Crítica | De Repente, Califórnia

De Repente, Califórnia

estrelas 3

Este filme de Jonah MarkowitzShelter (2007), é daquelas obras cinematográficas que se equilibram na tênue linha que separa o enredo arredio de alguns dramas românticos dos filmes comerciais que trazem suspiros artísticos, não apenas adormecendo o espectador com surf music, casal protagonista bonitinho e cenas injustificáveis de nudez ou um dicionário de palavrões e gírias num roteiro solto e final pré-definido.

Para um filme de pequeno orçamento, com um elenco composto por atores medianos e uma história de dois garotos que se apaixonam, Shelter consegue até ser notável, “não-provinciano”, porque se bifurca em temas que não necessariamente estão apenas ligados ao objeto de desejo dos protagonistas, o que faz o espectador pensar um pouco sobre o que viu. O filme foge dos romances correntes, abandona os clichês mais comuns, a fórmula “conquista-perde-reconquista”, e tanto no campo visual quanto na narrativa, reserva algumas surpresas.

O longa conta a história de Zach, jovem artista que trabalha em um restaurante e deseja entrar para o Instituto de Artes da Califórnia (CalArts). O irmão de seu melhor amigo chega à cidade para passar um período de tempo e os dois jovens conversam sobre o passado, surfam juntos, bebem, e acabam por se apaixonar, mas Zach não consegue lidar com as confusões internas, agravadas pelo seu extremo compromisso com a família e pela cobrança social em relação a uma namorada.

Algumas tramas paralelas circulam esta principal: a relação de Zach e a ex-namorada Tori; a questão financeira que obriga a família a fazer rodízio de empregos para poder viver; o desapego da irmã de Zach em relação ao filho Cody mais a responsabilidade paterna que o jovem acaba assumindo em relação ao sobrinho; o preconceito e a quase-aceitação da irmã em relação à homossexualidade do irmão e, como não podia deixar de ser, a “barriga do roteiro”, que é a questão do pai de Zach e Jeanne, muitíssimo mal trabalhada no texto, não acrescentando nada de novo à trama. À parte isso, a relação dos dois amigos, a arte e o romance ganham um novo fôlego e elevam a qualidade da história, posta na tela com sutileza e bom gosto.

Ao passo que a relação entre os protagonistas se edifica – não sem percalços – a família se destrói. A mais sólida visão de uma instituição familiar que temos no filme é descrita pela fórmula papai-papai-filhinho (Shaun, Zach e Cody), o “extremo impensável” de uma família tradicional. Markowitz, neste ponto, reconhece a não-eternidade dos relacionamentos, afirmando em certo momento do filme que “ninguém pertence a ninguém para sempre”, e acaba por retirar da escala da intimidade a junção dos dois jovens, fecundando mais a amizade e o respeito do que aludindo a um casamento entre os meninos, com direito a adoção de um garotinho.

A direção de Markowitz não inventa a roda cinematográfica: é uma simples exposição de fatos, com câmera na mão em alguns momentos, planos e ângulos vez ou outra impressionantes, mise-en-scène que às vezes tropeça na ocupação espacial mas que ganha muitos pontos com a direção de arte e fotografia. O roteiro tem um relativo equilíbrio: é sensível e agressivo, não tem reviravoltas mágicas nem saturação de personagens, tanto em número quanto em personificação dramática. A música é de caráter rítmico em relação às imagens, uma bela aplicação de acompanhamento, mas pouco fecunda. Já a edição, uma boa surpresa narrativa, chegando a ter momentos de grande força fílmica e beleza, especialmente nas transições.

Shelter é um filme que entretém e encanta pela beleza de sua composição. Trabalha com um novo elemento familiar sem ressentir-se ou querer adaptar-se às “organizações comuns”. Ele expõe e entrelaça as relações de trabalho e compromisso, renúncia e escolha, respeito e amor. O título em inglês dá uma noção bem clara do ponto para onde tudo converge e qual é o sentido do filme. No fim das contas, um abrigo (amplie essa palavra) é o que se pede, e é isso que paira no ar, após a tela se escurecer na última cena de De Repente, Califórnia.

De Repente, Califórnia (Shelter, EUA, 2007)
Direção: Jonah Markowitz
Roteiro: Jonah Markowitz
Elenco: Trevor Wright, Brad Rowe, Tina Holmes, Jackson Wurth, Katie Walder, Matt Bushell, Ross Thomas, Albert Reed, Joy Gohring, Don Margolin, Alejandro Patino, Caitlin Crosby
Duração: 97 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.