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Crítica | Demon Slayer (Kimetsu no Yaiba) – 1ª Temporada

por Kevin Rick
1260 views (a partir de agosto de 2020)

Mensurar a popularidade de um anime tornou-se uma tarefa hercúlea nos últimos anos, principalmente pela quantidade absurda de sucessos lançados anualmente (apesar de 2020 ter sido meio fraquinho nesse quesito). Claro que existem as séries clássicas que continuam fazendo sucesso como One Piece, a recém terminada Naruto, Dragon Ball, e também temos sucessos explosivos da década como One-Punch Man, Attack on Titan, My Hero Academia, entre vários outros. Mas nenhum desses exemplos realmente chegam perto de nos fazer entender a repercussão insana e repentina de Demon Slayer, tanto o anime, quanto o mangá, o primeiro a superar One Piece em vendas brutas anuais no Japão em algum tempo, fazendo a obra de Eiichiro Oda comer poeira entre o primeiro e segundo lugar nos últimos meses. Até mesmo o povo japonês, conhecido por sua disciplina, saíram em batalhões durante a pandemia para comprar os volumes finais da obra criada por Koyoharu Gotōge e para assistir o filme, que também é uma continuação direta desta 1ª Temporada, Demon Slayer: Mugen Train. Então, qual é o motivo de tanto fascínio com o anime? Bem, acredito que grande parte da atração da obra encontra-se na belíssima conexão sentimental que Gotōge construiu, e que o estúdio Ufotable elevou consideravelmente.

A narrativa da série é bem objetiva e não retarda a elaboração da trama principal. O primeiro episódio situa a audiência de maneira nítida na meta do protagonista Tanjiro Kamado, que após uma tragédia familiar, se encontra numa posição de culpa e propósito de salvar Nezuko Kamado, sua irmã mais nova, que se transformou em um demônio. Esse primeiro “arco” é construído dentro do choque visual e abalo emocional dos irmãos, especialmente Tanjiro, mais ciente da situação do que Nezuko, aparentemente alheia aos acontecimentos, num estado mais animalesco e instintivo do que racional. E, como disse, o roteiro de Gotōge é extremamente franco na sua finalidade, utilizando vários diálogos informacionais para o protagonista sobre o lado fantástico e obscuro desse Universo, sem muitos rodeios com o público na construção de mundo, antagonistas e jornada. Claro que existem mistérios, mas o anime sustenta uma narrativa simplória, baseada no relacionamento fraternal e na busca pela cura da mutação demoníaca.

Já indo na contramão da maioria do público, que parece se enamorar mais com o anime posteriormente, principalmente após o episódio 19, eu gosto mais dos capítulos iniciais, em que Tanjiro inicia seu treinamento com Urokodaki para exercer a profissão de exterminador de demônios, justamente por trabalharem melhor a atmosfera sentimental e de empatia da irmandade que são o núcleo do tratamento emocional do roteiro. A busca pela humanização, através do árduo esforço mediante momentos que deveriam ser de luto, nesta composição de amor trágico de Tanjiro, Nezuko, e também de Urokodaki, criam essa ambientação melancólica e taciturnamente esperançosa que é onde a obra brilha mais fortemente de modo afetivo. Essa toada emocional é complementada com um estudo breve da arte samurai misturada com um clima espiritual, somado à trilha sonora clássica, amena nos processos de aprendizagem e contemplação, arrebatadora nos planos de ação, recheando essa ambientação de Japão Feudal da série, que casa de maneira extraordinária com o caminho espinhoso, mas otimista do trio. O fechamento desse prólogo espetacular, na cena dos três personagens se abraçando, resume muito bem o cerne esmorecido, porém persistente de Demon Slayer.

Com a “base” da obra estabelecida, imaginei que os eventos seguintes manteriam o estilo narrativo exposto, mas me decepcionei com certas escolhas da estrutura e arcos dos antagonistas. O anime adere um arranjo de “demônio da semana”, com Tanjiro e Nezuko viajando através do país em busca de respostas e proteção de famílias como a dele. Essa nova armação com aventuras contidas é presumível, como preparação para as habilidades do protagonista na vindoura batalha com Muzan, o clichê de boss final, e também rapidamente construindo a realidade deste universo para o espectador. A dificuldade, aqui, é o completo esquecimento do contexto emocional bem trabalhado, adentrando uma vertente de sentimentalismo barato, apelando para o sofrimento de outros personagens com flashbacks de dez segundos a todo momento. A atmosfera tão bela da obra vai perdendo sua essência, exagerando para o choro, forçando conexões com o público que não existem, e até mesmo esporadicamente parando de trabalhar o relacionamento dos irmãos, com Nezuko lentamente assumindo um papel de background.

Durante essas missões, dois integrantes do elenco principal são inseridos, o covarde Zenitsu e o esquentado Inosuke. Antes de tudo, é preciso pontuar como a série sempre tentou assumir uma veia cômica nos momentos de “respiro” da dramaticidade, e, felizmente, a transição é muito bem feita, com a inserção de Inosuke corroborando essa comicidade do anime, tendo um ótimo contraste com Tanjiro, e terminando por ter um interessante arco pessoal. Sobra, então, Zenitsu… Olha, poucas vezes um personagem de anime me fez querer desistir de continuar assistindo uma obra, e a covardia não é o problema, até porque, quando realizada corretamente – Usopp, de One Piece, e, em menor medida, Leorio, de Hunter × Hunter, vem à mente -, é um artifício intrigante para a personalidade de um personagem, mas, infelizmente, apesar da ótima caracterização, e alguns momentos fenomenais de batalha, Zenitsu talvez toma a coroa de personagem mais irritante de um anime que já tenha assistido. Espero sinceramente que sua evolução tome novos ares, mas sua apresentação diminui demasiadamente a qualidade da dinâmica do elenco principal. Ele até mesmo “cai” naquele grupo odioso de membros de animes usados como recipiente do discurso machista e objetificação das mulheres, algo, tristemente, tão comum no gênero.

Não me entendam mal, ainda gosto do esquema aventureiro e a compaixão de Tanjiro como tema principal dessas batalhas, mas existe um drástico desvio contextual do roteiro, ou, até diria, uma perda de aprofundamento da emoção que Gotōge tão desesperadamente quer retirar em forma de lágrimas da audiência. Felizmente, o estúdio da série, Ufotable, não apenas translitera o mangá, e decide adicionar melhorias às sequências de ação, aprimorando a experiência repetitiva do miolo da série. Obviamente que a Nona Arte tem suas limitações, mas uma olhada no trabalho artístico de Gotōge já é capaz de exibir dificuldades da mangaká no dinamismo de cenas de combate, com quadros básicos e pouco imaginativos. A criatividade para o sistema de poderes e a premissa da batalha está lá, mas lhe falta talento na demonstração de tais eventos, e nesse quesito o estúdio japonês tem competência de sobra.

O contraste de pano de fundo 3D com efeitos digitais e a caracterização 2D dos personagens, é de uma beleza animada fenomenal. Raramente senti as emoções tão bem transpostas nos rostos e linguagem corporal dos personagens como aqui. Além de que, o equilíbrio de tais elementos com a velocidade, impacto e atmosfera da série, são praticamente perfeitos. A cereja no bolo são as batalhas, com enquadramentos giratórios que nunca ficam estranhos com o 3D no background e os personagens em movimento, tornando-se ainda mais estonteantes quando somados à combinação de desenhos à mão, que até lembram pinturas, dos ataques aquáticos – e outros formas de poder também – provenientes do sistema de poderes interessantíssimo da série. Não é minha animação tecnicamente favorita – esse troféu pertence à Mob Psycho -, mas definitivamente é um marco dessa forma de arte na história dos animes, especialmente pela junção da qualidade técnica com a história.

Por fim, após o episódico processo de vilão semanal, retornamos a uma composição que lembra o início da série, intrinsecamente ligada a conexão de Nezuko e Tanjiro, no palco mais importante da obra até o momento, com a apresentação de uma classe de personagens incrivelmente bem caracterizados e extremamente curiosos dentro da trama dos irmãos.  Acredito que o início e o final de Demon Slayer estão entre as melhores construções de atmosfera e estudo de personagem no gênero Shounen, divergindo do sonho ambicioso clichê que normalmente vemos, apresentando uma obra mais intimista, acompanhada por uma conquista técnica incrível, mas que, infelizmente, sofre no meio de sua jornada com muita repetição e sentimentalismo excessivo e superficial. De qualquer forma, a obra já está eternizada como um marco de animação japonesa, e, apesar dos problemas, sua 1ª Temporada é uma viagem visual impressionante, composta por uma narrativa extremamente emocionante em torno do laço familiar dos irmãos Kamado.

Demon Slayer (Kimetsu no Yaiba, 鬼滅の刃) – 1ª Temporada | Japão, 2019
Criado por: Koyoharu Gotōge
Direção: Haruo Sotozaki, Shûji Miyahara, Shin’ya Shimomura, Yûki Itô, Takuya Nonaka, Takashi Suhara, Ken Takahashi, Masashi Takeuchi, Akihiko Uda, Shinsuke Gomi, Hideki Hosokawa, Takahiro Majima, Jun’ichi Minamino, Yusuke Shibata
Roteiro: Koyoharu Gotōge, Ufotable
Elenco:  Natsuki Hanae, Aleks Le, Akari Kitô, Hiro Shimono, Yoshitsugu Matsuoka, Takahiro Sakurai, Saori Hayami, Takumi Yamazaki, Hôchu Ôtsuka, Manaka Iwami, Koki Uchiyama, Yuusuke Tonozaki, Yoshiaki Hasegawa, Khoi Dao, Toshiyuki Morikawa, Toshihiko Seki, Riho Sugiyama, Hisako Tojo, Kôki Miyata, Mitsuhiro Ichiki, Miho Okasaki, Yuri Ehara, Makoto Furukawa, Nanamami Yamashita
Duração: 601 min. (26 episódios)

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