Crítica | Demolidor: Amor e Guerra (Marvel Graphic Novel #24)

Entre 1982 e 1988, começando pela inesquecível A Morte do Capitão Marvel, a Marvel Comics publicou uma série de graphic novels em formato de revista comum (maior que o padrão americano para HQs) sob o singelo título Marvel Graphic Novel ou MGN, para os íntimos. Foi uma época de experimentações, com a editora arriscando tanto com personagens bem estabelecidos com histórias canônicas como as do Capitão Marvel, X-Men e Mulher-Hulk, assim como outros que começariam a ganhar destaque, como Dreadstar ou Legião Alien.

O Demolidor acabou ganhando uma história no referido formato, ainda que apenas na “segunda fase”, em que a numeração normal das MGNs já havia acabado (no #20). Por razões daquelas de rolar os olhos, a editora continuou o padrão, manteve o título, mas retirou a numeração, com o mercado (sempre o mercado se ajeitando!) acabando de cuidar para que todas as edições, até a derradeira, a 39ª, fossem lembradas como parte da coleção.

A dupla criativa do one-shot foi Frank Miller no roteiro e Bill Sienkiewicz na arte, na primeira colaboração dos dois e que, no mesmo ano, geraria a série limitada Elektra Assassina, em oito edições. Tanto Miller quanto Sienkiewicz estavam no auge de suas respectivas carreiras, com o primeiro tendo recém revolucionado o Demolidor em seu longevo comando da publicação mensal do herói, e prestes a começar a soltar nada menos do que Batman – O Cavaleiro das Trevas e o segundo tendo trabalhado em Cavaleiro da Lua e Quarteto Fantástico e na excelente fase logo anterior dos Novos Mutantes (grupo que, aliás, estreou justamente em uma MGN, a #4).

Como qualquer obra que contém a arte de Bill Sienkiewicz, é impossível não destacá-la imediatamente. Sua famosa pegada abstrata, quase surreal, foi uma pequena revolução nos quadrinhos ao longo da década de 80, com páginas que mereceriam ser destacadas, enquadradas e colocadas em um museu para apreciação geral. Usando diversas técnicas, como pintura a óleo, colagem e mimeografia, o artista pegou as convenções do gênero e virou de cabeça para baixo, abrindo a porta para futuras experimentações por outros criadores, ainda que não, arriscaria dizer, de maneira tão radical como ele fez. Entendo quem vire o nariz para o resultado final (mas essa pessoa está errada e, talvez, precise de tratamento, he, he, he…), mas eu simplesmente adoro a estética de Sienkiewicz.

Ah, essa arte maravilhosa…

Em Amor e Guerra, ele transforma o Demônio da Cozinha do Inferno muitas vezes em um borrão vermelho e o vilão primário, o drogado e enlouquecido Victor, contratado pelo Rei do Crime para sequestrar Cheryl Mondat, a esposa cega de um psiquiatra de renome, é uma versão humanoide de uma ratazana. Mais famosamente ainda, o próprio Wilson Fisk ganha tratamento extremo, com a arte literalmente transformando-o em um gigantesca “bola” de colete florido. Os Mondats ganham uma aura onírica, com todos os detalhes de fundo estabelecendo um universo próprio e belíssimo. Sem dúvida é uma MGN que merece ser vista e revista somente por sua magnífica arte.

E digo isso porque a história de Miller não é a mais inspirada, ficando distante do equilíbrio perfeito entre forma e substância que vemos em outro clássico oitentista, Wolverine & Destrutor: Fusão. No roteiro, ele materializa o ditado que diz que “vale tudo na guerra e no amor”, colocando Fisk como o manipulador de ato hediondo para forçar o psiquiatra a tratar de sua amada Vanessa, que não se comunica mais com ninguém, mas já fora da catatonia completa. Há uma morbidez na razão que Fisk dá para não simplesmente contratar Paul Mondat: ele quer o psiquiatra fervorosamente dedicado à Vanessa e o sequestro de Cheryl serve como um estímulo. Mas há psicopatia também do lado de Victor, o sequestrador de encomenda, com Miller emprestando-lhe uma personalidade completamente descolada da realidade, violento e também apaixonado, ainda que ele mesmo não saiba exatamente por quem. Nesse aspecto psicológico, a narrativa anda muito bem, dando espaço para a arte “de sonho” de Sienkiewicz desabrochar juntamente com o belíssimo trabalho de Jim Novak na inserção da narração e diálogos.

Mas o desenrolar da ação é anticlimático, diria até que um pouco frustrante. Praticamente tudo acontece apesar do Demolidor e o pareamento dele com Cheryl parece-me gratuito, já que a cegueira dela não ganha uma explicação orgânica (não falo do porquê ela é cega dentro da história, mas por que era necessário que ela fosse cega para fins narrativos). É verdade que o embate psicológico que se dá em diversas frentes, inclusive – e especialmente – entre Fisk e Mondat, é o razão de ser da graphic novel, mas o encerramento é brusco, quase off page e até um pouco confuso.

De toda forma, a guerra entre forma e substância é tão facilmente vencida pela forma que, devo confessar, a substância acaba ficando em 2º ou 3º plano. E não é que o roteiro, aqui, seja ruim. Longe (bem longe) disso, sendo apenas, para mim, insatisfatório, algo incomum para o Frank Miller da época. Amor e Guerra é, definitivamente e acima de tudo, um primor artístico que merece ser apreciado como apreciamos arte em uma galeria.

Demolidor: Amor e Guerra (Daredevil: Love and War, EUA – 1986)
Roteiro: Frank Miller
Arte: Bill Sienkiewicz
Letras: Jim Novak
Editoria: Allen Milgrom (Al Milgrom), Jim Shooter
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: janeiro de 1986
Editoras no Brasil: Editora Abril, Panini Comics
Data de publicação no Brasil: 1988 (abril), novembro de 2018 (Panini)
Páginas: 65

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.