Crítica | Daphne e Velma

Depois de dois filmes cinematográficos, a franquia live-action de Scooby-Doo foi brindada com um rebaixamento para telefilme que, da mesma forma, só teve dois exemplares. Oito anos depois do surpreendentemente bom Scooby Doo! e a Maldição do Monstro do Lago, mais um rebaixamento, desta vez na forma de lançamento direto em vídeo e com apenas as personagens femininas do grupo, como o título deixa bem claro.

Aos que eventualmente se preocupam com linha temporal, esqueçam. Daphne e Velma simplesmente não se encaixa como prelúdio dos filmes de 2002 e 2004 ou dos telefilmes de 2009 e 2010, sendo melhor encará-lo como uma obra independente de todo o restante. Mas esse é o mais insignificante dos problemas, pois diria que se tem uma coisa que a franquia Scooby-Doo não pode prescindir é do próprio Scooby. Um longa da dupla de garotas agindo juntas faz tanto sentido quanto um filme solo do Fred ou uma sitcom apenas do Salsicha. Não é sem querer que todas as inúmeras séries e longas animados, além dos quatro live-action anteriores da criação sessentista de Joe RubyKen Spears carregam o nome – ou variações – do dogue alemão desastrado, guloso e medroso mais adorado de todos. A gangue da Mistério S.A. sem Scooby, seja na combinação que for, simplesmente não tem o que é necessário para manter-se de pé sozinha sem algo muito bem elaborado e isso não acontece aqui nesse longa.

Por mais que o roteiro de Kyle Mack e Caitlin Meares tente criar personalidades próprias e mitologias exclusivas para as protagonistas, a grande verdade é que, no frigir dos ovos, Daphne (Sarah Jeffery) e Velma (Sarah Gilman) não passam de duas adolescentes genéricas que se juntam para investigar um mistério em sua escola que tem transformado seus melhores alunos em verdadeiros bobões descerebrados. A estratégia dos roteiristas é o despejo sem filtros e sem limites de pseudo-tecnologias de ponta para dar aquele ar de modernidade, mas sem um mínimo de finesse, ficando muito longe de uma série como Upload, por exemplo, que usa muito bem esse mesmo artifício. Além disso, tanto o mistério como um todo quanto as histórias pregressas da dupla principal são, para resumir a ópera, completamente sem sentido, aí incluída a relação super-protetora que Nedley Blake (Brian Stepanek) tem com sua filha vlogueira Daphne.

Portanto, Daphne e Velma falha tanto como um spin-off de Scooby-Doo quanto como um filme sobre duas investigadoras adolescentes. É tudo muito derivativo, sem cola narrativa para além de uma sucessão de gags desgastadas com duas atrizes que até são simpáticas e cumprem seus papeis sem afastar o espectador, mas que não conseguem transformar o roteiro ruim em algo interessante por sua química, ou magnetismo ou particular capacidade de atuação. A pasteurização do drama adolescente que mira em um público muito infantil sem oferecer sequer um desafio chega a ser irritante, muito diferente das encarnações anteriores com atores reais da franquia que nem eram lá essas maravilhas, para começo de conversa.

Quando digo irritante, quero especificamente apontar o dedo para quem acha que obras infantis não precisam ser inteligentes. “Ah, é para criança, o que você queria?” é o que mais ouço por aí para justificar personagens mal desenvolvidos em dramas imbecilizantes, como se a conexão entre “criança” e “material ruim” fosse algo necessário. Essa argumentação não só é paupérrima, como é errada, triste e facilmente derrubável com um sem-número de exemplos na literatura, teatro, cinema e televisão que deixam evidente que material infantil que se preze precisa ser mais do que uma combinação de gritos histéricos, cores berrantes, efeitos sonoros estridentes e CGI de TK-85.

Daphne e Velma, portanto, consegue falhar em tudo que tenta fazer. Não é de verdade um spin-off de Scooby-Doo, mas sim uma história sobre duas investigadoras adolescentes que por acaso têm o mesmo nome e usam a mesma padronagem de cores das personagens das animações clássicas e, mesmo assim, não é uma história independente boa o suficiente para justificar sua existência. Talvez funcione para prender os bem pequenos por 72 minutos em frente à televisão, mas eles merecem mais do que essa bobagem insossa.

Daphne e Velma (Daphne & Velma, EUA – 2018)
Direção: Suzi Yoonessi
Roteiro: Kyle Mack, Caitlin Meares (baseado em personagens criados por Joe Ruby e Ken Spears)
Elenco: Sarah Jeffery, Sarah Gilman, Vanessa Marano, Brian Stepanek, Nadine Ellis, Arden Myrin, Brooks Forester, Lucius Baston, Courtney Dietz, Stephen Ruffin, Fray Forde, Evan Castelloe, Daniel Salyers, Adam Faison, Jessica Goei, Mickie Pollock, Tucker Halbrooks
Duração: 72 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.