Crítica | Demolição

“Existia amor entre mim e Julia. Eu apenas não cuidei dele.”

Como compreender a narrativa que a nossa vida está contando, os sentimentos que estamos construindo e o enredo que é narrado, mesmo com a ausência de uma transparência na dissertação, no que vem do outro e não de nós mesmos – caso estivéssemos verdadeiramente a par das nossas emoções? As histórias que não chegaram a um fim, sem as redenções grandiosas, são mundanas demais para serem cinematográficas. O cinema retratado em Demolição é um cinema que propõe o desenvolvimento de um término, a exploração de uma conciliação argumentativa mediante, nesse caso, um relacionamento abruptamente interrompido e que, aparentemente, ficou por isso mesmo, sem saudades, sem mágoas, sem raivas, uma não-conclusão apenas inócua a qualquer coisa. O ator Jake Gyllenhaal – que menos de um ano antes conquistava o mundo com a sua performance em O Abutre – sabe transmitir a apatia monstruosa que acomete o seu personagem após a morte de sua esposa. O que foram as experiências anteriores do protagonista? Quais eram as emoções em jogo, os inúmeros pensamentos em cena?

O derradeiro colapso do protagonista é premeditado. Davis Mitchell está em um mar de sensações que se chocam – irrompe-se o que antes era um atraso preguiçoso de qualquer necessidade por respostas, necessidade por consertar os problemas, manejar os conflitos cotidianos. O relacionamento amoroso, em primeira instância, já caminhava por penas desajeitadas antes do acidente, mas o amanhã ainda existia. O jovem casal possuía todo o tempo do mundo para se resolver – status quo que será, mais tarde, subvertido narrativamente -, porém, com a morte inesperada da esposa do protagonista, o romance simplesmente não mais poderia continuar, enfim estragado para sempre. Quando as coisas não podem mais ser consertadas, as coisas devem ser destruídas, discursa Demolição, ao mesmo tempo que promove, com a compreensão do passado, um retorno aos graciosos momentos que continuam reais  – uma curiosa contraposição. A premissa é convincente, porque o argumento é muito do entristecido, coisa que o protagonista consegue expor com a sua insensibilidade aparente, mascarando um eu interno muito misterioso.

Jake Gyllenhall e o roteiro, devido o começo imensamente chocante do longa-metragem – pautado pelas expressões do artista e pela sugestão da direção -, movem-se por situações que tornam todos os contextos apresentados, desde um corredor médico a um cômodo de uma casa, extremamente mutáveis, com consequências impensáveis e transformáveis, nos insinuando a uma jornada que desesperadamente anseia o rompimento com as muradas que, antes, impediam uma noção consciente do que fora o presente – agora passado. A promoção disso ocorre através de uma inconvencional trajetória, por meio de novos conhecidos, sem rumos claros, mais confusa que competentemente absorvida pelo espectador comum. Os próximos passos ao primeiro impacto são, no entanto, menos previsíveis que os últimos, situando-se em uma envolvente esfera do que é estranho para o comportamento de um ser humano. Assim como é estranho não sentir a perda da sua esposa, também é curioso reclamar, por meio de uma carta estendida, o extravio de alguns dólares que ficaram presos em uma máquina de vendas. Daqui, a narrativa, portanto, se desenrola.

Já o discurso que encapsula o estudo do personagem, sob uma condução permeada por maneirismos, é muito caótico, tornando-se um gigantesco demérito acerca do que se configura a problemática narrativa de Demolição, pois encontra uma resolução – demasiadamente sentimentalista por sinal -, mas não um desenvolvimento suficiente e coerente a esse ponto cinematográfico, muito automático. O entendimento das propostas contidas na obra é realmente complicado. O diretor se sufoca na inércia recorrente do protagonista, paralelamente alongando o minimalismo sentimental, mas incompreendendo muitas mensagens que comporta nas suas imagens, como no puro relacionamento entre o protagonista e a personagem interpretada por Naomi Watts, que acaba se perdendo diante do arco estudado principalmente – Chris (Judah Lewis) é um parceiro igualmente carismático, como a sua mãe, porém embasado com mais coesão. O equivocado roteiro, ademais, rejeita a visão aguçada de Jean-Marc Vallée pela culpa do protagonista, transportando-a para a esposa – a mudança de status quo antes comentada por aqui.

Os muitos méritos permanecem, a começar por certas sequências que contrapõem o ex-marido com os pais da esposa morta, evidenciando essa presumida complexidade dramática que está sendo manuseada pelos responsáveis por Demolição – o cerne nada mais é do que uma inesperada perdição em oposição ao sentir costumeiramente compartilhado com a maior parte das pessoas. Uma pena que a argumentação, as construções e desconstruções, não sejam emergidas com menos pompa inconclusiva e mais objetividade cinematográfica. A ex-mulher é retomada por meio de alucinações que acabam sendo a exposição gratuita de uma obra que deveria expor mais. O som, por outro lado, é estudado, como um acerto próprio de uma área do cinema, durante diversos momentos do projeto, principalmente com o uso de música clássica para criar um pretexto enganoso de calmaria, que é especialmente extraordinário, contrapondo-se com a auto-destruição que acompanha o arco do protagonista, completamente perdido em qualquer um dos seus sentimentos, sem saber o que pensar, angustiado por não ter melodramado uma tragédia enorme.

Demolição está, assim como o seu protagonista, bastante perdido, o que não é necessariamente uma característica unicamente negativa, porque a perdição é inerente a uma vida conflituosa que nunca chegou a um fim verdadeiro, em que os problemas sumiram antes de poderem ser consertados – as coisas foram interrompidas por um acidente de carro, afinal. A geladeira continuou quebrada, os bilhetes permaneceram no mesmo lugar e a esposa continuou, para sempre, sem falar com a sua mãe. Gyllenhall representa o homem que precisa destruir tudo o que não possuiu resolução anteriormente para enfim seguir em frente, desmontando os equipamentos e compreendendo, ultimamente, onde que esteve a origem dos erros. A poesia conclusiva, portanto, existe na sua opção por retornar a um dos únicos momentos impecáveis de um relacionamento, como qualquer outro, imperfeito. O diretor não resiste, contudo, em encerrar o seu longa com imagens que expressam uma ordinarice. A corrida entre os pássaros a voarem, um símbolo da liberdade, é a obviedade, aqui gratuita e muito piegas, que Demolição sempre recusou.

Demolição (Demolition) – EUA, 2015
Direção: Jean-Marc Vallée
Roteiro: Bryan Sipe
Elenco: Jake Gyllenhaal, Naomi Watts, Chris Cooper, Judah Lewis, C.J. Wilson, Heather Lind, Polly Draper, Debra Monk, Wass Stevens, Blaire Brooks, Malachy Cleary, Ben Cole, Brendan Dooling, James Colby, Alfredo Narciso
Duração: 101 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.