Crítica | Dampyr: Nascido no Pântano e Delta Blues

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Mauro Boselli disse, em mais de uma ocasião, que sua ideia geral para a escrita do arco formado por Nascido no Pântano e Delta Blues (volumes originalmente publicados entre junho e julho de 2001, pela Sergio Bonelli Editore) tinha a real intenção de homenagear o blues e o icônico bluesman Robert Johnson, sendo a história de vampiros apenas uma ‘desculpa’ de evocação do personagem, do estabelecimento de cenário e, claro, do gênero musical. E com efeito, o roteiro de Boselli dá toda a atenção possível à música nesta saga, marcando a caça de Harlan Draka e seu parceiro Kurjak através da alma e pela letra de famosos blues, enquanto mistérios sobre fama, maestria ao tocar um instrumento e questões pessoais e sociais começam a vir à tona.

A trama se passa no Mississípi, lugar onde a dupla de caçadores de vampiros é visitante. Todo o arcabouço folclórico em torno da faixa Crossroad Blues e a famosa história de Robert Johnson ter vendido a alma ao diabo são colocadas na história desde cedo, para não deixar o leitor criando expectativas sobre o que não deve. Com isso estabelecido, entendemos qual é a verdadeira intenção do enredo e, em pouquíssimo tempo, estamos aproveitando a fantástica dualidade dos diálogos, numa camada falando de música e até fazendo referências a Creedence Clearwater, Allman Brothers e Lynyrd Skynyrd; e noutra, dialogando sobre Le Maître des Carrefours (o Mestre das Encruzilhadas) ou Legba (um espírito vodu de quem também conhecemos o irmão, Barão Samedi, em dado momento da história) e também sobre relações sociais, tendo este ponto um curioso tempero de crítica social no arco.

Para que o leitor entenda essa questão de maneira mais precisa, vamos relembrar aqui um aspecto geográfico e outro histórico do local onde essas histórias se passam. Há uma região de linha costeira na Terra do Tio Sam chamada Costa do Golfo dos Estados Unidos, que é composta pelos Estados do Alabama, Flórida, Louisiana, Mississípi e Texas. O grande Rio Mississípi corta uma parte e deságua em forma de delta nessa região, local onde está uma parte considerável do bioma de pântanos (bayous) dos EUA. Sabemos que o uso da mão de obra escrava foi intensa nesses lugares e que o tempo não curou as feridas causadas pelo violento e não completo processo de libertação e inclusão do povo negro nesta região. Até pelo menos o final dos anos 1970 (hoje essa divisão é consideravelmente menor, mas não extinta) as comunidades negras dessa região concentraram-se e formaram diversas cidades nas bordas dos pântanos, porque eram lugares perigosos, de difícil acesso e portanto mais baratos para se viver, onde a maioria dos brancos não queria ir.

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Página da edição croata.

Assim, entendemos a relação geopolítica que o autor nos coloca, principalmente no bloco da polícia local, onde um xerife racista não perde a oportunidade de dar suas infames opiniões para um de seus principais oficiais, um jovem negro que no final do arco fará uma interessante revelação para o leitor. Outras questões raciais, econômicas e até de tratamento da mulher naquela região são abordadas organicamente na trama, tudo para contextualizar uma história de vampiros que na verdade são frutos de um pacto com um demônio. Ecoando o trágico acidente com o Lynyrd Skynyrd em 1977, o autor criou aqui os Swamp Lizards, que também sofrem um acidente de avião e cujo líder, Roger Sheldon, faz um pacto com Mestre Legba para que sobrevivam e possam continuar a carreira. O ponto frágil do texto está justamente na forma como o grupo resolveu voltar, tanto tempo depois, para o lugar onde recomeçariam a sua jornada de glória.

Falando sobre música e desejo de fama, além de feridas históricas e uma bem diferente “caçada ao demônio ou vampiro“, estas duas edições de Dampyr cumprem muito bem o papel de homenagem ao blues, trazendo a excelente arte de Maurizio Dotti e mostrando que o horror não desconsidera nenhum tempo, classes, etnias ou lugar para se fazer presente. Da mesma forma, o conflito entre maldade e bondade sempre acontecerá para cada um defender seus territórios ou aliados. Uma baita história de terror com uma ambientação musical que acaba ganhando verdadeiro destaque como linha narrativa, isso sem distrair o leitor ou escantear a ação principal. Um trabalho aplaudível.

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No Manual do Vampirólogo do início desses dois volumes, temos informações sobre os vampiros orientais. No primeiro livro, sabemos um pouco mais sobre os vampiros, espíritos e criaturas chineses como chiang-shi e kuei; e sobre seres malaios dessa categoria, como langsuir, pennangalans, polongs, pelesit e pontianak (ou mati-anak). No segundo livro, temos informações sobre os montros da Índia e proximidades. O manual cita as seguintes criaturas: bhuta, rakshasa (o mais temível e antigo dos vampiros hindus), baital (ou vetela), kravyad (devorador de carne crua), yaksha, pisacha e por fim, o perigoso vampiro-bruxa chamado jigarkhwar.

Dampyr #15 e 16: Nato Nella Palude / Delta Blues (Itália, junho e julho de 2001)
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Editora 85 (2018)
Roteiro: Mauro Boselli
Arte: Maurizio Dotti
Capa: Enea Riboldi
200 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.