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Crítica | Dália Negra (2006)

por Leonardo Campos
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O sexo e a violência são temas constantes na filmografia do cineasta Brian De Palma. Em algumas produções, ele consegue promover um excelente diálogo entre texto e imagem, na comprovação cabal de suas habilidades de narrador e esteta primoroso. Noutros casos, o desenvolvimento dramático se perde em meio aos excessos do roteiro e o que nos resta é apreciar a formidável manipulação da linguagem cinematográfica. Em Dália Negra, apesar de todos os bons momentos, a imagem em si não chega a ser o primor habitual do realizador, mas apenas um protocolar trabalho, ainda superior ao que a indústria entrega aos montes para consumo rápido, mas uma experiência menor quando lembramos de clássicos modernos do quilate de Vestida Para Matar e Dublê de Corpo, ambos do cineasta que mais uma vez, aborda as obsessões de personagens que atravessam momentos angustiantes em suas vidas, sacolejados pelo espiral de problemas sociais e psicológicos que se estabelecem em seus respectivos cotidianos. Como mencionado, o sexo e a violência, intrínsecos, funcionam como combustíveis para todos os conflitos nesta história que por sinal, se excede nas subtramas.

Ao longo de seus 122 minutos, Dália Negra é comandado por Brian De Palma, tendo como suporte para os seus virtuosismos estéticos, a geralmente competente direção de fotografia de Vilmos Zsigmond, o deslumbrante e pormenorizado design de produção de Dante Ferretti e os acordes da densa trilha sonora de Mark Isham, recursos que tornam o trabalho um conjunto de imagens belos de se contemplar. Na história, acompanhamos um constante jogo de especulações e atmosfera que nos permite lembrar do ótimo trabalho visual e dramático de Los Angeles – Cidade Proibida, ponto alto da produção cinematográfica na década de 1990. Aqui, Brian De Palma retoma a linguagem noir para nos apresentar uma trama sobre amoralidade, sexo, crimes passionais, consumo de drogas, corrupção e como não poderia deixar de ser numa narrativa deste segmento, a femme fatale, arquétipo que é puro perigo e horror para os homens que possuem a má sorte de cair em sua perigosa teia. Metalinguístico, o filme traz imagens que emulam o cinema dos anos 1920 e cria uma versão ficcional para o misterioso assassinato real de uma atriz que teve a vida ceifada muito jovem, um caso nunca desvendado pela polícia.

Sob a direção do experiente cineasta e roteiro de Josh Friedman, responsável pela tradução intersemiótica do romance homônimo de James Elroy, seguimos os passos de Bucky Bleichert (Josh Hartnett) e Lee Blanchard (Aaron Eckhardt), Mr. Ice e Mr. Fire, respectivamente, homens que logo na abertura travam uma luta de boxe que vale uma promoção para as suas carreiras, imbricadas depois que se tornam parceiros policiais. Quando o assassinato da atriz Elisabeth Short (Mia Kirshrer) se estabelece, mulher vitimada por um crime que cortou o seu rosto de orelha a orelha, a dupla tem o movimento catalisador para as situações trágicas que começam a atrapalhar as suas trajetórias. O caso foi intitulado “Dália Negra, pois assim a vítima era conhecida em vida. Mas por qual motivo uma investigação pode causar tanto transtorno na vida desses homens aparentemente seguros de si? É o que Brian De Palma vai gerenciar enquanto narrativa no filme, fortemente inspirado em alguns aspectos do clássico O Homem Que Ri, de Paul Leni, lançado em 1928, um dos materiais de potência referencial na trama que insere um amontoado de subtramas para gravitar em torno do conflito central.

A entrada de Kay (Scarlett Johansson) traz algum clima de mistério para o filme, tal como a enigmática Madeleine Lenscott (Hilary Swank), ambas aparentemente perigosas e mortais, desenvolvidas ao passo que o filme vai avança, letárgico, por sinal, e bastante disperso. Kay é a mulher tirada da vida mundana, ex-prostituta que se casou com Lee e transmite alguns traços de sensualidade no olhar, principalmente quando o seu foco é Bucky, homem que já sentimos, vai despi-la em algum momento. Já Madeleine é a personagem que trabalha arduamente para estabelecer a sua reputação de vadia, algo fabricado pela postura encenada nos ambientes ricos e poderosos por onde circula. Audaciosa, supostamente lésbica e manipuladora, ela exala ambiguidade e nos deixa constantemente em estado de suspensão. Seria ou não uma mulher perigosa e fatal? Qual a sua função dramática na história ao adentrar no cotidiano de Bucky e Lee, especificamente, no primeiro, mais intrínseco e com outros momentos de interação com a poderosa? O texto de Josh Friedman responde aos questionamentos em sua maioria, a direção de Brian De Palma tenta executar da melhor maneira possível o material, mas algo falha.

O que seria? Acredito que o excesso de subtramas e o clima de marasmo que a narrativa alcança em alguns momentos. Não fosse isso, valorizaríamos ainda mais a direção de fotografia e sua paleta sépia, constantemente a flertar com a profundidade de campo para expor aos espectadores alguns momentos inspirados. Ao filmar como um voyeur, a câmera gerenciada por Vilmos Zsigmond, sob orientação do mestre Brian De Palma, ícone da virtuosidade narrativa, entrega excelentes passagens, acompanhadas pela composição imersiva da trilha sonora de Mark Isham, adequada para o clima estabelecido por Dália Negra, produção que também conta com o excelente detalhismo de Chris Tandon na direção de arte e os peculiares figurinos assinados por Jenny Beavan. Ademais, ainda podemos destacar o uso de cortinas e fusões na edição de Bill Pankow, escolhas interessantes no processo de estabelecimento da metalinguagem, algo constate na filmografia do cineasta que em 2006, retornou de um hiato considerável e entregou um filme mediano para o seu porte, apesar do bom elenco e da competência de sempre deste que é um dos melhores discípulos de Alfred Hitchcock.

Diante do exposto, podemos fechar a análise de Dália Negra com a seguinte denominação: “um Brian De Palma menor, mesmo que ainda muito elegante”. Também com menções visuais ao clássico Um Corpo Que Cai e um intrigante processo de autorreferência ao citar Os Intocáveis, de sua própria autoria, o filme perde vigor é no desenvolvimento de suas situações dramáticas, tendo em vista que o roteiro se dispersa com voltas bruscas demais em prol do choque e dos constantes twists. Quando pensamos que a narrativa vai se encerrar, uma fusão fecha e abre arcos dramáticos desnecessários para contar uma história que deveria ter mantido o foco central na morte de Elisabeth Short, ponto nevrálgico empalidecido pelo número constante personagens que entram e saem da narrativa e funcionam pouco dramaticamente. A mutilação e os demais aspectos hediondos do crime contra a atriz, material potencialmente instigante, é deixado de lado para que o roteiro cometa os seus excessos. A caricatural presença de Fiona Shaw também causa algum incomodo. Ela é um personagem importante, mãe de Madeleine e com participação forte em alguns conflitos, mas não é bem trabalhada pelo texto, tampouco pela direção. Assim, ao invés de ser ótimo, Dália Negra se torna apenas um filme bom, talvez mediano.

Dália Negra (The Black Dahlia) — Alemanha, 2006
Direção: Brian De Palma
Roteiro: Josh Friedman
Elenco: Aaron Eckhart, Hilary Swank, John Kavanagh, Josh Hartnett, Mia Kirshner, Scarlett Johansson, William Finley
Duração: 119 min.

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