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Crítica | Decálogo 7 – Não Roubarás

por Luiz Santiago
225 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 3,5

O Decálogo 7, baseado no mandamento “não roubarás”, se caracteriza como o mais fraco dos episódios da série até então. Mas esta fraqueza não está efetivamente na concepção estética da obra, que carrega o mesmo cuidado de Kieslowski, aqui acompanhado pelo fotógrafo Dariusz Kuc, com a importância da cor, a caracterização do cenário, o uso da trilha sonora e metáforas visuais ou conceituais bastante específicas percebidas nos figurinos, objetos (como os ursinhos de pelúcia) e no próprio nome da jovem protagonista, Majka, que em eslavo significa “mãe”.

Majka deu à luz a Ania aos 16 anos, resultado de um romance com seu jovem professor de polonês. Para evitar um grande escândalo, a mãe de Majka assume a maternidade de Ania, sendo Majka definida como irmã da criança. Quando Ania completa 6 anos, o sentimento materno em Majka não consegue mais suportar a opressão externa e interna e acaba sequestrando a filha, planejando sair da Polônia e ir para a casa de conhecidos no Canadá.

O mandamento aqui está mais uma vez ligado a uma forte questão psicológica, exatamente como visto em Não Cometerás Adultério. Os problemas maternos, o tratamento para a figura do pai (o mais velho e o mais novo), a ideia da entrega do que não se tem quando apaixonado e, claro, o paradoxo do roubo daquilo que é seu são alguns dos exemplos. A discussão alcança um caráter dinâmico e interessante à medida que colocamos o amor em cena e também a ideia de posse. Como a figura angelical presente nos outros seis episódios não é vista aqui devido a problemas de agenda do ator Artur Barciś (e esta foi a primeira de duas vezes em que ele não apareceu na série – a outra seria em Não Desejarás Coisas Alheias, o Decálogo 10), a punição e o aviso divinos foram inseridos no roteiro com intensidade menor, por ser orgânico demais.

Essa afirmação de organicidade pode parecer estranha, mas eu explico. Veja que a proposta da série Decálogo é explorar como o homem contemporâneo age em relação aos “antigos mandamentos” bíblicos, sendo punido por Deus em sua desobediência. Dos Decálogos 1 a 6, a desobediência do homem sempre esteve ligada a algo bem mais palpável dentro da trama, um ato de desenvolvimento ou finalização mais forte e um tantinho artificial (no bom sentido), por misturar ordens punitivas a ações de um tempo onde tais atitudes são bem comuns, ou seja, o nosso tempo. Agora veja o que acontece aqui em Não Roubarás. O que temos ao final como punição é a separação da família, o massacre do desejo de ser mãe e, ao mesmo tempo, a ironia à santidade da posse (para algumas coisas) em contraponto à posse como necessidade e tentação humana (para quase tudo). O problema é que isto é fraco, se visto como punição divina, porque a família desmembrada e esse massacre de identidade de posse “por direito divino” já acontecia antes mesmo do “roubo” da criança ser efetuado no episódio.

Ou Kieslowski procurou realmente mostrar o quão questionável e subjetiva é essa visão do “não roubarás” ou ele realmente errou a mão (ao lado de seu parceiro de roteiro na série, Krzysztof Piesiewicz) na escrita do episódio. De uma forma ou de outra, a reticência final, o status solto vindo com o abandono da verdadeira mãe que segue no trem após a decepção de não poder ficar com “o que era seu” não foi o bastante para o episódio. Como apontei no início, trata-se de um capítulo com bom tratamento estético, boa direção (um pouco menos na condução dos atores, é verdade), mas o texto não consegue fechar bem o seu próprio ciclo e se desvia um pouco da proposta da própria série.

Decálogo 7: Não Roubarás (Dekalog, siedem) — Polônia, 1990
Direção: Krzysztof Kieslowski
Roteiro: Krzysztof Kieslowski, Krzysztof Piesiewicz
Elenco: Anna Polony, Maja Barelkowska, Wladyslaw Kowalski, Boguslaw Linda, Bozena Dykiel, Katarzyna Piwowarczyk
Duração: 55 min.

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12 comentários

Thiago Lira 8 de novembro de 2019 - 09:50

Olha, eu concordo com vc que esse episódio foge ligeiramente do todo da minissérie. Mas apesar disso, gostei de como o tema da maternidade foi abordado. É interessante toda a complexidade disso, desde a omissão da mãe que amou insuficientemente a filha, ou da jovem Makja que denegou a filha e busca o amor da criança de forma abrupta. Inclusive, obrigando a menina a chama-la de mãe e ela se nega a faze-lo por achar que é irmã. Deu pena da criança em meio a toda essa confusão resultante de uma situação dramática, o conflito instalado de como essa filha foi gerada em meio ao turbulento contexto de escândalo em torno de Majka e o pai de Ania. Não sei se alguém reparou, mas o que mais me chamou a atenção de todo o episódio foi a explicação onírica, com forte viés psicanalítico, do sono atormentado de Ania: a mãe de Majka teve um acesso histriônico quando descobriu a gravidez da filha (já pelos seis meses), quando o recurso das fitas usadas para omitir a barriga não era mais possível de esconder. Certamente esse colapso da mãe de Makja, como ela mesma reconhece no diálogo com o marido, foi apreendido de forma bastante primitiva e traumática para a menina Ania, justamente no momento de descoberta de sua existência. Em vez de regozijo, era uma descoberta de sofrimento que ficou marcada na criança, ainda que de forma incompreensível mas que sinaliza isso através do inconsciente, nos sonhos perturbadores. Acho que esse é o aspecto psicológico mais importante presente na história.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 8 de novembro de 2019 - 15:03

Muito bem levantado, @Thigzs:disqus, o aspecto psicológico e os elementos que você aponta no sonho complementam a visão de maternidade, tormento e despertar que o episódio traz para nós. Não é o meu favorito da série, mas não é um episódio ruim não!

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Thiago Lira 8 de novembro de 2019 - 15:41

Eu gostei muito desse episódio visto isoladadamente. Agora de fato, ao tentar conectar ele ao todo da minissérie, o paradoxo do “roubar o que é de si mesmo” não pareceu suficiente para se valer no Decálogo. Talvez isso tenha se fragilizado mais pela falta do anjo, que se aparecesse julgando as ações da Makja tornaria a história mais convincente na proposta da série.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 8 de novembro de 2019 - 17:45

Concordo! Você já viu a série inteira ou está justamente nesse episódio no momento?

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Thiago Lira 8 de novembro de 2019 - 21:45

Vi quase toda, até esse episódio! Só faltam os três restantes para concluir. 🙏🏼

Bruno Passos 16 de abril de 2018 - 02:29

Oi Luiz!

Tudo bem?

Parabéns pelo ótimo texto!

Analisando a posse como questão central. A disputa entre Majka e Ewa pela posse da garota, faz com que ao final todos percam. Majka perde sua filha biológica Ania; Ewa perde sua filha biológica Majka e sua “filha” Ania, pois essa agora sabe a verdade. E Ania perde sua mãe, pois sabe que Ewa, aquela que ela pensava ser sua mãe biológica, na verdade não é. E Majka, aquela que na verdade é a sua mãe biológica, vai embora.

Responder
Luiz Santiago 16 de abril de 2018 - 07:00

É um cenário de perdas e desilusões bastante triste, se a gente for ver, não é?

Responder
Bruno Passos 16 de abril de 2018 - 02:29

Oi Luiz!

Tudo bem?

Parabéns pelo ótimo texto!

Analisando a posse como questão central. A disputa entre Majka e Ewa pela posse da garota, faz com que ao final todos percam. Majka perde sua filha biológica Ania; Ewa perde sua filha biológica Majka e sua “filha” Ania, pois essa agora sabe a verdade. E Ania perde sua mãe, pois sabe que Ewa, aquela que ela pensava ser sua mãe biológica, na verdade não é. E Majka, aquela que na verdade é a sua mãe biológica, vai embora.

Responder
Lenilson Moutinho 10 de fevereiro de 2018 - 23:21

Sempre arrebentando nos comentários Luiz! Este é um dos meus preferidos! A família sempre foi um plano de Deus e ela estar bem fundamentada e estruturada é fundamental para o bom andamento da sociedade. Todos perdem quando se roubam os valores, como na série, em que um erro levou ao outro, trazendo dor se sofrimento a todos!

Responder
Lenilson Moutinho 10 de fevereiro de 2018 - 23:21

Sempre arrebentando nos comentários Luiz! Este é um dos meus preferidos! A família sempre foi um plano de Deus e ela estar bem fundamentada e estruturada é fundamental para o bom andamento da sociedade. Todos perdem quando se roubam os valores, como na série, em que um erro levou ao outro, trazendo dor se sofrimento a todos!

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Luiz Santiago 11 de fevereiro de 2018 - 07:36

Eu gosto bastante da ideia de perda de valores ou constituição de valores que o diretor trabalha aqui, sempre com seu olhar peculiar para os mandamentos. Mas como crítico não posso me ater apenas e um lado, o simbólico, ou o conteúdo. Preciso considerar o todo e aí entra a forma como esse episódio se estruturou. Me pareceu em certo ponto uma fuga de tema. É um bom episódio, mas no meu caso, ficou beeem lá em baixo na lista de melhores hehehehehe

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Luiz Santiago 11 de fevereiro de 2018 - 07:36

Eu gosto bastante da ideia de perda de valores ou constituição de valores que o diretor trabalha aqui, sempre com seu olhar peculiar para os mandamentos. Mas como crítico não posso me ater apenas e um lado, o simbólico, ou o conteúdo. Preciso considerar o todo e aí entra a forma como esse episódio se estruturou. Me pareceu em certo ponto uma fuga de tema. É um bom episódio, mas no meu caso, ficou beeem lá em baixo na lista de melhores hehehehehe

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