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Crítica | Dampyr – Vol. 8: Das Trevas

por Luiz Santiago
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Nas primeiras páginas de Das Trevas eu realmente acreditei que haveria uma mudança estrutural bastante notável na forma como a série Dampyr estava sendo guiada até o momento. Isso porque estamos diante de um Harlan Draka professor, lecionando na Universidade de Friburgo, um ano depois de um evento macabro que vemos em torno da Universidade de Tubinga (ou Tübingen), ambas na Alemanha. É uma boa introdução, mantendo um interessante mistério em torno de um assassino que procura as partes do grimório (que são coleções medievais de feitiços, rituais e encantamentos mágicos invariavelmente atribuídas a fontes clássicas hebraicas ou egípcias) intitulado De Profundis.

Logo, porém, o leitor descobre que Draka foi contratado pelo professor Hans Milius para investigar um perigo que ronda a região e que se relaciona com o assassinato de diversas jovens nas intermediações de antigas Universidades alemãs. Indicado por Caleb Lost ao professor Milius (logo, já temos aqui um cidadão comum que acabou tendo contato com alguém ligado ao mundo sobrenatural), o dampyr procura observar o comportamento de três professores na lista de suspeitos (Orker, Workmann e Rendberg) dando início a uma caçada que tem uma cara de desesperança e é acompanhada por cruéis assassinatos no meio do caminho.

Por conta desse “perfil disfarçado” e pelo caráter de investigação do comportamento de um serial killer (ou algo próximo disso) essa aventura se diferencia um pouco daquilo que estamos acostumados a ver em Dampyr. Estamos muito mais próximos do giallo clássico aqui (Suspiria, de Dario Argento é literalmente citado), e essa relação com os romances policiais também traz citações interessantes, como as dos detetives intelectuais Philo Vance (estreante em The Benson Murder Case, de S. S. Van Dine), Nero Wolfe (estreante em Serpente, de Rex Stout) e Dr. Thorndyke (estreante em The Red Thumb Mark, de R. Austin Freeman). Assim, o roteiro de Mauro Boselli e Maurizio Colombo se alia ao específico tratamento que os italianos costumavam dar às investigações de assassinato nos gialli, dando um sabor diferente à trama como um todo.

A forma como o texto trabalha o romance aqui é uma das mais bem feitas, considerando histórias em que esse tipo de relação não é exatamente a tônica central. Se no arco formado por A Costa dos Esqueletos e Zona Proibida tivemos uma má exposição desse tema, aqui em Das Trevas vemos uma abordagem orgânica, onde Draka exala aquele “encanto nato” que os vampiros (ou no caso dele, filho de vampiro) têm em relação às mulheres. Sophie Mutter acaba sendo uma personagem marcante nessa relação e ganha tamanha importância na história, que não estranharia nadinha em vê-la aparecer outras vezes na série. Estou curioso, aliás, para ver como os autores vão fazer a passagem de tempo e/ou espaço entre esse período mais “sossegado” de Harlan em um lugar só, com as viagens que marcam a sua carreira de caçador de vampiros e outras criaturas.

A reta final dessa história também se destaca por trazer uma outra aplicação para o tal manuscrito de demonologia do século XV que os professores assassinos tanto queriam. Aliás, até o elemento vampírico aqui é diferenciado, pois é protagonizado por uma criatura-harpia que suga o sangue das vítimas antes de matá-las de forma violenta. Só que não para por aí. A origem dessa criatura é que nos chama mais atenção, pois foi parte de um experimento de leitura do grimório incompleto, dando as pernas de tentáculos a um dos mestres da faculdade, coisas que se aproximam do horror cósmico, percepção reforçada pela abertura de uma outra dimensão numa das paredes da mansão do professor.

Das Trevas é uma história realmente diferente de Dampyr; uma aventura não necessariamente brilhante na forma como explora todas essas coisas incomuns à saga, até o presente momento, mas certamente uma aventura ágil e interessante, mais investigativa (no modelo do giallo) e menos teórica ou mitológica, no modelo de Universo vampírico.

Dampyr – Vol. 8: Das Trevas (Dalle tenebre) — Itália, 2000
Editora original:
Sergio Bonelli Editore
No Brasil:
Editora 85 (2019)
Roteiro: Mauro Boselli, Maurizio Colombo
Arte: Nicola Genzianella
Letras: Luca Corda
Capa: Enea Riboldi
100 páginas

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