Crítica | Dampyr: O Filho do Vampiro e A Estirpe da Noite

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Dez anos e sete meses. Este foi o período de tempo que durou a Guerra Civil Iugoslava (1991 – 2001), conflito que atingiu diversos núcleos étnicos dos Bálcãs e resultou na dissolução do país, criando sete novas nações — se contarmos Montenegro (independente só em 2006) e Kosovo, com independência em 2008 não reconhecida pela Sérvia. Só de pensar nesse ambiente como ponto de partida para as duas primeiras edições de uma ficção histórica com tempero giallo + foco em vampiros + mundo místico e sobrenatural como um todo, não tem como não esperar algo no mínimo interessante. E depois de ler essas duas primeiras edições eu fiquei me culpando por ter demorado tanto para iniciar Dampyr.

Criado por Mauro Boselli e Maurizio Colombo (roteiro), com Mario Rossi (Majo) na arte, o título nos faz acompanhar a história de Harlan Draka, um dampiro (mais sobre isso adiante) que inicialmente brinca com sua habilidade, fingindo-se charlatão, mas sem saber, na verdade, que possui determinados “poderes”. Nesse arco de abertura da série, vemos o personagem passar pelo caminho de conhecimento de si mesmo, de algumas de suas habilidades e o do ‘mundo das trevas’ que ronda o país onde vive, despedaçado não só por vampiros famintos, mas também pela guerra. O horror sobre o horror.

Pelas lendas de alguns países balcânicos, esse tipo de indivíduo (o dampiro) é um híbrido de pai vampiro com mãe humana. Evidente que, quando falamos de folclore, é quase sempre possível encontrar inúmeras versões, explicações, contextos sobre a criatura ou situação mitológica em pauta, algo que também acontece com os dampiros, que possuem diferentes descrições de aparências, comportamento e habilidades dependendo do país ou povo que narra a versão da lenda. É comum, porém, a seguinte narrativa: eles trazem diversas marcas e poderes dos vampiros, mas são caçadores naturais destes, sendo que até seu sangue e toque podem ser letais para as criaturas da noite. Nas edições que abrem a série Dampyr, os autores exploram com muita competência esse tipo de exposição, mas dentro de um princípio tão divertido, tão bem alinhado com narrativas de terror, ação, violência — flertando com o giallo — e tamanho desenvolvimento de personagens que o leitor se espanta com a riqueza e abertura de possibilidades dadas aqui, logo na entrada.

plano critico dampyr a estirpe da noite o filho do vampiroCom aparência inspirada em Ralph Fiennes, no filme Estranhos Prazeres (1995), a grande estrela da série, Harlan Draka, demora um pouco para aparecer. Essa escolha sólida de ambientação inicial para, depois, colocar o protagonista em cena foi uma ótima jogada dentro do enredo e igualmente a forma como o protagonista via a si mesmo no início e passou a se ver (e ao mundo) ao fim de A Estirpe da Noite. Acompanhado do soldado Kurjak e depois de Tesla (cuja aparência foi levemente inspirada em Annie Lennox), Draka parte para uma caçada que jamais é desconectada de seu meio geofísico e geopolítico, para mim, um dos maiores ganhos dos autores no roteiro.

O ótimo espetáculo da arte de Majo é outra coisa que nos chama a atenção. Os ângulos puramente cinematográficos, o excelente sombreamento e a composição mito inteligente dos quadros para cada cena (especialmente as noturas) realmente me impressionaram e me fizeram gostar ainda mais do que lia. Se tive alguns percalços durante a leitura, eles foram diretamente relacionados à exposição dos escravos de Gorka, o primeiro grande inimigo de Draka, mas estes são momentos rápidos de clichês que não combinam com a qualidade do todo. Rapidamente voltamos para o bom andamento das coisas. Dampyr foi o 12º título da Sergio Bonelli Editore que eu tive a oportunidade de ler desde o início e confesso que foi o que mais surpresa me causou, pelo seguinte motivo: por saber que se tratava de uma história de vampiros, eu esperava algo básico, até um pouco batido. Todavia, a experiência que tive aqui foi completamente diferente do que esperava, para o lado positivo, tanto que se tornou uma das minhas estreias favoritas de uma série na casa italiana.

Dampyr #1 e 2: Il Figlio del Diavolo / La stirpe della notte (Itália, abril e maio de 2000)
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Mythos (2004) e Editora 85 (2018)
Roteiro: Mauro Boselli, Maurizio Colombo
Arte: Mario Rossi (Majo)
Capa: Enea Riboldi
200 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.