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Crítica | David Byrne’s American Utopia

por Fernando Campos
444 views (a partir de agosto de 2020)

Por volta da metade de American Utopia, David Byrne confessa que prefere mais uma versão feita por estudantes da música Everybody’s Coming to my House do que a própria. Isso porque, segundo ele, os alunos inseriram um tom convidativo e acolhedor na canção, enquanto a dele ressalta o incômodo de receber visitas e ter seu espaço invadido. Curiosamente, o documentário dirigido por Spike Lee é um convite de Byrne muito mais pessoal do que visitar um lar. Em American Utopia, somos convidados e conhecer a mente e sentimentos do artista, mostrando em detalhes a visão de um músico absolutamente brilhante.

A apresentação ocorre no Hudson Theatre, na Brodway, e não deixa ser uma escolha simbólica. Byrne roteiriza aqui um musical dos mais tocantes e profundos, que não deve em nada a grandes espetáculos do gênero, utilizando músicas de sua carreira, evidentemente. Em uma primeira camada, a obra apresenta o olhar idealizado do músico sobre o mundo. Combinando com o figurino e cenário minimalistas do show, o músico destaca a interação humana e o afeto como um motivo de vida que vale a pena. Em sua utopia, o amor, o respeito e a ausência de preconceitos reinam.

Para aqueles que possam considerar essa visão ingênua ou infantil, Byrne faz questão de enaltecer a mentalidade das crianças, como ocorre quando apresenta I Know Sometimes the Man Is Wrong. Portanto, outra camada mais profunda e sutil da obra é a explicação sobre o funcionamento da mente humana. Abrindo a apresentação com a imagem de um cérebro e cantando Here, o artista questiona por que consideramos adultos mais inteligentes, se são os pequenos que possuem mais conexões cerebrais, explicando que, com o tempo, a mente passa a eliminar o que não considera “importante”. Em American Utopia, os vilões são o trabalho, a mídia, a religião e a intolerância, ou seja, tudo o que tenta controlar o livre arbítrio das pessoas. Mas, o que poderia permanecer em uma esfera rasa, é brilhantemente abordado em Once In a Life Time, mostrando como o ser humano evita enfrentar a própria existência ao se ocupar com os elementos citados acima.

Concluindo essas provocações, Byrne traz a arte como uma ferramenta para quebrar essas limitações impostas pela sociedade e pela vida adulta. Por isso, a existência da própria produção parece enriquecer a temática da obra, unindo cinema, música, dança e teatro. Não a toa, o músico se reuniu com um cineasta histórico como Spike Lee para comandar a película. Sobre o trabalho do diretor, Lee pega um grande show e o eleva ao transportá-lo para a lógica cinematográfica. Na fotografia, a variação de ângulos insere dramaticidade às coreografias, como no plongée que mostra os componentes como se fossem peças de tabuleiro em Don’t Worry About the Government, e a iluminação pontua a atmosfera dos cenários, fazendo o papel que deveria ser da direção de arte, combinando com o minimalismo da produção. Já a montagem é perfeita ao intercala planos abertos com os close-ups em David Byrne, fazendo o público aproveitar na totalidade os movimentos em palco e a interpretação do músico.

A conclusão de American Utopia ainda estabelece a obra como um documentário, mostrando as reações de Byrne, do público e demais músicos do espetáculo. Mesmo que alguns blocos da peça pareçam aleatórios dentro da narrativa proposta, como ocorre em Hell You Talmbout, a experiência proposta por Byrne e Lee emociona, ensina e diverte, sentimentos que em um mundo ideal deveriam ser soberanos, algo que definitivamente não ocorre, mas que a arte nos faz experimentar por algumas horas. Que a vida seja preenchida com arte.

David Byrne’s American Utopia – EUA, 2020
Direção:
Spike Lee
Roteiro:
David Byrne
Elenco: David Byrne, Chris Giarmo, Angie Swan, Jacqueline Acevedo, Bobby Wooten Iii, Mauro Refosco, Tendayi Kuumba, Gustavo Di Dalva, Karl Mansfield, Stephane San Juan, Daniel Freedman, Tim Keiper
Duração:
105 min

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