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Crítica | Demon Slayer – Mugen Train: O Filme

por Kevin Rick
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Eu realmente não consigo entender o sucesso de Demon Slayer, não apenas em termos de público e vendas, pois sempre temos obras com qualidades questionáveis que fazem imenso sucesso por aí, mas também pela maneira como tem sido rotulado qualitativamente, uma espécie de clássico moderno Shounen. Não chego a achar o filme de todo ruim, e acho a primeira temporada razoavelmente positiva, especialmente em sua primeira metade, mas bem aquém das expectativas que eu mesmo impus. Analisando a obra para além das conquistas técnicas, não vejo nenhuma substância que eleve a narrativa, os personagens e o Universo de Koyoharu Gotōge para o campo da excelência, bem longe disso na verdade.

Demon Slayer – Mugen Train: O Filme é uma continuação direta da primeira temporada, e coloca nosso quarteto de Tanjiro, Inosuke, Nezuko e Zenitsu em uma missão para eliminar a possível ameaça demoníaca que tem assolado um trem, sendo liderados pelo pilar Kyoujurou Rengoku. E eu gosto dessa premissa, pois passa uma ideia de trama contida, até ordinária, que, estruturalmente falando, eu adoro em animes de longa duração. A cadência narrativa de diferentes arcos assumindo uma aventura específica, enquanto move a história geral, é, na minha opinião, um dos maiores atrativos em Shounens, pois abre espaço para construção de mundo, mitologia e toda a criatividade sensacional de mangakás.

E os problemas de Demon Slayer – Mugen Train: O Filme começam exatamente na aventura do trem, pois, e já partindo do pressuposto que grande parte das pessoas que estão lendo esta crítica assistiram e possivelmente gostaram da animação, qual sequência no trem te impressionou? A arte continua linda, e a inserção dos desenhos a mão, bem aquarela, nos combates, continua sendo deslumbrante, mas não existe fluidez ou inventividade na direção de Haruo Sotozaki, que preza enfadonhamente pelo slow-motion ou por cenas “épicas” a todo momento, não havendo um cuidado técnico na construção da ação. Se lembram do episódio na casa que movia? Ou então da luta contra o demônio de “Temari” e o da “Flecha”, no qual a direção continuamente manipulava orientações? Isso não existe aqui, numa construção genérica do combate, no qual vemos shots objetivos, como personagens atravessando o trem e cortando tentáculos que não passam um pingo de periculosidade – o CGI não me agradou nem um pouco, aliás – ou então planos abertos que querem ser grandiosos, mas são apenas estáticos e exagerados. E esse incômodo com a direção de Haruo é mantido no clímax com Rengoku, onde o diretor preza novamente pelo slow-motion, e pausa a batalha a todo momento para trazer um discurso moral raso, artifício comum em animes, muitas vezes para mascarar a animação, mas que não faz sentido algum em uma obra deste escopo.

Novamente, a estética continua um negócio maravilhoso de assistir, mas não existe uma gota de criatividade na composição das lutas e da aventura contida em si, em uma abordagem, digamos, excessiva e sem um cuidado minucioso. E essa é a mesma crítica que levo a maneira como o roteiro constrói a dramaturgia, fazendo uma conexão com a minha experiência com a primeira temporada, sobre como Demon Slayer é poderoso na contemplação e na quietude, mas peca enormemente na super exposição, um sentimentalismo de revirar os olhos. E Shounens são, em sua grande maioria, super expositivos, mas, veja bem, eles normalmente partem de um exagero em relação à infantilidade (Luffy, Naruto, Goku), só que Koyoharu oferece um contexto maduro ao seu Universo, o que não abre espaço para esse tipo de descomedimento pueril, sendo que o Tanjiro mesmo não se enquadra na personalidade clássica de Shounens, tornando seus diálogos de justiça e humanidade um tanto cafonas.

Considerando que falei majoritariamente dos pontos negativos, é de se imaginar que a nota regular não faz sentido. Mas, pera lá, eu falei que Demon Slayer é poderoso na amenidade, certo? As sequências oníricas assumem esse papel brando – com exceção dos alívios cômicos -, e aqui o filme funciona, e funciona muitíssimo bem! Existe uma pegada espiritual mesclada com moralidade, ou humanidade seria a melhor palavra, onde a narrativa busca a emoção, principalmente com o trauma, com uma suavidade e doçura que conseguem evocar o sentimento de uma perspectiva mais realista e comovente mesmo, sem gritar a todo momento o que a audiência deveria estar sentindo. Ademais, essa boa construção serena, quando levada com esmero, casa muito bem com o conflito entre o humano e o demoníaco, tão caro na animação.

E isso me enerva, pois demonstra que existe a qualidade narrativa para propor uma história que, se não foge dos clichês de Shounens – e não tem problema nisso! -, trazem eles para o campo da tranquilidade espiritual, cheia de discussões humanas e morais nas entrelinhas do que não é falado, mas, infelizmente, é uma proposta diluída no contexto genérico, exagerado e totalmente cafona, ainda sofrendo da péssima construção aventureira. Veja lá, não é de todo ruim, e eu realmente acho que tem potencial para ser um Universo especial, mas certamente não enxergo Demon Slayer como este expoente de excelência do gênero.

Demon Slayer – Mugen Train: O Filme (Kimetsu no Yaiba Mugen Ressha-hen, 劇場版「鬼滅の刃」 無限列車編) – Japão, 13 de maio de 2021
Criado por: Koyoharu Gotōge
Direção: Haruo Sotozaki
Roteiro: Koyoharu Gotōge, Ufotable
Elenco:  Natsuki Hanae, Akari Kitô, Hiro Shimono, Yoshitsugu Matsuoka, Takahiro Sakurai, Saori Hayami,Satoshi Hino, Takahiro Sakurai, Katsuyuki Konishi, Saori Hayami, Kenichi Suzumura, Tomokazu Seki, Tomokazu Sugita, Toshiyuki Morikawa, Shin’ichirô Miki, HoukoKuwashima
Duração: 117 min.

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