Crítica | Dark – 3ª Temporada

Temporada

Série como um todo
(não é uma média)

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores. 

Sem dúvida alguma, a mais bem-vinda característica de Dark, criação do suíço Baran bo Odar e da alemã Jantje Friese, enorme sucesso do Netflix, é que a série realmente parece que nasceu com começo, meio e fim já traçados em detalhes, sem que os showrunners caíssem na tentação do sucesso estendendo-a para além do planejado. Pouco mais de um ano depois da segunda temporada, eis que chega a terceira e última para encerrar muito satisfatoriamente a complicada história contada em diversos momentos no tempo em dois mundos, com diversas versões dos mesmos personagens, sem esquecer de trazer várias surpresas e “mudanças de regra” no meio do caminho para apimentar ainda mais a jornada.

Se a grande reviravolta ao final da temporada anterior foi a revelação de que existia pelo menos um universo paralelo, nos oito episódios de encerramento os roteiros constroem em cima dessa premissa não só abordando bem mais do que os momentos temporais que vimos anteriormente, indo brevemente até 1822 até, como também lidando com “entretempos”, o que inteligentemente quebra a expectativa dos 33 em 33 anos que vinha sendo a regra, além de revelar que, na verdade, os dois mundos que a série vinha abordando são, na verdade, resultado de uma experiência com máquina do tempo de um mundo de origem ou Terra Prime (só para usar linguajar de quadrinhos), levando a um final de “gente virando pó” que inevitavelmente lembra o estalo de Thanos em Guerra Infinita.

Mas se a história macro funciona muito bem, a dupla de showrunners não se esquece dos aspectos micro também, lidando com pequenos mistérios aqui e ali, mas talvez sempre cientes de que dar resposta para absolutamente tudo, nos seus mínimos detalhes, não seria algo nem razoável e nem necessário. Eles inclusive usam a sana investigativa dos fãs que criam teorias para tudo como uma piada recorrente na série, jamais revelando como Torben Wöller perdera o olho na Terra-1 e o braço na Terra-2. As grandes pinceladas, porém, estão todas lá, empilhando novos anos e novas regras, mas sempre caminhando para uma resolução que obedece de maneira até surpreendente uma lógica interna boa, algo que é razoavelmente raro em obras que lidam com viagens no tempo e/ou universos paralelos. Além disso, o lado sci-fi de Dark não comanda a história essencialmente de “amor impossível” entre dois jovens deslocados espacial e temporalmente. Ao contrário, são os valores da narrativa – perseverança, sacrifício, proteção de quem você ama, compreensão de sua falibilidade e mortalidade, perpetuação de ciclos viciosos – que dirigem a série e ganham particular foco na metade final da temporada de encerramento, sem jamais descambar para a choradeira ou pieguice.

No entanto, há problemas de foco excessivo, ou seja, de uso prolongado de linhas narrativas tangenciais que, mesmo interessantes, talvez não merecessem o tratamento vip que receberam justamente por não serem essenciais, do jeito que são desenvolvidas, para a jornada de Jonas e Martha. As duas principais, que são compostas de diversas mini-narrativas, giram em torno das famigeradas medalhinhas (a de São Cristóvão e a da moeda de um centavo), que sim, respondem diversas questões postas ao longo da série, inclusive a “lenda do lago” (aliás, brutal e surpreendente aquilo, não?), mas que têm proporcionalmente muito mais tempo de tela do que Claudia Tiedemann – carinhosamente conhecida, no futuro, como Diabo Branco – tem para desatar o nó do loop temporal entre os dois mundos derivados. Fica aquela impressão de que talvez o mesmo resultado pudesse ter sido alcançado com menos episódios ou com durações menores dos razoavelmente longos capítulos da temporada final.

E, se eu quiser ser chato – e quero! – Odar e Friese carregaram um pouco demais no texto expositivo, notadamente no terço final, com narrações em off ou diálogos razoavelmente forçados como o que Claudia tem com Adam e, depois, que Adam tem com Eva, provavelmente para terem certeza de que todo mundo entendeu o que eles queriam dizer. É um vício bem comum em obras desse gênero, tenho que dizer, pelo que algo assim era mais do que esperado, especialmente diante da efetivamente confusão que o vai-e-vem temporal causa, mas talvez a dupla tenha extrapolado um pouquinho, tornando o clímax um pouco mais suave em termos de cadência do que deveria ser.

Por outro lado, há que se aplaudir o elenco com um todo. Se Louis Hofmann, Andreas PietschmannLisa Vicari continuam bem com Jonas e Martha, realmente convencendo como personagens que perdem sua ingenuidade, inocência e vida ao longo de uma jornada épica, o grande destaque da vez fica mesmo com Julika Jenkins como Claudia Tiedemann, personagem que ganha corpo tanto em termos de desenvolvimento de personalidade, como também físico, com a transformação completa da atriz. Mas é claro que os demais também merecem nota, ainda que sejam muitos para realmente haver espaço hábil para citá-los. Claro que a vantagem fica sempre para os atores e atrizes que vivem os personagens mais trágicos, como são o caso de Max Schimmelpfennig e Mark Waschke como Noah, Maja Schöne como Hannah e Oliver MasucciWinfried Glatzeder como Ulrich.

O cuidado da produção com os figurinos e cenários das diferentes épocas retratadas é também algo a se tirar o chapéu. Não é uma série que esbanje orçamento, mas o espectador, em momento algum, fica com a impressão de que tem algo errado com o período em que a ação se passa, mesmo quando há avanço para os futuros pós-apocalípticos das duas Terras. Da mesma maneira, a fotografia de Nikolaus Summerer é extremamente cuidadosa em manter homogeneamente a pegada sombria e pessimista que a série carrega, mas sempre sabendo usar a luz e filtros para tornar a diferenciação de épocas ainda mais fácil, mesmo que os showrunners sempre deem uma ajudinha com establishing shots bem evidentes ou legendas em tela para dissipar qualquer possibilidade de dúvida. Finalmente, a trilha sonora de Ben Frost continua assombrosa, sendo a perfeita acompanhante do trabalho visual de Summerer.

Jantje Friese e Baran bo Odar encerram Dark exemplarmente, mesmo considerando as reticências que apontei acima. A série, em seu conjunto, entrega resoluções bem pensadas e bem estruturadas que manejam bem a complexidade que a quantidade de versões dos mesmos personagens inevitavelmente traz. O tão esperado fim chegou e, felizmente, junto com ele veio a satisfação.

Dark (Idem, Alemanha – 27 de junho de 2020)
Criação: Baran bo Odar, Jantje Friese
Direção: Baran bo Odar
Roteiro: Jantje Friese, Baran bo Odar
Elenco: Louis Hofmann, Oliver Masucci, Jördis Triebel, Maja Schöne, Sebastian Rudolph, Anatole Taubman, Mark Waschke, Karoline Eichhorn, Stephan Kampwirth, Anne Ratte-Polle, Andreas Pietschmann, Lisa Vicari, Angela Winkler, Michael Mendl, Antje Traue, Gwendolyn Göbel, Julika Jenkins, Lisa Kreuzer, Gina Stiebitz, Moritz Jahn, Carlotta von Falkenhayn, Christina Pätzold, Winfried Glatzeder, Dietrich Hollinderbäumer, Arnd Klawitter, Christian Steyer, Stephanie Amarell, Sylvester Groth, Peter Benedict, Daan Lennard Liebrenz, Sebastian Hülk, Barbara Nüsse, Leopold Hornung, Max Schimmelpfennig
Duração: 505 min. (8 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.