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Crítica | Deadpool: Meus Queridos Presidentes

por Giba Hoffmann
105 views (a partir de agosto de 2020)

Contém spoilers. Confira mais quadrinhos do Deadpool aqui.

Meus Queridos Presidentes é o primeiro arco do terceiro volume da mensal de Deadpool, e a entrada do personagem na Marvel NOW!iniciativa de renovação de toda a linha da editora que rolou em 2013 nos EUA. Após mais de cinco anos sendo roteirizado por Daniel Way, o mercenário recebe aqui uma nova equipe criativa, na forma dos roteiros da dupla Gerry Duggan e Brian Posehn e da arte de Tony Moore.  Ambos com experiência em comédia televisiva, Duggan e Posehn chegam de cara nos apresentando uma leitura bastante diferente do personagem e de seu mundo, trazendo novo fôlego à fórmula que já apresentava sinais de cansaço em Deadpool Morto, arco final da fase precedente.

Enquanto que Way trouxe para o personagem uma escrita que alternava entre a violência escrachada e o característico humor irreverente, localizando-o bem próximo de suas raízes mutantes e seu passado com figuras como o Treinador e a X-Force, a abordagem de Duggan e Posehn funciona como uma “volta ao básico” permeada por um humor satírico que vem dar um novo fôlego às aventuras do personagem. Pode-se dizer que os autores se inspiram um pouco na boa fase clássica de Joe Kelly, mas adicionam um pouco de seu toque pessoal o suficiente de forma que, ao final do primeiro arco, o leitor já se encontra familiarizado com uma nova versão do personagem.

Anteriormente eu fiz o comparativo da abordagem de Kelly para Deadpool, no arco inicial de sua primeira série mensal, com alguns dos desenhos infanto-juvenis mais inovativos da década de 1990. Aqui, poderíamos dizer que acontece algo de semelhante, sendo que o estilo do diálogo nonsense repleto de referências externas, suas entregas blasé e velocidade acelerada não soariam muito fora de lugar em um episódio de Hora de Aventura ou Apenas um Show, porém com traços bem-vindos de um humor satírico que não soaria fora de lugar em um The Simpsons ou mesmo Archer.

A trama central é simples, ridícula e com potencial para divertir: um agente da S.H.I.E.L.D. com vocação para as artes místicas, porém sem o treinamento necessário e com intenções mal informadas, acaba realizando um ritual de necromancia e ressucitando todos os presidentes norte-americanos já mortos de volta ao mundo dos vivos, visando restaurar a glória passada do país. Infelizmente, o retorno aparentemente vem acompanhado de um impulso demoníaco por destruição, e o que temos são versões enzumbizadas e definitivamente maléficas dos antigos governantes, soltos pelas ruas e tramando a destruição do país que o pobre agente Michael gostaria de salvar.

Entram os agentes da S.H.I.E.L.D. Preston e Adsit, encarrgados de resolver a crise e abafar o caso, não apenas não deixando a ressurreição chegar até a boca do povo, mas também de destrui-los de forma rápida e mais discreta possível. Afinal de contas, o público não digeriria bem ver imagens dos Vingadores destroçando os corpos das ilustres e inspiradoras figuras dessa forma. Não, este é um trabalho reservado para alguém totalmente desprovido de reputação e dignidade, um assassino sem escrúpulos que não se importaria em… OK, é o Deadpool, é óbvio!

A primeira edição abre com impacto, com a belíssima arte de Moore embalando uma narrativa rápida e densa, cheia de momentos hilários e conceitos absurdos pipocando por toda a história o suficiente para manter o leitor fisgado a cada página. Piadas bem entregues e cenas de ação muito bem realizadas na arte nos deixam vendidos para saber como a coisa toda se encaminhará.

Moore merece crédito ainda por realizar muito bem as fisionomias dos personagens estreantes, o que combinado aos diálogos bem escritos fazem com que o leitor sinta familiaridade com eles rapidamente, efeito que normalmente não acontece em quadrinhos desse tipo. Quantos e quantos agentes da S.H.I.E.L.D. nós vemos passar pelas páginas sem deixar nenhuma impressão mais marcante! Mas os agentes Emily Preston e Scott Adsit conseguem deixar uma impressão de primeira, o tipo de personagem que leva o leitor a torcer para que permaneçam como parte do elenco de apoio.

Nas edições subsequentes, temos uma narrativa em que se sucede uma montagem de situações estapafúrdias envolvendo os planos presidenciais para a destruição da América. Com George Washington tomando posse do livro de runas que os trouxeram de volta à vida, a coisa toda se complica. Mas Deadpool consegue sua própria trupe de aliados, o mais especial deles sendo Benjamin Franklin, que revela ter estado vivo esse tempo todo por ter “se tornado um com a eletricidade” na ocasião de sua morte. Um personagem simplesmente genial. Também temos a ajuda (de má vontade) do Doutor Estranho ajudando a equilibrar a balança.

A forma como a história é montada, no entanto, acaba atravancando um pouco da fluidez e da batida enérgica com que as duas primeiras edições foram conduzidas. Percebe-se facilmente que a história se formou ligando uma sequência de esquetes postulando situações hilárias para cada presidente morto. Temos Richard Nixon querendo destruir o conjunto de edifícios Watergate, Abraham Lincoln desafiando Wade para encará-lo no ringue de wrestling e Ronald Reagan indo para o espaço ativar as defesas militares da URSS contra a América, concretizando seu projeto “Star Wars”.

Todas essas intercalações funcionam bem no geral, trazendo momentos comédicos que mais acertam do que erram e ação retratada de forma fenomenal na arte incrível de Moore. Se por um lado o formato de “esquetes” funciona para emprestar às edições avulsas um sempre bem-vindo caráter de stand-alone, por outro lado o problema é justamente o quanto a narrativa não flui tão bem entre essas sequências, o que faz com que o arco chegue na sexta edição sem o mesmo momentum adquirido com seu início cheio de energia. Ainda assim, o time criativo consegue contornar o problema trazendo algumas viradas inesperadas na trama que nos preparam para a história seguinte, aguçando a curiosidade do leitor.

Meus Queridos Presidentes traz uma nova abordagem para o Mercenário Tagarela, entregando uma história divertida, escrachada e repleta de momentos hilários envolvendo a absurda guerra do mercenário canadense pirado contra os míticos Líderes de Estado norte-americanos. Com um excelente uso do elenco de apoio e uma trama cuja única limitação é a falta fluidez entre uma sequência e outra, que leva a um desfecho que parece um tantinho mais arrastado do que merecia, a história poderia se beneficiar de uma edição ou duas a menos a favor de um arco mais coeso e impactante. No entanto, o time criativo consegue trabalhar bem dentro da proposta e do formato optados, entregando um bom início para sua fase à frente das aventuras de Deadpool.

Deadpool: Meus Queridos Presidentes (Deadpool Vol. 3 #1 a 6) — EUA, 2013
Publicação no Brasil: X-Men Extra #1 a 5 (Ed. Panini, Janeiro a Maio de 2014); Deadpool: Meus Queridos Presidentes (Ed. Panini, Fevereiro de 2016)
Roteiro: Brian Posehn & Gerry Duggan
Arte: Tony Moore
Capa: Geof Darrow
Editora: Marvel Comics
Editoria: Nick Lowe
Páginas: 140

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