo, tudo isso vai culminando em um inevitável moralismo barato no qual o personagem se arrepende dos atos cometidos e percebe que deveria ter escolhido a família.

Porém, pensando na cena final, em uma clara alusão a um símbolo messiânico, é possível tirar outra interpretação de Da Manhã à Meia-Noite, e que até faz mais sentido dentro do contexto expressionista e individualista. Por toda a narrativa, existe um senso de fatalismo e pessimismo, seja pelas aparições das caveiras ou dos cenários sem horizonte. Ao se desfazer do dinheiro, achando que se livraria da maldição, Kassirier ainda vê o rosto da morte substituindo o de uma pessoa, mostrando que, na verdade, a maldição estaria associada a sua própria existência. Fugindo ou permanecendo, é o homem fadado a ser infeliz, com a única saída sendo a própria morte, uma vez que ele é o seu próprio inimigo. 

Da Manhã à Meia-Noite (Von morgens bis Mitternacht) – Alemanha, 1920.
Direção: Karl Heinz Martin
Roteiro: Karl Heinz Martin, Herbert Juttke, George Kaiser (baseado na peça de George Kaiser)
Elenco: Ernst Deutsch, Erna Morena, Roma Bahn, Adolf E. Licho, Hans Heinrich von Twardowski, Elsa Wagner, Frida Richard, Eberhard Wrede, Lo Heym, Hugo Doblin, Lotte Stein
Duração: 72 min.

MICHEL GUTWILEN . . . Entusiasta da política dos autores. Antes de se preocupar com o tema do filme, sempre atento a maneira como o diretor articula o mesmo através de uma unidade estilística. Acredita que há coisas muito mais interessantes na arte a se falar do que furos de roteiros. Prefere que suas críticas sejam vistas como uma extensão a obra, ajudando a sua discussão após a sessão e propondo novas ideias, ao invés que sejam usadas como recomendação para ir ao cinema. Se inspira muito na Cahiers du Cinema. Admira muito o cinema de Alfred Hitchcock, Robert Bresson, Fritz Lang, James Gray, Naomi Kawase, Orson Welles e Pedro Costa. Reconhece Jean Gabin como maior galã do cinema.