Crítica | Dampyr: Fantasmas de Areia e Noturno Vermelho

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A imagem de destaque deste compilado é a capa desenhada por Ashley Wood para Notturno in Rosso (Nocturne in Red), a quarta edição de Dampyr publicada nos Estados Unidos pela editora IDW, em 2005. Abaixo, as histórias Fantasmas de Areia e Noturno Vermelho, originalmente publicadas entre junho e julho de 2000, pela Bonelli. A edição brasileira mais recente para estas histórias, do momento em que escrevo essas críticas, é a da Editora 85.

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Fantasmas de Areia

Datada de julho de 2000, Fantasmas de Areia segue em excelência as histórias de Dampyr, cujo arco inicial formado por O Filho do Vampiro e A Estirpe da Noite está entre as melhores estreias de títulos da Sergio Bonelli Editore que eu já tive a oportunidade de ler. Nesta terceira edição da série, vemos Harlan Draka em viagem a Merwindale, Inglaterra, local para onde resolveu viajar sozinho, a fim de aprender mais sobre sua origem e sobre seu misterioso e temido pai. Há um pequeno flashback onde vemos Kurjak e Tesla e onde essa rápida informação sobre a viagem do caçador de vampiros é dada, mas rapidamente voltamos para o presente e seguimos com a macabra aventura de Draka, que além dos inimigos sobrenaturais de sempre, tem que lidar com a xenofobia dos habitantes desta pequena cidade costeira.

A apresentação da história é simples e despreocupada, mas com uma atmosfera bem sombria. Pai e filho fazem uma trilha por um costão e conversam sobre trivialidades familiares, sobre memórias de infância do mais velho e contrastes com aquilo que é divertido para o mais novo. Um intenso clima de perigo se vê desde esses quadros iniciais, especialmente quando o Sandcastle Arcade — um parque de diversões abandonado defronte ao mar — se torna a atração principal. Embora eu tenha achado o garoto com frases maduras demais para alguém da idade dele, o diálogo que tem com o pai é ótimo, assim como o jogo de “diversão para cada geração” que o roteiro cria.

Lugares abandonados, como os que temos nessa história, são sempre excelentes pontos de partida para boas narrativas de terror e conseguimos ver como isso se constrói desde a visitinha da dupla ao parque abandonado, até o fechamento do ciclo de horrores, com a grande cena de ação que se passa no mesmo local, com muito mais gente envolvida.

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O roteiro de Mauro Boselli faz uma boa ligação entre as feridas sociais da época e a caça aos seres sobrenaturais aqui. A busca de Harlan Draka acaba se dividindo em partes distintas no texto, muitas vezes caindo no espaço cheio de pessoas que ouviram muitas lendas urbanas na vida e estão dispostas a rejeitar tudo o que pareça sobrenatural. Ou tudo o que não lhe seja conhecido, de vampiros e fantasmas até indivíduos estrangeiros. E é com essa marca do preconceito local que o texto avança, chegando a uma ágil e incrível sequência no parque de diversões, com Harlan, a vampira Amber e Kostacki, o “Homem Negro de Screech Wood” em luta. A impressão de riqueza canônica desse Universo vampiresco é enorme nessa edição, e isso é impressionante porque estamos falando apenas da terceira publicação do título!

Com ótima arte de Luca Rossi e um desfecho amigável e bastante satisfatório, onde o autor não nega vítimas ao leitor, mas também não torna a aventura um desespero trágico completo, Fantasmas de Areia mostra mais uma grande possibilidade de poderes para um vampiro. E a cada nova trama, entendemos o quão incríveis podem ser essas criaturas da noite se um mergulho inteligente for feito em sua longa coleção de lendas.

Dampyr #3: Fantasmi di Sabbia (Itália, junho de 2000)
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Mythos (2004) e Editora 85 (2018)
Roteiro: Mauro Boselli
Arte: Luca Rossi
Capa: Enea Riboldi
100 páginas

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Noturno Vermelho

E da Inglaterra passamos para o norte da Alemanha, onde uma suja negociação de fitas de vídeo acontece, sugerindo um tipo de “terríveis filmes amadores” que, se esta história fosse escrita nos dias atuais, seriam encontrados da deep web. O início de Noturno Vermelho dá todas as cartas necessárias para que o leitor entenda o tom geral do enredo, fortemente pautado pela ação, mas de um nível bem diferente do que havíamos tido na série até o momento.

O texto de Maurizio Colombo cria uma aventura de máfias (em diversas atividades: dos vídeos criminosos ao tráfico de drogas) e foca a trama na Rússia, para onde viajam Harlan, Kurjak e Tesla, a fim de caçarem um “rei do crime” misterioso conhecido como Vurdalak, mítico e poderoso vampiro milenar que domina o submundo do crime e fomenta a guerra onde quer que possa. De maneira muito rápida, o leitor se vê engajado na viagem do trio até Moscou, impressionando-se com a fluidez com que as coisas acontecem aqui e como o roteiro consegue manter uma grande quantidade de ação em andamento. Este, aliás, é um dos ingredientes principais de Dampyr, e é algo que nunca deixa de me impressionar pela qualidade narrativa e estética (aqui, nos traços de Maurizio Dotti) com que todas essas as lutas e as fugas acontecem.

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Dotti ainda merece os louros pela boa dinâmica nas representações mentais de Vurdalak, um bom contraste entre realidade e ilusão (ou “coisas inacreditáveis”) que vemos aparecer de diversas formas no decorrer da saga. Todas as negociações entre os bandidos aqui estão marcadas por duas linhas de conflito: uma humana e outra sobrenatural, e em cada uma delas temos uma surpresa através da arte, sendo a minha favorita aquela mostrada no ato final, pela carnificina que acontece e pela forma como as duas forças em ação se enfrentam. É neste ponto da história que o dilema em torno de Harlan fica ainda mais interessante e algo que acontecera no primeiro arco da série volta a acontecer aqui: ele suga o sangue do derrotado chefão inimigo para aumentar seus poderes e aprender mais sobre quem é… e sobre o que pode fazer. Embora meio reticente, o final acaba representando com bastante realidade o sentimento de dúvida e angústia do protagonista, especialmente depois de uma intensa e perigosa luta.

Em tempo: a capa original de Enea Riboldi para esta edição é simplesmente horrorosa. Vejam esse rosto de Harlan Draka, pelo amor de Deus! Essa boca, esses olhos terríveis. Parece um Teletubbie dos bálcãs usando uma peruca… O horror, o horror.

Dampyr #4: Notturno in Rosso (Itália, julho de 2000)
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Mythos (2004) e Editora 85 (2018)
Roteiro: Maurizio Colombo
Arte: Maurizio Dotti
Capa: Enea Riboldi
100 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.