Crítica | Deadwood Dick: Negro Como a Noite, Vermelho Como Sangue

Deadwood Dick, título novo da Bonelli lançado em 2018 através do selo Audace, tem como base o conto Soldierin (2010) e tematicamente o livro Black Hat Jack: The True Life Adventures of Deadwood Dick as told by His Ownself (2014), de Joe R. Lansdale, escritor com experiência no gênero faroeste e conhecido por sua capacidade de criar aventuras nesse momento da história dos Estados Unidos adaptando a ele alguns ingredientes de outros gêneros literários/cinematográficos, especialmente o noir.

A obra de Lansdale é recriada aqui para os quadrinhos sob o roteiro de Michele Masiero e pelos desenhos de Corrado Mastantuono. A narrativa é daquelas que quebram a quarta parede, sendo em última análise um diário ou confissão cômica, cínica e desbocada do protagonista, que no arco formado por estas duas primeiras edições da série — Negro Como a Noite e Vermelho Como Sangue, lançados originalmente em julho e agosto de 2018 — apresenta-se para o leitor com uma saga de origem, da fuga do personagem até o momento em que ele dá baixa do Exército.

Todo o conteúdo de crítica social pode ser visto aqui no discurso de Deadwood Dick, que já nos primeiros quadros justifica a ideia de abordagem mais politicamente incorreta, por assim dizer, das aventuras de um personagem pelo Velho Oeste. Ocorre que este não é um personagem qualquer. Pela primeira vez em sua história, a Bonelli traz um protagonista negro para um título, e este personagem tem uma visão bastante crua, realista, verdadeira, de como funcionavam as coisas ao sul dos Estados Unidos no período após a libertação dos escravos. Por mais que o modelo sociopolítico da abolição assinada por Lincoln tenha sido melhor que o modelo brasileiro, com os ex-escravos ganhando um lote de terra para produzir, as dificuldades financeiras e o profundo racismo que enfrentavam (e enfrentam até hoje!) naquela sociedade não foram remediados e não haviam leis para cercar os comportamentos violentos contra eles. É justamente uma dessas ações que coloca Dick para correr, e é defendendo uma sólida ideia de relação social humanista que o personagem segue até encontrar alguém que será o seu companheiro por um tempo.

plano critico nat love deadwood dick

Foto de Nat Love (o verdadeiro Deadwood Dick) publicada em sua biografia, em 1907 e conceito de Corrado Mastantuono para a série da Audace, em 2018.

Como a intenção geral dessas edições é apresentar as primeiras andanças do personagem após fugir dos homens que queriam enforcá-lo por ter olhado para uma mulher branca (dentre muitas outras coisas, me lembrou a belíssima canção Sinhá, de Chico e João Bosco), o leitor não deve esperar algo mais profundo e mais amplo dessas histórias. Para o que se propõe, Masiero fez um bom serviço aqui, exceto pela correria na parte final de Vermelho Como o Sangue, em uma narração cheia de elipses, piscadelas para o futuro e saída rápida do Exército para aventuras que eventualmente devem colocar o personagem frente aos homens que queriam enforcá-lo logo no começo. Se a gente pensar no humor ácido e bom ritmo da saga até esse bloco final, é impossível não se incomodar, um pouco que seja, com a rápida mudança adotada pelo autor.

O leitor também não deve esperar aqui um código moral rígido por parte de Deadwood Dick. Masiero está mais interessado em usar a estrutura social da época para engajar o personagem em diversas ações. Seu discurso talvez vá incomodar leitores que se assustam facilmente com qualquer linha mais politizada — mesmo nas questões raciais — em um quadrinho, o que por si só já é uma bobagem sem tamanho. Outro ponto de destaque é a demonstração mais selvagem das relações no Oeste, com cenas que incorporam um certo código de sobrevivência que gera excelentes sequências de luta contra os Apaches (destaque para a arte de Mastantuono) e mescla isso à organização historicamente acurada entre os Buffalo Soldiers, do qual Dick fazia parte. Eis aqui uma história engraçada, cruel e que certamente ainda tem muitas coisas para nos contar. Um título que definitivamente vale a pena conhecer.

Deadwood Dick #1 e 2: Nero come la Notte, Rosso Come il Sangue (Itália, julho e agosto de 2018)
Editora original: Audace (Sergio Bonelli Editore)
No Brasil: Panini, setembro de 2019
Roteiro: Michele Masiero (baseado na obra de Joe R. Lansdale)
Arte: Corrado Mastantuono
Capas: Corrado Mastantuono
144 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.