Home QuadrinhosOne-Shot Crítica | Dampyr – Vol. 5: Sob a Ponte de Pedra

Crítica | Dampyr – Vol. 5: Sob a Ponte de Pedra

por Luiz Santiago
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Em um ambiente que nos leva para antigos mitos da Europa Oriental e que esteticamente nos faz mergulhar no Expressionismo Alemão, Sob a Ponte de Pedra é uma edição bem importante para a jornada de Dampyr, apresentando o misterioso Caleb Lost e um ‘demônio do bem’, o agente infernal Nikolaus. Sobre Caleb, pelo que entendi da demonstração do personagem, ele é uma representação híbrida de duas culturas, a judaico-cristã e a persa. De um lado, o temos como o Arcanjo Camael (página 37, edição da Editora 85), que mais adiante é aludido numa pintura do russo Mikhail Vrubel (página 97) como um “anjo caído“. Todavia, um amigo meu que já está bem mais avançado na série, em conversa animada sobre essa aventura, deixou escapar que Caleb é um agente representativo dos Amesha Spenta (ou seja, um Imortal Sagrado, uma das 7 emanações do Deus do Bem, ou Aúra-Masda, segundo o Zoroastrismo), de onde vem a hibridez com a cultura persa que eu citei antes. Seja como for, é um Ser interessantíssimo, claramente cheio de mistérios sobre sua origem (o que é ótimo) e a serviço do bem, mas com um forte código de não intervenção, o que o faz ter atitudes enervantes e, sob o nosso ponto de vista, questionáveis.

É a partir de certa manipulação de Caleb Lost e Nikolaus, agentes de diferentes Forças sobrenaturais, que Harlan Draka vai parar na cidade de Praga, República Tcheca, onde descobre algumas coisas sobre os Seres da Noite que caça, além de impedir que algo muito ruim quebre o equilíbrio entre a interação do bem com o mal em nossa realidade. É uma missão sobre algo que esses agentes da luz e das trevas (ambos construídos sob uma linha ética cinza, sem maniqueísmos) veem que deve acontecer e que só um Dampyr pode impedir.

O roteiro de Mauro Boselli beira à perfeição, aqui. A única coisa que eu realmente não gosto na edição — porque não vejo um grande sentido nisso — é o total espanto de Draka ao ter contato ou saber da existência de espíritos, fantasmas, spoks e outras aparições, como se ele nunca tivesse tido contato com o sobrenatural, inclusive com criaturas bem piores. É verdade que as histórias anteriores tiveram características e contextos bem diferentes, mas lembremos, por exemplo, de Fantasmas de Areia. O espanto de Draka aqui, vindo depois daquele encontro, acaba não fazendo muito sentido não. Talvez seja a atmosfera, o fato de não estar junto de seus companheiros, a névoa… vai saber. O fato é que numa edição tão brilhantemente escrita, eu tive que me segurar para não rolar os olhos toda vez que nosso querido Dampyr se mostrava totalmente espantado e desacreditado quando a palavra “fantasma” entrava em cena.

À parte esse ponto em específico, só tenho elogios para a aventura. As referências a O Gabinete do Doutor Caligari, às muitas narrativas envolvendo fantasmas, além das casas e cidades sombrias ou abandonadas e a relação com mitologias diversas tomam o leitor de assalto e tornam a trama cada vez mais interessante, com um mistério dividido entre os muitos blocos de coadjuvantes, algo difícil de se ver em um quadrinho, mesmo esses maiores, publicados pela Bonelli. Lugares como a intitulada Ponte de Pedra, o Teatro dos Passos Perdidos, a Casa dos Três Lírios ou a Puppenklinik do Dr. Comenius nos fazem mergulhar por completo na geografia sombria e fantasiosa dessa cidade, que por sua história passada e exotismo — para qualquer leitor de uma cultura diferente — acaba tendo um poder de sugestão imenso, muitíssimo bem utilizado pelo autor.

Até indivíduos interessantíssimos como o Zrcadlo (o “rosto de espelho”, que imita a face de qualquer pessoa) acabam sendo vistos como “normais” nessa localidade. Chega a um ponto em que o leitor já espera as mais terríveis e instigantes novidades macabras vindo assombrar Harlan Draka, de tão bem explorado que foi o território tcheco desde o início, fazendo-nos entender as forças e as criaturas que o povoam.

Em Sob a Ponte de Pedra, vivemos uma fantasia cheia de referências histórias, com uma arte (de Luca Rossi, que começou na série em Fantasmas de Areia, e que aqui está mais à vontade para criar distorções e imagens assustadoras) que não se faz de rogada ao adotar a base da estética expressionista, abertamente referenciada no texto. É uma história importante para o cânone de Dampyr, mas mais do que isso, é uma história que faz um dos melhores usos que eu já vi nos quadrinhos da geografia e das possibilidades históricas, simbólicas e visuais que um território pode ter. Uma daquelas histórias que dá até orgulho de falar que a gente leu.

Dampyr #5: Sotto il Ponte di Pietra (Itália, agosto de 2000)
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Mythos (2005) e Editora 85 (2019)
Roteiro: Mauro Boselli
Arte: Luca Rossi
Capa: Enea Riboldi
100 páginas

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