Crítica | Deadly Class – Vol.1: Filhos de Reagan

PLANO CRITICO DEADLY CLASS QUADRINHOS

É possível que o grande afã em torno de Deadly Class e as indicações em altíssima conta que recebi dessa série em quadrinhos escrita por Rick Remender tenham tido um efeito negativo em mim. Claro que isso acaba sendo uma questão mais virtual, quase hipotética da coisa, mas a sensação permanece: SE eu não esperasse tanto da série, TALVEZ eu tivesse gostado mais. É um joguinho psicológico com algum fundo de verdade, não? Mas isso acaba não importando tanto quando uma análise minuciosa reafirma a frustração inicial. Sim, Deadly Class é uma boa série. Mas pelo menos menos este primeiro arco, Filhos de Reagan (que reúne as edições #1 a 6 do título) se mostrou apenas uma decente introdução de Universo e personagens, para mim. Nada muito além disso.

Ambientada no ano de 1987, a trama dessa primeira jornada nos fazer acompanhar o adolescente sem-teto Marcus Lopez Arguello, que ganha uma profunda e muitíssimo bem realizada exploração psicológica desde cedo, fazendo-nos chegar à conclusão de que a vida não importa mais para ele, porque já perdeu tudo e não há esperanças de que seu mundo mude. Numa de suas andanças noturnas, ele encontra uma misteriosa garota que o convida a entrar para a Escola de Artes Mortais dos Reis Soberanos, “um colégio secreto e brutal para onde as principais famílias criminosas do mundo mandam a futura geração de assassinos para receber treinamento“. Se num primeiro momento estávamos esperando que a linha narrativa tivesse um foco pé no chão ou social e um tanto existencial ligado a Marcus, a reta final da primeira edição mostra o contrário. A ligação do título com o que o quadrinho apresenta é uma mistura fortemente literal e simbólica que, aí sim, demora tempo demais para se erguer bem e não termina de maneira exatamente interessante.

Ao trazer os conflitos ligados à Escola, o roteiro dispersa imensamente a nossa atenção, ganhando pontos isoladamente por diálogos espirituosos e alguns eventos que trazem excelentes momentos de violência (mas o mérito aí é quase totalmente da arte, e voltarei a este ponto mais adiante), mas pouco se avança além desse patamar, exceto pelos acontecimentos da última edição, que é frenética e nos tira o fôlego, fazendo-nos imaginar a adaptação daqueles acontecimentos para o cinema ou para a TV. Já o restante se estabelece na linha do serviço de casa feito na medida para não ser ruim (em termos de enredo). Intrigas estudantis diversas, mesclas de aproximação e desconfiança entre novos colegas, tentativas de se fazer notável entre os pares, mentiras particulares e ações estúpidas que geram uma série de outras ações estúpidas ao redor do indivíduo estúpido… tudo isso se vê aqui. E convenhamos que essas coisas não são novidade alguma, mesmo em se tratando de uma escola de adolescentes e jovens assassinos. O que reveste a série de identidade mais forte e faz com que nosso interesse se mantenha ativo são os mistérios em torno de Marcus e a maneira como a Escola entra na narrativa, ganhando ares promissores, embora trazendo bem pouco nesse primeiro arco para o leitor. Já na arte, a situação é bem diferente.

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A dupla Wes Craig (desenhos) e Lee Loughridge (cores) faz um soberbo trabalho visual ao longo dessas seis edições, criando não só um excelente aspecto visual e perturbador, meio borrado na finalização e repleto de contrastes, mas com uma diagramação inteligente e com uma dinâmica de ritmo capaz de fazer inveja a muita gente. O leitor se sente inteiramente inserido nas sequências de perseguição, de maravilhamento dos personagens, de lutas corpo a corpo, de alucinações e flashbacks, todos com um grande destaque para as emoções, o que dita o quão perturbadora e inteiramente livre será a página e a formulação dos quadros para ditar o ritmo da sequência. Isso, que poderia acabar sendo um tiro no pé, tornando o andamento truncado, acabou se tornando um dos maiores trunfos de Filhos de Reagan.

Quando é objetivo, o texto de Rick Remender consegue os melhores frutos. Mesmo quando narra “em demasia” situações fácies demais de se entender e das quais pouquíssima coisa ainda tem para tirar, o autor consegue manter ativa a nossa atenção. O problema é quando isso tudo se une a repetição de padrões (como as birras entre estudantes), recontagem de tragédias pessoais ou sequências longas demais das quais pouca informação realmente útil se tira. O final deixa uma boa quantidade de promessas para o arco seguinte, mas a reflexão que encerra a sexta edição se ancora em um tipo batido de clichê que não cabe aqui, porque a proposta da série é justamente romper essa linha mais batida. A sequência de sangue, no final, é maravilhosa e praticamente foi a única coisa que me deixou verdadeiramente interessado em continuar a leitura, pelas possibilidades que o enredo apresenta nesta seara. O ruim de tudo isso é que precisamos ler outras cinco edições que não carregam nem metade desse impacto em seu bojo, o que para mim acabou tendo a reflexão final de “é bom, mas eu esperava mais“.

Deadly Class #1 a 6: Filhos de Reagan (Reagan Youth) — EUA, 2014
Editora original: Image Comics
No Brasil: Devir, 2018
Roteiro: Rick Remender
Arte: Wes Craig
Cores: Lee Loughridge
Letras: Rus Wooton
Capas: Wes Craig
Editoria: Sebastian Girner
176 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.