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Crítica | Deadwood – 2ª Temporada

por Ritter Fan
250 views (a partir de agosto de 2020)

É chover no molhado dizer que Deadwood é uma daquelas “séries-referência”, o padrão pela qual todas as demais, de qualquer gênero, mas especialmente de faroeste, devem ser medidas. As grandes qualidades da 1ª temporada, elenco, design de produção, fotografia e montagem são mantidas e até amplificadas na 2ª, reiterando o minucioso trabalho criativo de David Milch a frente da série, como um pintor preocupando-se com cada detalhe de cada pincelada que dá em sua tela.

Continuando a história largamente verdadeira do “campo” Deadwood, criado em questão de meses após a descoberta de jazidas de ouro nos chamados Black Hills, região que hoje faz parte da Dakota do Sul, nos EUA, Milch introduz dois elementos fortemente disruptivos no segundo ano de sua série: a chegada da família de Seth Bullock e de Francis Wolcott, geólogo e braço direito do milionário George Hearst, pai de William Randolph Heart, personagem que inspirou Charles Foster Kane, do espetacular Cidadão Kane. Com isso, Milch trabalha a temporada em dois níveis distintos que se interpenetram, mergulhando no lado pessoal de Bullock e também no futuro de Deadwood controlada por Hearst cuja mina continuaria extraindo ouro dali até o ano de 2001(!!!).

Mas, muito mais do que eventos trabalhados para impulsionar a narrativa, a chegada de Martha e William Bullock e de Wolcott parecem marcar, também, a chegada da chamada “civilização”. Como tive a oportunidade de abordar na crítica da temporada inaugural, a preocupação de Milch era estudar a formação da sociedade a partir do caos e os 12 primeiros episódios nos apresentaram a esse caos chegando na fronteira do que era possível ser feito sem algum tipo de organização. Esse marco civilizatório, por assim dizer, porém, não traz felicidade a reboque e o showrunner, agora, aborda justamente a forma perniciosa como interesses externos maculam uma sociedade em formação, mesmo que em seu seio essa sociedade já carregue a podridão da humanidade. É aquele velho ditado que diz que, antes de as coisas melhorarem, elas ficarão piores.

Martha Bullock, vivida de forma maravilhosamente contida por Anna Gunn (que alguns anos depois faria Skyler White em Breaking Bad), é o passado de Bullock (Timothy Olyphant) alcançando-o justamente no momento em que ele começava a encontrar felicidade nos braços da viúva Alma Garret (Molly Parker), agora cada vez mais rica em razão da jazida de seu marido, supervisionada pelo bondoso Whitney Ellsworth (Jim Beaver). No momento exato que Seth vê Martha e o jovem William (Josh Eriksson) – esposa e filho de seu irmão, na verdade – ele está trocando socos na lama e nas fezes da rua da cidade com Al Swearangen (Ian McShane), seu inimigo mortal, mas que é por vezes seu aliado necessário. É o ponto de virada simbólico entre a barbárie e a civilização que o roteiro constrói de maneira brilhante, eficiente e crível, já estabelecendo o principal ponto de conflito da temporada, com Seth passando a viver o dilema moral e ético entre continuar o seu caso (tecnicamente, já que ele, afinal, casou com Martha) ou largar a felicidade em prol do futuro organizado que ele deseja lá no fundo?

Por sua vez, a chegada de Wolcott é menos barulhenta, menos óbvia, mas muito mais perniciosa para esse futuro organizado que Bullock quer. Interpretado pelo ótimo Garret Dillahunt, que volta à série em seu segundo papel, depois que fez o covarde Jack McCall, assassino de Wild Bill Hickok, o novo personagem (fictício, mas baseado em uma amálgama verdadeira) parece configurar a própria contradição entre selvageria e civilização. Por fora, vemos um homem sofisticado, que fala e se veste bem e que parece querer o bem de todos, enquanto que, por dentro, ele é uma alma corrompida, fria, manipuladora e mortal. De certa forma, ele é o que Deadwood é, um local que reúne ao mesmo tempo o pior e o melhor, o passado e o futuro.

Prezando pelos interesses de Hearst, que permanece só em nome até o último episódio da temporada, Wolcott espalha o terror para semear lucro com a compra das terras dos mineradores por preço vil, deixando evidente, narrativamente, que a chamada civilização tem um preço e ele não é alto em metal, mas sim em vidas. A forma como os roteiros costuram o personagem de maneira fluida e indelével em cada aspecto daquela sociedade em ebulição é de se aplaudir de pé, assim como é a atuação de Dillahunt, ao mesmo tempo muito diferente e muito igual ao seu McCall do ano anterior.

Para que, porém, Wolcott funcione bem na tessitura da série, Milch emudece Al Swearengen no começo da temporada, criando para ele uma enfermidade grave na época, pedra nos rins. E o que poderia ser um artifício bobo em uma série normal, transforma-se em uma subtrama espetacular que dá mais espaço para o médico “Doc” Cochran (Brad Dourif) e também para o braço direito de Al, Dan Dority (W. Earl Brown) e até para o “braço esquerdo” Johnny Burns (Sean Bridgers). Ver o sofrimento de Al refletido em todos ao seu redor, criando apreensão e tensão, é uma aula de televisão e de atuação desse pequeno grupo de atores, especialmente McShane.

Mas a civilização também vem em nível pessoal para outros personagens. Temos principalmente a prostituta Trixie (Paula Malcomson) aproximando-se ainda mais de Sol Star (John Hawkes) e tentando, ainda que sem saber, deixar no passado o único tipo de vida que conhece, emprestando uma camada torturada e triste para a personagem. Temos A.W. Merrick (Jeffrey Jones), o único jornalista do acampamento, perdendo sua inocência e aprendendo que a imprensa imparcial não existe de verdade, graças às manobras de Wolcott e, depois de Swearengen. Temos também a ex-prostituta-chefe do saloon de Cy Tolliver (Powers Boothe), Joanie Stubbs (Kim Dickens), tentando um negócio próprio e descobrindo o horror da civilização representada por Wolcott.

A temporada é bem mais movimentada e angustiante que a primeira, já que as engrenagens haviam sido apresentadas a contento e o que vemos, nesse segundo momento, é o motor funcionando cada vez em rotação maior, girando uma roda que movimenta cada minúscula peça desse tabuleiro civilizatório que Milch vai aos poucos montando. Tragédias pessoais ecoam a tragédia da sociedade organizada e o universo de Deadwood – violento e mortal – nunca mais seria o mesmo, mas continuaria, de sua própria maneira, violento e mortal. O ciclo nunca é quebrado e o showrunner sabe disso, com o microcosmo de sua série sendo um recorte do mundo real: um enorme lamaçal, mas com a lama e sujeira escondidas atrás de paredes bem pintadas.

Deadwood – 2ª Temporada (EUA – 06 de março a 22 de maio de 2005)
Showrunner: David Milch
Direção: Ed Bianchi, Steve Shill, Alan Taylor, Gregg Fienberg, Michael Almereyda, Tim Van Patten, Dan Minahan
Roteiro: David Milch, Jody Worth, Elizabeth Sarnoff, Ted Mann, Victoria Morrow, Steve Shill, Regina Corrado, Sara Hess, Bryan McDonald
Elenco: Timothy Olyphant, Ian McShane, Molly Parker, Jim Beaver, W. Earl Brown, Dayton Callie, Kim Dickens, Brad Dourif, Anna Gunn, John Hawkes, Jeffrey Jones, Paula Malcomson, Leon Rippy, William Sanderson, Robin Weigert, Sean Bridgers, Garret Dillahunt, Titus Welliver, Brent Sexton, Powers Boothe, Bree Seanna Wall, Josh Eriksson, Sarah Paulson, Stephen Tobolowsky, Geri Jewell, Richard Gant, Franklyn Ajaye, Michael Harney
Duração: 720 min. (12 episódios)

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12 comentários

Gabriel Bublitz 29 de março de 2020 - 20:02

Os dois primeiros e o último episódio foram sensacionais, começou e fechou com muita qualidade.

A única coisa que não me agradou foi terem usado o mesmo ator de um personagem que já tinha aparecido na temporada anterior. A todo momento eu pensava que o Wolcott ia começar a falar que nem um caipira bêbado.

Responder
planocritico 29 de março de 2020 - 21:11

Achei o Dillahunt espetacular nos dois papeis e sua escalação dupla, por isso, não me incomodou. Além de serem personagem bem diferentes, totalmente inconfundíveis, eu diria.

Abs,
Ritter.

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Gabriel Bublitz 30 de março de 2020 - 12:43

Oi Ritter!
Em nenhum momento falei mal do nível da atuação.
Quis dizer apenas que não mudaria em NADA o enredo se fosse outro bom ator.
À primeira vista causa estranheza (ao meu ver, desnecessária) ver um ator que já tínhamos visto, mas vai desaparecendo pela ótima atuação (ainda bem).

Responder
planocritico 30 de março de 2020 - 14:53

Eu sei que você não disse isso, mas é que, para mim, a presença dupla dele só é justificável dessa forma. Daí a minha resposta.

Abs,
Ritter.

Responder
Gabriel Bublitz 30 de março de 2020 - 18:07

Aaah sim. Do tipo ‘ele é tão bom ator que é melhor botar ele do que arriscar um novo’, isso?

Aproveitando, que paralelo (ou diferença) poderíamos criar com os personagens do Franco em The Deuce? Pq lembro que lá, na primeira temporada, pra ti meio que não acrescentava muito ele interpretando os dois personagens

Abraço!

Gabriel Bublitz 30 de março de 2020 - 15:19

Aaah sim. Do tipo ‘ele é tão bom ator que é melhor botar ele do que arriscar um novo’, isso?

Aproveitando, que paralelo (ou diferença) poderíamos criar com os personagens do Franco em The Deuce? Pq lembro que lá, na primeira temporada, pra ti meio que não acrescentava muito ele interpretando os dois personagens

Abraço!

planocritico 30 de março de 2020 - 15:25

Não necessariamente que é melhor colocar ele do que arriscar outro, pois há um monte de atores bons por aí, mas sim porque a duplicação não prejudicou em nada a série.

Sobre a duplicação em The Deuce, acho-a muito diferente de Deadwood. Em Deadwood, são dois personagens “bandidos” que não têm relação alguma entre si e que estão separados inclusive por temporadas e foi só uma escolha da produção em trazer o mesmo ator novamente (por exemplo, eu vi cada temporada de Deadwood separada por um bom tempo entre elas e demorei muito a perceber que era o mesmo ator). Em The Deuce, os dois personagens, apesar de diferentes, convivem e têm relação próxima sem que exista uma justificativa muito clara – para além de uma brincadeira com o título da série – para que existam irmãos gêmeos, e não para que o mesmo ator viva os dois, pois seria natural mesmo ele viver os dois.

Abs,
Ritter.

Marcelo lopes 1 de julho de 2019 - 13:09

alguém pode me dizer onde consigo assistir essa serie em qualidade boa?

Responder
Cláudio 30 de junho de 2019 - 08:19

Cara, pretendo assistir essa série ainda esse. Mas toda série de época que assisto gosto de ler materiais de apoio sobre a época em que ela se passa. Você tem algum livro, artigo, texto, documentário, etc para me indicar sobre esse período?
PS: Sou fã do site, estou por aqui desde fim de 2014. Sucesso!

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planocritico 1 de julho de 2019 - 17:38

Obrigado pelo prestígio, @disqus_g7z2ZsSfe4:disqus !

Olha, em termos de material de apoio para Deadwood, não tem muita coisa tão acessível assim. Eu tenho a caixa de Blu-Ray da série completa (americana) e os extras são muito bons, pois abordam os personagens e a cidade verdadeira.

Em termos de livros, eu encontrei três que me pareceram interessantes, mas que não tive oportunidade de comprar ainda: Deadwood: A Novel, Deadwood (Pete Dexter) e The Real Deadwood. Todos estão disponíveis, em inglês, na loja da Amazon.

De resto, há artigos esparsos na internet sobre a cidade e a corrida do ouro que a criou.

Abs,
Ritter.

Responder
Daniel Barros 29 de junho de 2019 - 23:19

Por favor, a pessoa que tiver escrito essa crítica, efetue logoff e utilize o seu usuário.
Ritter jamais daria 5 estrelas para Deadwood e 4.5 Mad Men.

Responder
planocritico 29 de junho de 2019 - 23:29

Nada disso! Que calúnia!!!

Das seis temporadas de Mad Men que eu critiquei por temporada, metade levou cinco estrelas e metade 4,5. E a última temporada é cheia de episódio cinco estrelas!!!

Abs,
Ritter.

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