Crítica | Demônio Azul

No segmento dos filmes de tubarões, como sabemos, há o clássico, dirigido com maestria por Steven Spielberg, cineasta com pompa, fôlego, inteligência e bom financiamento. Depois, há os que seguem a sua escola, produções acima muito acima da média com elenco pomposo e tramas bem conduzidas, como é o caso de Águas Rasas, Medo Profundo e Do Fundo do Mar. Adiante, a coisa não é muito boa, numa variação do ruim ao “terrivelmente horrível”. Demônio Azul segue este ritmo, produção tão bizarra que serva apenas para atiçar a nossa curiosidade pelo cinematograficamente tosco, execrável, útil apenas para catalogar o faro de quem curte uma cinefilia investigativa, afinal, criticar sem conhecer é uma das coisas mais comuns em nosso campo crítico cheio de achismos, suposições e reflexões superficiais.

Sob a direção de Daniel Grodnik, também responsável pelo roteiro, escrito em parceria com Brett Thompson, Lisa Morton e Ron Olivier, Demônio Azul retrata a trajetória do casal Nathan (Randall Batinkoff) e Marla Collins (Dedee Pfeiffer), idealizadores do projeto que leva o nome do filme. Esse é o único elo desejável entre ambos, já que o pedido de divórcio já foi expedido e precisa apenas de assinaturas e ajustes. O projeto desenvolvido envolve a implantação de chips de computador no cérebro de seus tubarões, tendo como justificativa a proteção dos Estados Unidos. Um corte no orçamento, entretanto, estabelece uma série de problemas, dentre eles, a renderização indevida da cerca elétrica que contém os tubarões em cativeiro. Diante da situação, as criaturas escapam e ataca um grupo de jovens que nada em um lago natural numa região relativamente próxima do local.

Elas agem como toda garota de irmandade estúpida dos filmes ruins estadunidenses, isto é, desafiam umas às outras, alegando que entrar na água é uma demonstração de coragem, etc. Ainda não há o alerta oficial, mas ainda assim, a situação envolve diálogos vergonhosos seguidos de posturas estúpidas. O resultado é que além do susto, um dos incautos se torna comida de tubarão. Insatisfeito com os desdobramentos midiáticos da situação, o General Remora (Jeff Fahey) decide tentar ajuda na resolução dos danos. Dois mergulhadores são intimados para contenção dos tubarões, mas são destroçados.

A guarda costeira, inerte, age semelhante ao governo brasileiro de 2019, diante das manchas de “óleo” que tomaram parte do nosso litoral, num esquema de destruição sem precedentes. A desconfiança de um ataque terrorista logo abre espaço para as certezas, já que logo saberemos que o próprio general criou um programa de segurança para o país que não obedeceu determinadas regras com as espécies estudadas em laboratório. Com ajuda de Avery Dashlow (Josh Hammond), aparentemente mocinho, mas apresentado como bandido ao longo do desenvolvimento dos conflitos, a autoridade comandou o processo de turbinagem de Red Dog, o tubarão mais problemático da narrativa, preenchido com plutônio. Já pensou na destruição? O casal, sem tempo para assinar o divórcio, precisa lutar contra os bandidos e salvar a nação.

Os irritantes banhistas da região recebem o aviso para não adentrar na água, sob a pena de sofrer ataques inesperados. Adivinha? Poucos dão ouvidos e os problemas começam a se multiplicar. Com garra e bastante empenho, o espectador pode conseguir chegar ao final para ver o casal desistir do divórcio, conter o tubarão maldito, ver os bandidos devidamente mortos, sem chance de correção, tal como rege a cartilha das “pessoas de bem americanas”. Acompanhados pela condução sonora de Christopher Farrel, os personagens são captados pela direção de fotografia de Pat Williams, circundantes pelos espaços cênicos do design de produção de Reuben Freed, profissionais que pouco podem fazer diante de uma narrativa tão cretina.

Ao longo de seus 91 minutos, Demônio Azul, lançado em 2004, faz parte do grupo de filmes sobre tubarões aparentemente não se preocupam com as suas qualidades estéticas e contextuais. Os diálogos são apáticos, os personagens planos como uma tábua, a direção é mecânica, os efeitos visuais da equipe de Steven M. Blasini não conseguem entregar animais críveis, tampouco a trilha sonora sem qualquer impacto ou criatividade.

Demônio Azul (Blue Demon/Estados Unidos, 2004)
Direção: Daniel Grodnik
Roteiro: Daniel Grodnik, Brett Thompson, Lisa Morton, Ron Olivier
Elenco: Dedee Pfeiffer, Randall Batinkoff, Josh Hammond, Jeff Fahey, Christine Lakin, Jeff Fahey, Rachel Grodnik, Whitney Sloan, Cricket Selna
Duração: 91 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.