Crítica | Deixe a Neve Cair

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A neve disfarça as coisas.

A Netflix possui um catálogo imenso de filmes clichês. O interessante é que todos esses filmes se convergem no ponto de que são horríveis. Como exemplo, temos A Barraca do Beijo, lançado no último ano, e Crush à Altura, disponível recentemente (2019) na plataforma. Deixe a Neve Cair, porém, surpreende por ser um filme clichê cativante e que convence o público-alvo.

O longa conta a história de adolescentes com problemas pessoais. Julie (Isabela Merced) está preocupada com a doença mortal de sua mãe, ao passo que precisa decidir entre ir para a faculdade ou permanecer em casa. A vida dela muda na véspera do Natal quando Stuart (Shameik Moore), um cantor famoso, esbarra com ela em um trem preso em meio à nevasca. Já Addie (Odeya Rash) lida com a frustração de um amor não correspondido pelo seu namorado e com a briga com sua melhor amiga. Enquanto isso, Tobin (Michell Hope) não sabe como contar para Angie (Kiernan Shipka) que está apaixonado por ela. Todos eles precisam lidar com seus problemas antes que o Natal chegue.

O ponto que mais ressalta aos olhos (ou aos ouvidos) é a trilha sonora. Não só pela qualidade exuberante de musicais que acompanham cada momento da história, trazendo um ar teen e alegre para um filme natalino, mas também pela variedade de músicas. Nos deparamos, assim, com uma trilha sonora que não repete rumores. Já na primeira cena, por exemplo, uma música que gruda na cabeça abre o filme com um clima cativante aos amantes do clichê. Seria comum que essa música se repetisse em outro momento, porém isso não acontece. O mesmo vale para todas as outras do filme.

Aliado a isso, a película contém uma belíssima fotografia. Todas as cenas são destinadas justamente para onde devem ir, ou seja, não deixam o espectador perdido na obra. Os enquadramentos são colocados com enorme cuidado, buscando aproveitar tudo o que o espaço oferece.

O excesso de personagens carismáticos também convida o espectador a continuar a história. É comum em clichês a presença de um antagonista que todos deverão odiar e, portanto, as cenas solo desse antagonistas costumam causar angústia. Em Deixe a Neve Cair, entretanto, isso não acontece. Todos os personagens são elegantes e convoca o espectador a adorar cada cena, ao passo que intima a torcer pelo bem de todos. Assim, ficamos vidrados na tela, almejando que os personagens superem os seus problemas e curiosos com o destino de cada um. É um filme para o desestresse.

Neste ponto, ainda é importante destacar o esforço dos produtores para que o projeto seja representativo aos diferentes tipos de público. Assim, nos deparamos com um protagonista negro, um LGBT e um acima do peso. Essas características são recorrentes às obras da Netflix, porém comumente são o ponto central do filme. Em Deixe a Neve Cair, no entanto, esses elementos são introduzidos naturalmente, ou seja, sem ser algo tornado espetáculo pela obra.

É uma pena que os personagens são pouco aprofundados. Com três arcos diferentes, a história não segue uma linearidade e constrói narrativas superficiais. A história de Stuart, por exemplo, como um famosíssimo cantor, só é explorada uma vez no filme. Aliado a isso, a comédia sequer aparece. Para um filme de “comédia romântica”, esse elemento faz muita falta.

Deixe a Neve Cair é um surpreendente filme da Netflix que convence pelos bons personagens e pela trilha sonora impecável. Embora a comédia e os arcos sejam superficiais, o projeto é digno de ser visto como um “clássico de fim de ano“, em especial, na véspera do Natal.

Deixe a Neve Cair (Let It Snow) — EUA, 9 de novembro de 2019
Direção: Luke Snellin
Roteiro: John Green
Elenco: Isabela Merced, Jacob Batalon, Kiernan Shipka, Liv Hewson, Mitchell Hope, Shameik Moore, Odeya Rush
Duração: 93 min.

FERNANDO ANNUNZIATA . . . Por meio de um sonho, fui convocado pessoalmente pela Marilyn Monroe a participar do mundo das críticas cinematográficas. Sem saber o que esse mundo me reservava, cavalguei com a Lady Godiva em busca do Lendário Livro de Verdades. Atravessamos Gotham, Hogwarts e Twin Peaks atrás do nosso objetivo. Com a revelação dentro de um baú feito de mármore a dois metros dos nossos olhos, nos deparamos com o melhor final possível: o Livro era um espelho. Agora sou o dono de todas as verdades e faço parte de um culto de bruxos chamado Plano Crítico. A única resposta que não tenho é se prefiro minha antiga vida, quando eu era um mortal estudante de Comunicação Social de 18 anos, ou a vida atual, na qual eu descobri a verdade sobre Bohemian Rhapsody.