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Crítica | Daisy Miller (1974)

A hipocrisia da alta sociedade.

por Ritter Fan
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Baseado em novela homônima que Henry James publicou em 1878, Daisy Miller é um pequeno, mas muito interessante e surpreendente filme de Peter Bogdanovich que lida com o choque entre a tradição e a modernidade, entre o passado e o futuro em um contexto que põe em antítese a jovem e belíssima Annie “Daisy” Miller (Cybill Shepherd), nova rica de Schenectady, Nova York, que, durante viagem com sua mãe e irmão, conhece Frederick Winterbourne (Barry Brown), americano representante da riqueza clássica e “pura”, em Vevey, na Suíça, onde ele estuda. Daisy não segue as normas implícitas e explícitas da alta sociedade tradicional e refestela-se com a atração que exerce sob os homens, logo capturando o Sr. Winterbourne em sua rede, o que, aos poucos, vai criando o conflito entre os dois lados da alta sociedade da época.

Shepherd estava no auge de sua beleza e Bogdanovich obviamente tinha perfeita consciência disso, mantendo suas lentes dirigidas ao rosto angelical da atriz que faz um esforço tremendo para encarnar sua personagem sem deixá-la descambar para o que poderíamos classificar como “loira burra”. Falando seus diálogos como um metralhadora, o que me faz imaginar quantos takes foram necessários para capturar os textos ininterruptos dela de maneira apropriada, Shepherd triunfa não em se mostrar uma grande atriz, algo que ela verdadeiramente nunca foi, mas sim em compor uma personagem encantadora, mas, ao mesmo tempo, enfurecedora, beirando o insuportável, mas que deixa evidente, logo de início, sua vontade de viver da maneira mais completa possível, um verdadeiro joie de vivre como diriam os franceses, combinado com um razoável, mas sadio grau de inocência.

Barry Brown, como Frederick Winterbourne, é exatamente o contrário disso. Apesar de imediatamente apaixonado por Daisy Miller, ele mantem-se rigidamente dentro das fronteiras estabelecidas por sua criação e pelos ditames da sociedade em que circula. Ele obviamente admira a jovem justamente por ela não seguir por esse mesmo caminho limitativo que ele, mas, ao mesmo tempo, teme ter sua reputação manchada por tabela, possibilidade que fica ainda mais evidente quando a ação é transportada para Roma, na Itália, com Daisy saindo abertamente com o Sr. Giovanelli (Duilio Del Prete) para horror da senhorita Walker (Eileen Brennan) que se arvora como a guardiã dos bons costumes da alta sociedade americana expatriada na Europa e faz de tudo para amedrontar Winterbourne.

Há muito humor no trabalho de Bogdanovich criado naturalmente pela maneira elétrica com que Shepherd derrama as falas de sua personagem, pelo ridículo (para os nosso padrões) choque que ela causa na sociedade e pela presença de Randolph (James McMurtry) o dentuço irmão temporão de Daisy que odeia qualquer coisa que não seja americana, chegando a dizer que a melhor parte da viagem foi o navio em que eles estavam, com o único defeito sendo a direção que ele estava indo. O humor também se deve à presença inconstante, mas sensível da Sra. Ezra Miller (Cloris Leachman), a mãe avoada, tímida, mas também falastrona de Daisy que, como a filha, não consegue enxergar as supostas “impropriedades” no comportamento dela.

E Bogdanovich, novamente, sabe usar essa comicidade inerente para construir Daisy e, por contraste, Frederick, sem jamais apontar para o fim dramático e abrupto do longa que subverte expectativas, especialmente por quase tudo acontecer off screen, com direito até mesmo a um breve salto temporal que pega o espectador desprevenido e uma belíssima tomada em que vemos o Sr. Winterbourne receber uma notícia através da cortina rendada da porta do hotel onde a família Miller está hospedada. Essa escolha do diretor é no mínimo curiosa, pois o filme, até esse ponto mais dramático, vem em um crescendo narrativo que “pula” para um clímax não preparado e ele simplesmente acaba, com a realização dura sobre a incompatibilidade de Daisy Miller com o mundo em que circulava.

Filmado em locação na Suíça e Itália, Bogdanovich usa o ambiente natural para criar frames enquadráveis do cotidiano da alta sociedade, com um desfile de magníficos cenários essencialmente reais em castelos, museus e mansões, além de um mais magnífico ainda desfile de figurinos de época, notadamente aqueles esplendorosamente usados por Daisy Miller. Por outro lado, o diretor não cai na armadilha de transformar seu longa em um “guia turístico”. As atrações históricas locais são usadas, mas não apenas para servirem de enfeites e sim com funções narrativas específicas, notadamente o castelo de Chillon que referencia sombrio poema de Lorde Byron e, claro, mais para o final, o fantasmagórico e até mesmo finalista Coliseu, palco de um show de horrores para agradar a realeza e distrair o povo.

Daisy Miller é, uma joia esquecida na filmografia de Peter Bogdanovich que até mesmo o diretor acabou se arrependendo em fazer por não ter sido economicamente atraente e, por conseguinte, rentável. Mas o filme encanta por economicamente – são apenas 91 minutos! – lidar com a tragédia da hipocrisia humana embalada por uma performance irresistível de Cybill Shepherd e outra estoica, mas repleta de significados escondidos de Barry Brown que, quatro anos depois, tiraria sua própria vida.

Daisy Miller (Idem – EUA, 1974)
Direção: Peter Bogdanovich
Roteiro: Frederic Raphael (baseado em obra de Henry James)
Elenco: Cybill Shepherd, Barry Brown, Cloris Leachman, Mildred Natwick, Eileen Brennan, James McMurtry, Duilio Del Prete
Duração: 91 min.

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