Crítica | Demência 13

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Ambientado em um sombrio castelo irlandês, Demência 13 acompanha a história de Louise (Luana Anders), mulher obstinada que, após a repentina morte de seu marido John (Peter Read), passa a se interessar pela herança que a mãe do mesmo pretende deixar aos filhos. Após encobrir o falecimento, ela parte para o castelo em que a matriarca Lady Haloran (Ethne Dunn) e seus filhos Richard (William Campbell) e Billy Haloran (Bart Patton) se encontram. Uma vez lá, Louise é cúmplice de um estranho ritual: todos os anos, a família honra a memória de uma filha/irmã que há 29 anos morreu trágica e precocemente.

Produzido por Roger Corman e dirigido por Francis Coppola (até então o cineasta não usava seu nome do meio Ford), o longa é recheado de influências diretas à Alfred Hitchcock, mais claramente ao seu filme mais famoso, Psicose, que havia sido lançado três anos antes deste Demência 13. Desde mistérios familiares até a trilha sonora, e passando por interesses financeiros e mulheres loiras, Coppola bebe da fonte de Hitchcock para fazer deste seu trabalho uma viagem misteriosa pelo castelo da família Haloran.

Ademais da influência do Mestre do Suspense, Demência 13 facilmente é lido como um Filme B, e o nome de Roger Corman nos créditos como produtor não é coincidência (ele foi um dos principais nomes por trás de produções do tipo). Assim, alguns elementos do gênero estão presentes no longa, como a violência gráfica e o baixo orçamento, sendo este último visivelmente refletido na curta duração do filme e no fato dele ter sido filmado em apenas 9 dias. Para tanto, o roteiro escrito por Coppola e Jack Hill não investe muito tempo em apresentação e desenvolvimento de personagens, indo direto ao ponto em todos os aspectos, criando assim uma narrativa econômica e compilada, porém simplista e com algumas ocorrências que se sucedem de maneira rápida.

Assim, essa rapidez da narrativa acaba por não permitir que o espectador consiga digerir todas as informações fornecidas pelo roteiro, principalmente no terceiro ato — algo que pouco altera o resultado final do filme, tendo em vista a maneira com que Coppola nos mergulha em sua história: o ritmo envolvente que o cineasta transmite ao longa impede que desviemos o olhar da tela, contando para isso com auxílio da angustiante trilha sonora de Ronald Stein e do eficaz trabalho de todo o elenco de atores. Destaca-se que tudo isso é representado com eficiência pela tensa cena em que Louise vasculha em um quarto do castelo, que ainda apresenta sombras e elementos de cenário que ajudam a construir o clima de mistério e nervosismo pulsante.

Já o castelo em que o filme se desenrola é muito bem utilizado pelo diretor para criar uma atmosfera gótica e sobrenatural, que serve tanto para aumentar o mistério quanto para adicionar à trama um tom mais histórico e clássico. Por fim, a já citada violência gráfica surge impactante e seca, sem restrições – e o diretor é hábil ao deixar de usar a trilha sonora na sequência mais marcante do filme, usando apenas recursos sonoros diegéticos para compor a cena, em uma escolha certeira que aumenta ainda mais o choque do que nos é exibido.

Demência 13 não se configura como um dos mais famosos filmes de Franis Ford Coppola, nem como um trabalho de grande renome dentro da gama dos Filmes B. Porém, o filme nos apresenta a primeira vez que o cineasta foi creditado como diretor, em um trabalho que já indicava o seu interesse em explorar as relações em família (mesmo que de forma contida), um tema que se tornaria recorrente em sua carreira. Um filme tenso e ao mesmo tempo delicioso de se ver do início ao fim.

Demência 13 (Dementia 13, EUA/Irlanda, 1963)
Direção: Francis Ford Coppola
Roteiro: Francis Ford Coppola e Jack Hill
Elenco: William Campbell, Luana Anders, Bart Patton, Mary Mitchel, Patrick Magee, Ethne Dunn, Peter Read, Karl Schanzer, Ron Perry, Derry O’Donavan, Barbara Dowling
Duração: 75 min.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.