Home FilmesCríticas Crítica | Demônio de Neon

Crítica | Demônio de Neon

por Guilherme Coral
467 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4

O quão importante é a beleza? Ao longo dos séculos, seus padrões foram sendo alterados, chegando até o ponto no qual qualquer sinônimo de gordura é rechaçado com veemência e radicalismo. Mais recentemente, estamos vendo uma retomada dos “antigos” padrões, mas tudo ainda gira em torno de uma beleza top model pura e simplesmente e claro que não me refiro à interior, mas sim unicamente à exterior. Uma hipocrisia generalizada que faz as pessoas indicarem que ela não importa, o que vale é a personalidade, quando, de fato, estão mergulhadas no preconceito de tal forma que não percebem, ora julgando os outros, ora a si próprios, mascarando a necessidade de ser belo com uma ânsia por ser fitness e viver uma vida em tese saudável.

Agora, se o mundo no qual vivemos já traz esse tipo de comportamento, como seria o mundo da moda, no qual as modelos precisam extinguir sua própria individualidade a fim de se tornar uma estátua móvel, esculpida pelo olhar dos outros e julgada, acima de tudo, por elas próprias? Possivelmente a mesma coisa que temos em nosso dia-a-dia, mas multiplicado de forma a levar qualquer um à loucura. Evidente que isso não ocorre somente no mundo feminino, mas o foco da obra de Nicolas Winding Refn, Demônio de Neon, é a mulher, especificamente aquela que enxerga em si própria somente a beleza externa e vê nessa característica a única forma de conseguir sobreviver.

A trama gira em torno de Jesse (Elle Fanning) uma jovem modelo iniciante, que tem rápida ascensão em virtude de sua beleza natural. O filme aborda as mudanças psicológicas da protagonista e dos personagens que a envolvem e como o sucesso de uma pode significar o fracasso de outra, levando a um ambiente hostil e competitivo que transforma as pessoas em verdadeiros demônios, desejando, acima de tudo, serem vistas como deusas pela indústria da moda que constantemente as descarta como se fossem meros objetos.

O plano inicial, com Jesse deitada ensanguentada no sofá, muito bem define o tom da obra. Ele simboliza o foco das personagens aqui presentes e já anuncia o grau de loucura que chegaremos ao término da projeção. A luz clara, lentamente sucumbindo para o escuro iluminado pelo neon azul reflete perfeitamente a derrocada da personagem, que inicia como uma inocente garota buscando seu lugar no mundo e se transforma em um retrato do narcisismo – de fato, a coloração utilizada, o azul, busca simbolizar isso, como vemos posteriormente no primeiro desfile da personagem, que, lentamente, passa a se apaixonar por ela própria.

Cuidadosamente, Refn e sua equipe de fotografia, inserem a sensação de perigo no espectador. O vermelho anuncia isso e podemos percebê-lo sempre que algo sombrio está para acontecer – quanto maior a intensidade, maior o perigo e o uso do neon, ironicamente mais parcimonioso que em seu longa anterior, Só Deus Perdoa, reitera esses momentos, garantindo a eles uma maior potência e um nítido desconforto em quem assiste ao filme. Não podemos deixar de ser incomodados medo ao pressentirmos o que acontecerá, mesmo que, momentos atrás, tenhamos visto uma cena que em nada nos prepara para o que está por vir: esse é o poder da fotografia de Natasha Braier aliada à direção de Nicolas.

O roteiro ainda prefere trabalhar com poucos personagens e faz de cada um deles a perfeita metáfora dentro da temática da obra. O namorado/caso da protagonista funciona como nosso representante nesse mundo; ele é quem está dentro e fora ao mesmo tempo, resgatando a sanidade até certo ponto e desaparecendo quando chegamos ao ponto sem retorno. O dono do motel, vivido por Keanu Reeves, simboliza o predador sexual, o perigo que toda mulher corre somente por ter nascido do sexo feminino. As duas modelos com inveja de Jesse, por sua vez, representam a beleza externa e a artificialmente criada, dois elementos intrinsecamente ligados à indústria em questão. Ruby, por sua vez, interpretada por Jena Malone é quem busca a beleza interior, a pureza, muito bem representado por um momento de violência no trecho final da obra. O mais interessante, porém, é como cada uma dessas personagens também representa um aspecto da personalidade da protagonista e não é por acaso que cada uma delas se distorce conforme Jesse passa por sua gradual metamorfose.

Toda essa construção imagética garante uma nítida profundidade à obra. Não é um filme fácil de ser assistido e certamente nos deixa como se estivéssemos diante de uma narrativa de terror: sabemos que algo muito ruim acontecerá, mas não sabemos o que e constantemente lembramos da sequência inicial, que funciona como uma premonição ou um mau agouro da personagem principal, criando até mesmo uma sensação cíclica, conforme vemos a projeção ser desenvolvida diante de nossos olhos.

A obra, porém, comete um deslize nos seus minutos finais, criando uma evidente quebra de imersão. Ela prolonga seu desfecho exageradamente, ainda que pudesse ter sido encerrada minutos antes na ocasião perfeita. Não é o suficiente para estragar o longa-metragem, naturalmente, mas não podemos deixar de sentir um certo desgosto por esse epílogo desnecessário.

Com Demônio de Neon, Nicolas Winding Refn nos traz uma abordagem perturbadora da moda e tudo que ela envolve, criando um questionamento interno no espectador, que passa a indagar se todo esse apreço pela beleza é realmente necessário, pois saudável todos sabemos que não é. Mas e se tudo girar em torno justamente dessa característica? Será que vale a pena nos transformarmos, julgarmos e enlouquecermos por isso? Terminamos a projeção com essa dúvida na cabeça e, se deixarmos a hipocrisia de lado, a resposta certamente não virá tão facilmente assim.

Demônio de Neon (The Neon Demon) — França/Dinamarca/ EUA, 2016
Direção:
 Nicolas Winding Refn
Roteiro: Nicolas Winding Refn, Mary Laws, Polly Stenham
Elenco: Elle Fanning, Christina Hendricks, Keanu Reeves, Karl Glusman, Jena Malone, Bella Heathcote, Abbey Lee,  Desmond Harrington
Duração: 118 min.

Você Também pode curtir

7 comentários

Alessandro 26 de agosto de 2018 - 18:54

Assisti ontem e tive uma impressão muito negativa deste filme. Para mim, ele não passa de um exercício de estética vazio e descartável. Se Nicolas Winding Refn queria somente criticar a futilidade e a superficialidade do mundo da moda, ele conseguiu. Por outro lado, se Winding Refn quis fazer um filme instigante e diferente dentro do chamado cinema de gênero, acho que ele “quebrou a cara”.- isso se justifica pelo seu enorme fracasso nos USA, assim como o grande número de comentários e resenhas negativas sobre essa produção.
“Demônio de Neon” é vítima de seu principal atrativo. O filme se resume somente ao aspecto visual impactante e quase nada de conteúdo. Tudo é muito bonito, mas é uma beleza vazia. Da escolha de cores frias e quentes da fotografia, dos cenários aos enquadramentos, o filme tem forte apelo estético. Neste aspecto, ele lembra muito o clássico do terror/horror “Suspiria”, mas as semelhanças entre os dois filmes param por aí.
Não há uma trama em “Demônio de Neon”; somente um amontoado de situações, grande parte do tempo, muito banais, envolvendo a protagonista (Ellen Flanning, que é linda, mas cuja atuação se resume somente a caras e bocas). Nem mesmo o cotidiano caótico e narcista da modelos,- que poderia proporcionar situações inusitadas e interessantes-, apresenta traços de originalidade. O filme somente reproduz e copia velhos clichês sobre as vicissitudes do mundo da moda, inúmeras vezes mostrados com muito mais ousadia no cinema.
“Demônio de Neon” tem um ritmo muito lento – põe lentidão nisso! e cenas bizarras com toques surrealistas, que me escapam totalmente à compreensão – eu não entendi as aparições de um misterioso triângulo cor de rosa. O que é aquilo? A representação gráfica de uma entidade sobrenatural, que “explica” seu misterioso título, uma referência ao mito de Fausto,em versão new age?
Talvez, eu tivesse relevado todos estes defeitos, se não fosse seu final estúpido e brutal. Depois de passar quase duas horas em que nada de extraordinário aconteça, o filme dá uma reviravolta inesperada, abrupta e ao meu ver totalmente inverossímil.
Neste trecho, o diretor não soube criar uma eficiente atmosfera de terror, algo primordial para sustentar esse tipo de produção. Além dos eventos ocorrem de forma muito rápida, de maneira exagerada, ele acrescenta pinceladas desnecessárias de gore no desfecho do filme – para mim, Winding Refn faz um mau uso dos elementos de horror e tudo que senti foi somente uma profunda repulsa.
Se Winding Refn viu filmes de Dario Argento e outros diretores que fizeram escola no cinema fantástico, ele com certeza somente aprendeu com Argento, assim como o mestre deste, o “maestro” Mario Bava a fazer uma palheta de cores muito bonita, no que se refere á fotografia do filme, que chama muito a atenção. Para completar esse quadro dantesco e pavoroso, temos uma cena dispensável e grotesca protagonizada por Jenna Malone que, depois desse filme não tenho certeza se continua seguindo carreira de atriz. Ela com certeza deixou de ser a garota doce de “Donnie Darko”, de forma radical, o que pode ter causado danos irreparáveis à sua imagem.
Em suma, achei o filme um equívoco em todos os sentidos e demonstra que tem muito hype em cima do diretor, que somente se preocupou com a estética e se esqueceu do que é realmente necessário em qualquer obra cinematográfica: narrar uma história. Seu filme mais se parece um ensaio de moda pretensioso feito para chocar o espectador, mas que somente poderá provocar neste um misto de profundo tédio e repulsa.

Responder
jv bcb 19 de novembro de 2017 - 03:28

Filme muito pretensioso, as críticas ao mundo da moda já foram feitas um milhão de vezes, as metáforas são óbvias, o roteiro do filme não desenvolve nada e a forma como o mundo da moda é retratado é unidimensional, estereotipado e maniqueísta, o que tira ainda mais a força da mensagem previsível e óbvia que o filme quer passar. O ritmo lento só ta ali para tornar o filme em um longa metragem, pois a história dá para no máximo um filme de uma hora de duração.
A única coisa que salva no filme são as atuações e a fotografia, que é primorosa, cada enquadramento parece ser milimetricamente planejado e fabricado, assim como a beleza de suas personagens, logo temos um filme artificialmente bonito, gerando assim uma rima narrativa.
Porém a estética não é o suficiente para salvar a obra, que no final das contas é tão vazia quanto o universo que tanto critica.

Responder
FabioRT 12 de novembro de 2017 - 14:07

Que filme maluco !! Até me pareceu na verdade um filme de Bruxas ou Vampiros metamorfoseado em filme de moda rs rs rs. Eu gostei…creio que será cultuado no futuro. Achei muito injustas as vaias e o massacre que recebeu nos festivais.

Responder
Huckleberry Hound 30 de setembro de 2016 - 17:51

O final desse filme foi meio WTF mas eu gostei e o Keanu Reeves apareceu pouco nesse filme…

Responder
Huckleberry Hound 30 de setembro de 2016 - 17:51

O final desse filme foi meio WTF mas eu gostei e o Keanu Reeves apareceu pouco nesse filme…

Responder
Kevin Rick 30 de setembro de 2016 - 00:14

Eu gostei do filme. Não é uma obra-prima, porém não é ruim ao ponto do público de Cannes (Ou seria Sundance?) vaiar o filme de pé.

Tanto a crítica ao padrão de beleza estabelecido pela sociedade atual quanto a imersão do filme são ótimos, do meu ponto de vista. Eu só não achei a história exatamente interessante. Não sei se essa é palavra certa para descrever o que senti, mas é a mais próxima que encontrei. Em certos momentos, achei o filme até mesmo entendiante.

Eu acho que o filme teria sido melhor se tivesse sido mais parecido com o que Charlie Brooker faz em Black Mirror, que é esse enredo completamente bizarro com a crítica a tecnologia imersa dentro da história e não tão estampada como acontece aqui.

Mas definitivamente faz a gente pensar. Tanto na sociedade como um todo quanto no indivíduo próprio. Meu primeiro sentimento no desenrolar do filme foi meio que desgosto com o que a sociedade estabelece como beleza padrão e todo essa fixação em ser bonito ou perfeito. Porém mais para o final eu me senti um hipócrita para falar a verdade. Pelo fato de estar indignado com oque a sociedade impõe mas por outro lado é algo que eu mesmo faço no dia-a-dia. Seja comigo mesmo, tentando ter um corpo malhado por me achar magro, ou por estar sempre preocupado com meu corte de cabelo, minha barba, minha roupa, etc… E isso vem acompanhado da preocupação da opinião da sociedade sobre minha atual aparência. Ou seja com pessoas a minha volta ou da mídia, sempre criticando ou elogiando se tal pessoa emagreceu ou engordou, ou se se veste melhor ou pior…

E quando o filme te faz pensar nisso, é bom. Pelo menos para mim foi.

Responder
Kevin Rick 30 de setembro de 2016 - 00:14

Eu gostei do filme. Não é uma obra-prima, porém não é ruim ao ponto do público de Cannes (Ou seria Sundance?) vaiar o filme de pé.

Tanto a crítica ao padrão de beleza estabelecido pela sociedade atual quanto a imersão do filme são ótimos, do meu ponto de vista. Eu só não achei a história exatamente interessante. Não sei se essa é palavra certa para descrever o que senti, mas é a mais próxima que encontrei. Em certos momentos, achei o filme até mesmo entendiante.

Eu acho que o filme teria sido melhor se tivesse sido mais parecido com o que Charlie Brooker faz em Black Mirror, que é esse enredo completamente bizarro com a crítica a tecnologia imersa dentro da história e não tão estampada como acontece aqui.

Mas definitivamente faz a gente pensar. Tanto na sociedade como um todo quanto no indivíduo próprio. Meu primeiro sentimento no desenrolar do filme foi meio que desgosto com o que a sociedade estabelece como beleza padrão e todo essa fixação em ser bonito ou perfeito. Porém mais para o final eu me senti um hipócrita para falar a verdade. Pelo fato de estar indignado com oque a sociedade impõe mas por outro lado é algo que eu mesmo faço no dia-a-dia. Seja comigo mesmo, tentando ter um corpo malhado por me achar magro, ou por estar sempre preocupado com meu corte de cabelo, minha barba, minha roupa, etc… E isso vem acompanhado da preocupação da opinião da sociedade sobre minha atual aparência. Ou seja com pessoas a minha volta ou da mídia, sempre criticando ou elogiando se tal pessoa emagreceu ou engordou, ou se se veste melhor ou pior…

E quando o filme te faz pensar nisso, é bom. Pelo menos para mim foi.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais