Crítica | “Definitely Maybe” – Oasis

Há 25 anos, o rock inglês começava a recuperar seu prestígio após anos em que as bandas norte-americanas praticamente monopolizaram os holofotes do segmento. O grande responsável por isso tem nome quase indiscutível – Definitely Maybe, primeiro álbum do Oasis, que se tornaria nos 15 anos seguintes uma da maiores bandas do mundo. O grupo de Manchester, comandado pelos verborrágicos e canastrões irmãos Gallagher, chegava ao topo das paradas mundiais resgatando uma fórmula já conhecida no rock: letras e riffs que vão direto ao ponto, mas ao mesmo tempo inspirados e capazes de marcar uma geração e temas que vão da angústia de existir à mais pura diversão. A voz despreocupada e blasè de Liam, bem como os acordes simples mas expressivos da guitarra de Noel, adicionavam um tempero próprio às inúmeras referências que o Oasis trazia consigo.

É incrível como até hoje tantas bandas tentam emular uma esquitice aqui e ali, seja por sua postura no palco, por seus figurinos exóticos ou por seu modo extravagante de compor. A maioria delas, entretanto, acaba fracassando completamente em criar qualquer identidade. No caso da banda comandada pelos irmão Gallagher, tudo parecia natural e genuíno. O Oasis não tardou a consolidar um estilo irreplicável de cantar e tocar e a enfileirar hits nas rádios de todo o mundo. Mas, ao contrário do que aconteceria com um mero pastiche mal acabado, mesmo amalgamando Rolling Stones, Beatles, Sex Pistols, David Bowie e tantos outros grandes nomes do rock britânico, o mundo se acostumou a ouvir as músicas da banda e a identificar ali algo honesto e que viera para ficar. O tempo desgastaria tudo isso, é claro e a qualidade dos discos se depauperaria junto com o relacionamento conturbado dos irmãos.

Definitely Maybe é considerado até hoje um dos melhores discos de estreia de todos os tempos com todos os méritos. A reafirmação da casualidade e até da displicência com que o álbum foi pensado está contida no próprio título. Era um disco de estreia sem maiores pretensões. Apenas para fazer as pessoas sentirem prazer em ouvir um bom disco de rock sem precisar de toda a verve depressiva e amargurada de bandas como o Nirvana (algo que se refletia sobre a própria má qualidade técnica das apresentações da banda de Kurt Cobain). A mim, pessoalmente, nunca agradaram tantos shows caóticos e, sem fazer rodeios, com músicas extremamente mal tocadas. A ideia de um rock auto-destrutivo sobre sua própria execução começava a cair por terra com as apresentações possantes do Oasis, que vinha para colocar a pá de cal sobre o grunge com uma sonoridade ao mesmo tempo delicada e viril.

Agora, ser um rock star era novamente motivo de orgulho, não de melancolia e auto-comiseração. É com alegria e brio que o disco declara seu amor pelo gênero do qual faz parte, logo em sua abertura, com Rock N’ Roll Star. “In my mind my dreams are real. Now we’re concerned about the way I feel” canta Liam Gallagher, encorajado pela guitarra afiada e sincera do irmão Noel. A faixa termina em uma espécie de looping que parece introduzir de vez a banda em seu sonho infinito de enaltecer o rock. Logo em seguida, a faixa Shakermaker também parece tratar dessa velha ambição de ir além, algo misturada com lembranças da adolescência ainda sem tantas glórias. A terceira faixa de Definitely MaybeLive Forever – é um dos grandes hinos do Oasis e a minha canção predileta da banda, tanto por sua letra que tão bem enaltece a liberdade, quanto por seu riff inesquecível e pelo que é, para mim, o melhor solo de guitarra de toda a discografia da banda. Música guardada para a história do rock.

As faixas seguintes versam em geral sobre os mesmos temas – sonhos do passado, desejo de liberdade, sentimentos inteiramente novos (em plena consonância com o momento de nascimento da banda) e vigor juvenil cantado em alto e bom som vão se alternando ao longo do disco. Destaque especial a Supersonic, que contém o melhor riff do álbum e novamente exalta a figura pujante, valorosa e quase épica do roqueiro. Até as drogas não aparecem como instrumento de destruição e ruína, mas sim como meio de evocar alegria, gozo e celebração. Isso está claríssimo na empolgante Cigarettes & Alcohol. Os encontros e desencontros amorosos também ganham espaço na primeira canção romântica do Oasis – Slide Away, que, mesmo não tendo sido um single, é uma das prediletas dos fãs até hoje, e também na menos proeminente mas longe de ser ruim Married With Children.

Definitely Maybe colocou o nome do Oasis na rota do rock da década de 90 e inscreveu o nome do grupo nas páginas de qualquer livro sobre o tema. O que Noel e Liam conseguiram aqui talvez nunca mais tenham alcançado. Num futuro longínquo e hipotético, em que o rock supostamente tivesse deixado de existir, talvez fosse esse um dos bons discos para presentear alguém que quisesse descobrir o que havia sido esse gênero musical, cuja história se confunde tanto com a própria história do último século.

Aumenta!: Live Forever
Diminui!: Married With Children

Definitely Maybe
Artista: Oasis
País: Inglaterra
Lançamento: 29 de agosto de 1994
Gravadora: Creation Records
Estilo: Rock, Britpop

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.