Crítica | Dark – 2ª Temporada

  • spoilers apenas da temporada anterior, cuja crítica pode ser lida aqui. No entanto, os spoilers estão liberados na seção de comentários!

A primeira temporada de Dark foi uma das grandes surpresas de 2017 na grade do Netflix, uma produção alemã que lida com uma miríade de personagens na pequena cidade de Winden, sob a sombra de uma usina nuclear, que passa a lidar com o desaparecimento de algumas crianças. Capturando o interesse dos espectadores imediatamente em razão do mistério e da ambientação lúgubre, pessimista, com uma história que começa com um suicídio e uma carta a ser aberta algum tempo depois, a narrativa desenvolveu-se tremendamente e passou a caminhar por terrenos ainda mais estranhos, finalmente mergulhando de vez em um dos mais utilizados artifícios da ficção científica, a viagem no tempo, mas sempre oferecendo novidades e abordando o assunto como peças de um enorme quebra-cabeça que eram reveladas a conta-gotas, de uma forma espiritualmente semelhante a The OA, de um ano antes.

O sucesso foi imediato, mas, mesmo diante dele, os criadores Baran bo Odar e Jantje Friese resistiram à tentação de perenizar a obra e foram categóricos em afirmar que Dark teria apenas três temporadas – ou ciclos – o que por si só me deixou feliz, pois era sinal de que eles muito provavelmente já haviam alinhavado um final para a série. A segunda temporada, que veio mais de um ano e meio depois da inaugural, apesar de manter a aura de mistério, solucionando alguns, mantendo outros e criando outros tantos, dá um salto temporal de seis meses (em todas as linhas temporais) e mergulha de vez na ficção científica e nas viagens temporais que acontecem com muito mais frequência e facilidade ao logo dos oito episódios próximos de uma hora de duração cada. Com isso, o véu inicial cai de vez e não há rodeios do roteiro para tentar “disfarçar” essa pegada sempre fascinante e que continua sendo bem trabalhada aqui.

E toda aquela confusão proposital entre nomes, linhas temporais e versões dos mesmos personagens, grande charme da primeira temporada e que quase fundiu minha cabeça (e imagino – espero! – que não esteja sozinho nisso), é suavizada consideravelmente aqui, não só por já termos passado da fase “introdutória”, mas também porque a nova temporada passa a mais firmemente girar em torno de Jonas Kahnwald, tanto a versão que, no cliffhanger da temporada anterior, vai para o mundo apocalíptico de 2052 e que é vivida por Louis Hoffman, quanto a versão adulta e barbada dele, que vem de 2052 para 2019 e é vivida por Andreas Pietschmann. Há um considerável aprofundamento no drama do personagem (ou será que o mais certo seria dizer “os personagens”?), algo que inexistia anteriormente, já que a primeira temporada primava justamente por manter todos, inclusive Jonas, apenas na superfície. Com isso, passamos a entender mais – mas não completamente – o papel do personagem na complexa engrenagem da série, assim como suas conexões com os mais diversos personagens, notadamente o misterioso Noah (Mark Waschke) e a diretora da usina nuclear (em 1986) Claudia Tiedemann, que vemos em três versões diferentes vividas por Gwendolyn Göbel em 1953, Julika Jenkins em 1986 e Lisa Kreuzer em 2019. Esses dois contrapontos a Jonas – Noah e Claudia – ganham também ótimos desenvolvimentos que ajudam a dissipar as dúvidas e a fazer as peças se encaixarem (um pouco) mais suavemente.

Há também uma participação mais relevante dos amigos adolescentes do Jonas de 2019, Martha e Magnus Nielsen (Lisa Vicari e Moritz Jahn) e Franziska Doppler (Gina Stiebitz), que leva a tira-colo sua irmã surda mais nova, Elisabeth (Carlotta von Falkenhayn), esta com especial significado para a história. Esses jovens, vistos principalmente em 2019 e também o delegado aposentado Egon Tiedemann (Christina Pätzold), que, em 1987 (lembre-se, seis meses se passaram, pelo que os anos originais 1953, 1986, 2019 e 2052 são, agora, 1954, 1987, 2020 e 2053), reabre o caso da prisão de Ulrich Nielsen (Oliver Masucci e Winfried Glatzeder) que ele mesmo – ou sua versão mais nova vivida por Sebastian Hülk – foi responsável em 1953. Para que mencionei esses nomes todos e poderia ter mencionado outros? Simples: a segunda temporada de Dark faz como uma epidemia e “espalha” o conceito de viagem no tempo plantado na primeira, retirando esse privilégio de Jonas, o que coloca muitos personagens quase na mesma página, por assim dizer, ainda que o protagonista sempre esteja alguns passos a frente de maneiras diferentes, inclusive com a introdução do deformado e misterioso Adam (Dietrich Hollinderbäumer), em 1921, líder do Sic Mundus.

Com essa “epidemia”, os roteiros vão, de maneira orgânica, repetindo explicações, convertendo o que poderiam ser diálogos expositivos em momentos muito naturais dentro de cada núcleo narrativo, em qualquer momento temporal. É isso que desanuvia um pouco o mistério, ainda que os roteiristas não resistam em inserir alguns momentos explicativos desnecessários como quando o relojoeiro H.G. Tannhaus (Arnd KlawitterChristian Steyer), guardião de Charlotte (Stephanie AmarellKaroline Eichhorn), narra como funciona o paradoxo de bootstrap, apenas um dos tipos de paradoxos que permeia a série. Seja como for, quando a temporada está para acabar, é bem possível que o espectador tenha um quadro bem sólido desses dias pré-apocalipse que são contados aqui, sabendo identificar cada família e cada núcleo corretamente, mesmo que incorra em alguma confusão natural aqui e ali.

Mas a inserção de Adam na história, assim como uma maior importância dada justamente a Charlotte, a chefe de polícia da cidade em 2019, e a seu passado, com uma revelação bombástica (ou nem tanto) ao final, além dos elementos puros de sci-fi como a Partícula de Deus (ou, tecnicamente, a Partícula Bóson de Higgs, teorizada nos anos 60 e comprovada nos anos 2000) e seus efeitos em Winden e a investigação iniciada em 2020 por Clausen (Sylvester Groth), único personagem “de fora” que o leva na direção de outro personagem misterioso, Aleksander Tiedemann (Peter Benedict), substituem todos os mistérios que são em tese solucionados ao longo da temporada e preparam o encerramento da série. Além deles todos, há duas “mudanças” de regras que vêm nos momentos finais e que têm o potencial de alterar completamente o jogo, mesmo com dois terços dele já tendo sido jogado, o que me deixa ao mesmo tempo apreensivo e curioso.

CICLO DE SPOILERS

Não poderia deixar de comentar mais diretamente as tais duas mudanças de regras, mas, para isso, é preciso revelá-las, o que, claro, são spoilers pesados da temporada.

A primeira delas é a menção sobre a imutabilidade da linha temporal, ou seja, que mudanças no passado não trariam mudanças no presente. Isso é dito por Jonas (barbado) em um contexto de dúvida e não é algo que deva ser levado em consideração como uma efetiva mudança de regra. No entanto, a mera inclusão dessa dúvida ao final da temporada é problemática já que é da estrutura de tudo o que foi mostrado até agora que o passado altera o presente (ou futuro), já que o jovem Mikkel (Daan Lennard Liebrenz) foi mantido em 1986 justamente para permitir que Jonas nascesse. Espero que a imutabilidade seja só mesmo especulação ou que ela só ocorra dentro da lógica que diz que, mesmo que as circunstâncias sejam alteradas, as mudanças já realizadas acontecerão de alguma maneira mesmo assim, não necessariamente da forma original.

A segunda alteração de regra parece-me bem mais firme e clara. Logo depois que Martha leva o tiro de Adam, outra Martha aparece dizendo que é de outro mundo e com uma máquina do tempo (e supostamente multidimensional) portátil. O multiverso é outro artifício narrativo clássico da ficção científica e ele tematicamente combina com a série, mas essa mudança pareceu vir tardiamente, sem que houvesse uma pista sequer dessa possibilidade, a não ser que tudo o que aprendemos até agora seja desconstruído na temporada final. Por outro lado, a imutabilidade do passado – se for isso mesmo – ganharia uma explicação plausível na lógica sci-fi, já que cada alteração no passado inauguraria uma nova linha temporal ou outro universo. É um alargamento enorme do conceito da série e meu receio, aqui, é que não haja tempo para que isso seja trabalhado a contento. Mas os showrunners têm crédito e merecem o benefício da dúvida.

FIM DO CICLO DE SPOILERS

Seja como for, mesmo considerando o pouco tempo que Dark tem agora para terminar de montar esse quebra-cabeça temporal, fato é que a série é fascinante. E esse fascínio não vem apenas do artifício sci-fi que usa, mas sim do cuidado em criar um emaranhado de linhas narrativas que exigem que o espectador pare – realmente pare – para pensar e para encaixar mentalmente as peças e para montar diagramas e árvores genealógicas que façam tudo funcionar a contento. Não há respostas fáceis e os showrunners não estão muito interessados em parar a narrativa para explicar (ainda que o façam algumas poucas vezes, como mencionei). O que importa para eles é a criação de uma atmosfera opressiva, claustrofóbica e que é colocada em palavras por Clausen ao observar como é que uma cidade tão pequena tem grande parte de sua população fixa, com quase ninguém saindo para procurar oportunidades fora dali. É como se Winden fosse um ímã que tornasse impossível o afastamento de sua população, tornando-a vítima e ao mesmo tempo algoz em um mistério que lida muito com aquele símbolo místico ouroboros, da cobra comendo o próprio rabo que é visto dentro da misteriosa caverna temporal e que parece representar o que poderia ser efetivamente um loop temporal.

Mas ainda mais fascinante, e isso fica mais saliente agora, na segunda temporada, é que todo o lado científico e tecnológico ganha um belo paralelismo religioso bem costurado na narrativa principal e que é ilustrado pelo assustador e ao mesmo tempo lindíssimo “A Queda dos Condenados”, painel barroco do pintor flamengo Peter Paul Rubens que ornamenta o gigantesco escritório subterrâneo de Adam. Nele, o arcanjo Miguel e outros celestiais arremessam os pecadores no fogo do inferno no que parece ser um ciclo eterno, inescapável. Rubens cria uma das mais pesadas e angustiantes visões do inferno e do apocalipse e o quadro ilustra muito bem não só a escolha da principal paleta de cores da série – 2019/2020 refletidas de maneira ainda mais lúgubre em 2052/2053 – como também toda a temática de fim de mundo e de “ciclo” que permeia a narrativa como uma versão niilista e desesperançosa da obra-prima de Michelangelo na Capela Sistina. Some-se a isso os nomes dos personagens-chave, Adam (Adão), Noah (Noé) e Jonas e a equiparação de suas versões bíblicas ao que vemos na série e pronto, as fronteiras entre misticismo e ciência passam a ficar nubladas e a interpenetrar-se, uma alegorizando a outra em mais um tipo de ciclo.

A segunda temporada de Dark tem o mérito de facilitar os mistérios não por explicá-los de maneira simplista, mas sim por fazer-nos viver a mesma situação sob pontos de vista diferentes até que nos “acostumemos” com os conceitos e com os personagens que formam sua estrutura básica. Mas, ao introduzir novos personagens e novos mistérios, alguns deles que realmente mudam nossa percepção de tudo o que foi mostrado até agora, os showrunners arriscam não conseguir encerrá-los a contento (o que não significa necessariamente explicá-los). Mas o que é a vida sem assumirmos riscos, não é mesmo? É a estranheza atmosférica de Dark que paga dividendos e eles são tão gordos e polpudos quanto os riscos que Baran bo Odar e Jantje Friese (e, em última análise, os espectadores) estiverem dispostos a assumir. Que venha a derradeira temporada!

Dark (Idem, Alemanha – 21 de junho de 2019)
Criação: Baran bo Odar, Jantje Friese
Direção: Baran bo Odar
Roteiro: Jantje Friese, Daphne Ferraro, Ronny Schalk, Marc O. Seng, Martin Behnke
Elenco: Louis Hofmann, Oliver Masucci, Jördis Triebel, Maja Schöne, Sebastian Rudolph, Anatole Taubman, Mark Waschke, Karoline Eichhorn, Stephan Kampwirth, Anne Ratte-Polle, Andreas Pietschmann, Lisa Vicari, Angela Winkler, Michael Mendl, Antje Traue, Gwendolyn Göbel, Julika Jenkins, Lisa Kreuzer, Gina Stiebitz, Moritz Jahn, Carlotta von Falkenhayn, Christina Pätzold, Winfried Glatzeder, Dietrich Hollinderbäumer, Arnd Klawitter, Christian Steyer, Stephanie Amarell, Sylvester Groth, Peter Benedict, Daan Lennard Liebrenz, Sebastian Hülk
Duração: entre 53 e 60 min. por episódio (8 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.