Crítica | Democracia em Vertigem

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Democracia em Vertigem, aos mais atentos, pode parecer um tanto redundante na nossa filmografia recente. Junto de seus antecessores O Processo e Excelentíssimos, ambos de 2018, é consequência duma enorme ansiedade em retratar os acontecimentos políticos que ocorrem desde as manifestações de 2013 até o presente. Os três documentários configuram-se como tentativas distintas de dar uma narrativa oficial a tudo que aconteceu em volta do golpe que tirou a presidente Dilma Rousseff do poder em 2016. Enquanto O Processo foca nos processos jurídicos do Impeachment de forma dramática e teatral, e Excelentíssimos é um recorte didático e arrastado dos bastidores do golpe, Democracia em Vertigem é um relato pessoal da diretora Petra Costa, que narra nossa crise política segundo sua própria experiência política.

Petra nasceu quase no mesmo ano que a abertura democrática. Votou pela primeira vez na primeira eleição de Lula, tem pais militantes muito próximos ao PT e à luta sindical, além de ser neta de um dos fundadores da construtora Andrade Gutierrez. Petra é privilegiada política, filmou de perto momentos cruciais dos últimos anos como o Impeachment e a prisão de Lula, além de entrevistas e depoimentos de todo tipo de gente imaginável. O olhar de Petra diante de um tempo tão truculento da história do país mostra-se similar ao que foi feito em seu primeiro longa-metragem, Elena (2012): um tema difícil tratado com delicadeza, de forma poética, visto da primeira pessoa.

São inesgotáveis as comparações entre a vida pessoal da diretora e os caminhos que o país foi seguindo, mas essas intervenções mais me parecem formas de romantizar a queda da democracia que acrescentar algo ao filme. Elena, ainda que tão vaidoso quanto Democracia em Vertigem, ainda tratava-se de uma história da família de Petra, mas aqui essa estrutura não resulta em nada positivo, apenas uma maneira de idealizar anos tão desagradáveis da história do Brasil e torná-las menos dolorosas, menosprezando os fortes relatos e imagens de Lula e Dilma, pontos fortes do filme.

Democracia em Vertigem reflete perfeitamente o olhar da burguesia intelectual incapaz de sentir-se povo, uma classe privilegiada que assistiu de camarote um desastre político e rouba o protagonismo daqueles que de fato sofrem as consequências da instabilidade política. Em certo momento do filme, Petra compara Lula a um artesão e o povo à argila, uma massa passiva incapaz de lutar sozinha sem a liderança dos poderosos e que, aos sensíveis olhos da diretora, é apenas uma massa uniforme que depende da elite. É uma massagem de ego sem tamanho, incapaz de criticar o lugar da esquerda, mesmo com tantas oportunidades e proximidade de Lula e Dilma. O que mais interessa Petra é construir uma poesia em cima dos fatos do que realmente dar novas perspectivas aos nossos tempos. 

A elite brasileira parece ter acordado tardiamente em meio uma crise e só agora, apressadamente, corre atrás de suas dívidas. Mas o que falta tanto em Democracia em Vertigem quanto em O Processo ou Excelentíssimos é uma maior proximidade à luta de verdade, com menos tomadas de drone e mais câmera na mão, filmagens em manifestações, ouvindo pessoas reais. Enquanto o cinema político for filmado de cima para baixo e com perspectivas narcisistas, pouco vai mudar.

Democracia em Vertigem (2019) – Brasil
Diretora: Petra Costa
Roteiro: Petra Costa
Duração: 113 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.