Crítica | Deadwood – 2ª Temporada

É chover no molhado dizer que Deadwood é uma daquelas “séries-referência”, o padrão pela qual todas as demais, de qualquer gênero, mas especialmente de faroeste, devem ser medidas. As grandes qualidades da 1ª temporada, elenco, design de produção, fotografia e montagem são mantidas e até amplificadas na 2ª, reiterando o minucioso trabalho criativo de David Milch a frente da série, como um pintor preocupando-se com cada detalhe de cada pincelada que dá em sua tela.

Continuando a história largamente verdadeira do “campo” Deadwood, criado em questão de meses após a descoberta de jazidas de ouro nos chamados Black Hills, região que hoje faz parte da Dakota do Sul, nos EUA, Milch introduz dois elementos fortemente disruptivos no segundo ano de sua série: a chegada da família de Seth Bullock e de Francis Wolcott, geólogo e braço direito do milionário George Hearst, pai de William Randolph Heart, personagem que inspirou Charles Foster Kane, do espetacular Cidadão Kane. Com isso, Milch trabalha a temporada em dois níveis distintos que se interpenetram, mergulhando no lado pessoal de Bullock e também no futuro de Deadwood controlada por Hearst cuja mina continuaria extraindo ouro dali até o ano de 2001(!!!).

Mas, muito mais do que eventos trabalhados para impulsionar a narrativa, a chegada de Martha e William Bullock e de Wolcott parecem marcar, também, a chegada da chamada “civilização”. Como tive a oportunidade de abordar na crítica da temporada inaugural, a preocupação de Milch era estudar a formação da sociedade a partir do caos e os 12 primeiros episódios nos apresentaram a esse caos chegando na fronteira do que era possível ser feito sem algum tipo de organização. Esse marco civilizatório, por assim dizer, porém, não traz felicidade a reboque e o showrunner, agora, aborda justamente a forma perniciosa como interesses externos maculam uma sociedade em formação, mesmo que em seu seio essa sociedade já carregue a podridão da humanidade. É aquele velho ditado que diz que, antes de as coisas melhorarem, elas ficarão piores.

Martha Bullock, vivida de forma maravilhosamente contida por Anna Gunn (que alguns anos depois faria Skyler White em Breaking Bad), é o passado de Bullock (Timothy Olyphant) alcançando-o justamente no momento em que ele começava a encontrar felicidade nos braços da viúva Alma Garret (Molly Parker), agora cada vez mais rica em razão da jazida de seu marido, supervisionada pelo bondoso Whitney Ellsworth (Jim Beaver). No momento exato que Seth vê Martha e o jovem William (Josh Eriksson) – esposa e filho de seu irmão, na verdade – ele está trocando socos na lama e nas fezes da rua da cidade com Al Swearangen (Ian McShane), seu inimigo mortal, mas que é por vezes seu aliado necessário. É o ponto de virada simbólico entre a barbárie e a civilização que o roteiro constrói de maneira brilhante, eficiente e crível, já estabelecendo o principal ponto de conflito da temporada, com Seth passando a viver o dilema moral e ético entre continuar o seu caso (tecnicamente, já que ele, afinal, casou com Martha) ou largar a felicidade em prol do futuro organizado que ele deseja lá no fundo?

Por sua vez, a chegada de Wolcott é menos barulhenta, menos óbvia, mas muito mais perniciosa para esse futuro organizado que Bullock quer. Interpretado pelo ótimo Garret Dillahunt, que volta à série em seu segundo papel, depois que fez o covarde Jack McCall, assassino de Wild Bill Hickok, o novo personagem (fictício, mas baseado em uma amálgama verdadeira) parece configurar a própria contradição entre selvageria e civilização. Por fora, vemos um homem sofisticado, que fala e se veste bem e que parece querer o bem de todos, enquanto que, por dentro, ele é uma alma corrompida, fria, manipuladora e mortal. De certa forma, ele é o que Deadwood é, um local que reúne ao mesmo tempo o pior e o melhor, o passado e o futuro.

Prezando pelos interesses de Hearst, que permanece só em nome até o último episódio da temporada, Wolcott espalha o terror para semear lucro com a compra das terras dos mineradores por preço vil, deixando evidente, narrativamente, que a chamada civilização tem um preço e ele não é alto em metal, mas sim em vidas. A forma como os roteiros costuram o personagem de maneira fluida e indelével em cada aspecto daquela sociedade em ebulição é de se aplaudir de pé, assim como é a atuação de Dillahunt, ao mesmo tempo muito diferente e muito igual ao seu McCall do ano anterior.

Para que, porém, Wolcott funcione bem na tessitura da série, Milch emudece Al Swearengen no começo da temporada, criando para ele uma enfermidade grave na época, pedra nos rins. E o que poderia ser um artifício bobo em uma série normal, transforma-se em uma subtrama espetacular que dá mais espaço para o médico “Doc” Cochran (Brad Dourif) e também para o braço direito de Al, Dan Dority (W. Earl Brown) e até para o “braço esquerdo” Johnny Burns (Sean Bridgers). Ver o sofrimento de Al refletido em todos ao seu redor, criando apreensão e tensão, é uma aula de televisão e de atuação desse pequeno grupo de atores, especialmente McShane.

Mas a civilização também vem em nível pessoal para outros personagens. Temos principalmente a prostituta Trixie (Paula Malcomson) aproximando-se ainda mais de Sol Star (John Hawkes) e tentando, ainda que sem saber, deixar no passado o único tipo de vida que conhece, emprestando uma camada torturada e triste para a personagem. Temos A.W. Merrick (Jeffrey Jones), o único jornalista do acampamento, perdendo sua inocência e aprendendo que a imprensa imparcial não existe de verdade, graças às manobras de Wolcott e, depois de Swearengen. Temos também a ex-prostituta-chefe do saloon de Cy Tolliver (Powers Boothe), Joanie Stubbs (Kim Dickens), tentando um negócio próprio e descobrindo o horror da civilização representada por Wolcott.

A temporada é bem mais movimentada e angustiante que a primeira, já que as engrenagens haviam sido apresentadas a contento e o que vemos, nesse segundo momento, é o motor funcionando cada vez em rotação maior, girando uma roda que movimenta cada minúscula peça desse tabuleiro civilizatório que Milch vai aos poucos montando. Tragédias pessoais ecoam a tragédia da sociedade organizada e o universo de Deadwood – violento e mortal – nunca mais seria o mesmo, mas continuaria, de sua própria maneira, violento e mortal. O ciclo nunca é quebrado e o showrunner sabe disso, com o microcosmo de sua série sendo um recorte do mundo real: um enorme lamaçal, mas com a lama e sujeira escondidas atrás de paredes bem pintadas.

Deadwood – 2ª Temporada (EUA – 06 de março a 22 de maio de 2005)
Showrunner: David Milch
Direção: Ed Bianchi, Steve Shill, Alan Taylor, Gregg Fienberg, Michael Almereyda, Tim Van Patten, Dan Minahan
Roteiro: David Milch, Jody Worth, Elizabeth Sarnoff, Ted Mann, Victoria Morrow, Steve Shill, Regina Corrado, Sara Hess, Bryan McDonald
Elenco: Timothy Olyphant, Ian McShane, Molly Parker, Jim Beaver, W. Earl Brown, Dayton Callie, Kim Dickens, Brad Dourif, Anna Gunn, John Hawkes, Jeffrey Jones, Paula Malcomson, Leon Rippy, William Sanderson, Robin Weigert, Sean Bridgers, Garret Dillahunt, Titus Welliver, Brent Sexton, Powers Boothe, Bree Seanna Wall, Josh Eriksson, Sarah Paulson, Stephen Tobolowsky, Geri Jewell, Richard Gant, Franklyn Ajaye, Michael Harney
Duração: 720 min. (12 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.