Crítica | De Pernas Pro Ar 3

Ingrid Guimarães é uma das melhores comediantes do cinema brasileiro. De Pernas Pro Ar 3 é a prova cabal do sucesso de uma fórmula que deu certo: bom humor, elementos visualmente interessantes, discussões sobre a mulher no contemporâneo, dividida entre os negócios e a família, além da adaptação não ofensiva da linguagem de programas como Sex and The City, dos figurinos às ações dos personagens, passando por detalhes do design de produção. Sete anos após o segundo filme sobre a personagem Alice e sua batalha pela Sexy Delícia, o olhar masculino da orquestração cômica é substituído por Júlia Rezende, cineasta que imprime um olhar feminino, feminista e mais delicado aos temas abordados.

Com argumento de Paulo Cursino e Rene Belmonte, a produção traz ainda Ingrid Guimarães e Marcelo Saback para a construção da estrutura dramática que acompanha a trajetória de luta da empreendedora Alice. No começo da história, a sua prioridade é o trabalho. No desfecho também. O que ela aprenderá é a manipulação do tempo para conseguir dar a devida atenção aos filhos, marido, em suma, ao lar, sublimado ao longo de seu trajeto de sucesso. Aliás, ter sucesso aqui é outro tema central, além das questões familiares. Para a mulher em produções como O Diabo Veste Prada e Sex and The City, a junção das duas partes parece inconciliável. Será que apenas por questões práticas, isto é, ligadas ao tempo, ou há fagulhas/labaredas/chamas amplas de machismo e opressão? Creio que um pouco de cada coisa.

Cheia de demandas e estressada, a sua personagem vai lançar mais um produto na França e no meio do processo, percebe que perdeu o acompanhamento do crescimento de seus filhos, bem como relegou o atencioso marido, interpretado pelo competente Bruno Garcia. Chegou a hora de se aposentar? É com este pensamento que Alice, durante um evento importante, anuncia a sua saída do mercado. Lembra bastante a decisão de Charllotte (Kristin Davis) quando decidiu sair da galeria de arte para se dedicar ao casamento. Criticada por Miranda (Cynthia Nixon), uma das amigas do quarteto televisivo, a personagem afirma que “o movimento feminista fala de escolhas e esta é a que ela fez para si”. Isso é relativamente muito próximo do que acontece ao longo da narrativa cinematográfica brasileira.

Com perdão da necessária e elucidativa digressão, voltemos ao filme em questão. Alice transfere a direção da Sexy Delícia, empresa que possui designer gráfico semelhante ao adotado pelas caixas de DVDS e edições variadas da série e do filme Sex and The City na vida real, isto é, nas prateleiras das lojas físicas e nas imagens das lojas virtuais. As comparações, como podemos ver, são vastas. Com Marion (Denise Weinberg) no comando, ou seja, a sua dedicada e extrovertida mãe, Alice poderá levar os filhos para a escola, participar dos eventos e conceder um pouco de atenção para o marido que concorre ao prêmio de design. Sempre presente nas conquistas da esposa, agora parece ser a vez dela cumprir a sua parte do contrato matrimonial de apoio ao cônjuge “na alegria e na tristeza”.

Os conflitos começam quando Alice, competitiva e enérgica, encontra algumas novidades em seu caminho, desafiadoras e responsáveis por engendrar os melhores momentos do filme. Paulinho (Eduardo Melo), crescidinho, já se tornou o representante máximo do adolescente sexualmente ativo. Todo dia leva uma namoradinha para casa, até que uma delas é a mais nova concorrente de Alice, tida pelos jornais e especialistas como a sua substituta. Estamos a falar de Leona (Samya Pascotto), jovem que lançou um aplicativo para comercializar as vendas de uma nova modalidade sexual virtual. Furiosa e sentindo-se ultrapassada, Alice vai adentrar numa batalha com a garota, tendo em vista atingi-la por conta dos ciúmes em relação ao filho, bem como ao seu suposto ostracismo no mundo dos negócios.

Tal como as personagens das novelas globais, o roteiro coloca as mulheres na arena como gladiadoras, numa luta que deveria representar a junção, tendo em vista o reforço necessário para a manutenção de ambas as relevâncias: a que amadureceu e tem toda a experiência e a nova que está cheia de gás, mas precisa aprender sobre estratégias e controle emocional. Não é preciso ser especialista para saber que no final o resultado é favorável ao amor, mas a suposta negação das personagens femininas ficam apenas no imaginário dos seus companheiros, pois na linha de fundo elas se unem para levar o trabalho adiante.

Dinâmico e com piadas divertidas, De Pernas pro Ar 3 dialoga com a linguagem da Publicidade e Propaganda e do Videoclipe, sem necessariamente dispersar o público diante da história contada, o que demonstra organicidade por parte da edição de Maria Rezende, eficiente ao captar as boas imagens captadas pela direção de fotografia de Dante Belluti. Os figurinos de Reka Kove cumprem bem a tarefa destinada ao setor, tal como a trilha sonora de Zé Ricardo, eficiente nos 108 minutos de narrativa, até mesmo nos créditos finais ao som de Madonna. Cabe ressaltar, sem perder o fôlego do parágrafo, a participação mais que especial de Maria Paula e a importância da presença Cristina Pereira como a “governanta” Rosa, um dos elos humanização da história.

Com o sucesso comercial e o olhar mais simpático da crítica para o filme em questão, não é de se espantar que haja uma quarta incursão neste universo de mulheres que batalham por relevância no mercado de trabalho, mas precisam lidar com as obrigações importas pela “invenção da maternidade”. Produzido pela Globo Filmes, De Pernas pro Ar 3 é leve, divertido e apresenta uma fórmula que deveria ser um manual para os realizadores brasileiros que se interessam por adentrar por este gênero popular: sem escatologia, sem piadas preconceituosas em relação aos grupos de menos acesso aos espaços de poder, dentre outros ingredientes extraídos da receita que fizeram do filme um produto digerível e indicado para consumo sem culpa.

De Pernas Pro Ar 3 (Brasil – 2019)
Direção: Julia Rezende
Roteiro: Ingrid Guimarães, Marcelo Saback, Rene Belmonte
Elenco: Ingrid Guimarães, Bruno Garcia, Cláudia Mauro, Cristina Pereira, Denise Weinberg, Maria Paula, Samya Pascotto, Stepan Nercessian
Duração: 106 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.