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Crítica | Dente por Dente (2020)

por Leonardo Campos
398 views (a partir de agosto de 2020)

Ruas vazias, céu nublado, habitações decrépitas, contrastando com os espaços luxuosos desprovidos, no entanto, de vivacidade. Assim é a ambientação de Dente por Dente, um dos investimentos do cinema brasileiro na mescla de elementos narrativos do terror com a costumeira investigação policial que alimenta a ficção audiovisual no mundo inteiro. São Paulo aparece aqui personificada, uma cidade-cinema que esconde perigos por todos os lados, envoltos numa redoma de mistério onde não podemos (nem devemos) confiar em ninguém. Absurdamente analisada por um conjunto de críticas que, ao meu ver, não compreenderam a proposta do filme, a produção é um exercício adequado do chamado cinema de gênero, termo que define as realizações ficcionais menos costumeiras, recortada para nichos, tomadas por estruturas que saem do que é habitual em nossa trajetória cultural. Lógico que terror não é novidade para o nosso esquema produtivo, mas como antigamente tínhamos opções limitadas, capitaneadas por José Mojica Marins, qualquer vestígio do macabro e do numinoso em nossa indústria é sinônimo de curiosidade. Guiado pela narração em off, seguimos um personagem envolto numa redoma peculiar, ao longo dos 85 minutos desta breve história lançada em 2020, o “ano que queremos esquecer”.

Tendo tomado a defesa de Dente por Dente por achar que a crítica, no geral, contemplou o filme de maneira muito superficial e viciada, tenho que assumir não ter achado a produção uma narrativa perfeita, delineada por completude. Há, sim, um desfecho anticlimático, proposital, focado na construção de uma estrutura menos mais do mesmo e mais reflexiva, prejudicial para os interessados exclusivamente em entretenimento, a base do cinema enquanto arte de massa. Esse lance da crítica social, do debate e da reflexão é coisa da crítica, um elemento externo e de continuidade do processo que envolve o esquema produção, recepção e interpretação de uma obra. Vejo, por sua vez, um campo crítico cada vez mais viciado, tomado pelo abominável e atualmente costumeiro complexo de vira-lata, comparando constantemente não apenas esse filme, mas tantos outros, aos produtos estadunidenses que não apenas dominam as salas de cinema que recuaram em nosso cenário pandêmico, mas também nos serviços de streaming.

É claro que em nossa tradição narrativa milenar, apenas falando do território ocidental, encontrar um filme original é algo cada vez mais raro, principalmente quando olhamos para o panorama de produções dos últimos trintas anos e percebemos a presença constante da jornada do herói e dos paradigmas de Syd Field em quase tudo que se consome. É uma variação do mesmo, com mudanças pontuais entre um elemento e outro. Deixo esse desabafo por ter consciência do meu engajamento enquanto crítico de cinema. Escrever sobre filmes não é apenas estabelecer um guia de consumo, mas criar uma linha de debate para as obras que jamais terminam em si mesmas. Alguns textos publicados sobre o suspense protagonizado por Juliano Cazarré pecam por exigirem do filme uma estrutura que as próprias críticas de determinados autores não dão conta. É um festival de apontamentos ao estilo de narração, ao esquema narrativa erroneamente chamado de folhetinesco, dentre outros adjetivos vulgares oriundos de escritas imaturas.

Isso, no entanto, vai gerar um outro texto, sobre metacrítica, combinado? Agora vou me deter exclusivamente ao filme e claro, ao seu contexto. Sob a direção de Pedro Arantes e Júlio Taubkin, cineastas que se guiam pelo roteiro de Ângelo Ravazi e Arthur Warren, acompanhamos a trajetória de Ademar (Juliano Cazarré), homem inquieto, sócio de uma empresa que presta serviços de segurança particular, tendo uma poderosa construtora de São Paulo como um de seus maiores clientes. Com o desaparecimento de Teixeira (Paulo Tiefentholer), o seu sócio, marido da bela Joana (Paolla Oliveira), mulher ambígua, com traços da figura feminina noir, referência de estilo que toma o filme de maneira geral, o rapaz adentra num labiríntico cotidiano de investigações, tendo em vista saber o paradeiro do parceiro de negócios que aparece logo mais, encontrado morto e com o rosto desfigurado, sem os dentes que parecem arrancados de maneira brutal.

Saberemos, logo mais, que há um esquema de corrupção que envolve os personagens, representados em suas ambiguidades pelo cinismo de Meirelles, interpretada pela sempre ótima Renata Sorrah, empreendedora da Arcádia, grupo do ramo da tenebrosa especulação imobiliária brasileira, conhecida por devastar museus e até mesmo ceifar vidas de pessoas que resolvem causar comoção demais quando o lance é a precificação do solo urbano e de espaços que promovem tensões de ordem social. Em sua busca por respostas, Ademar passa por momentos de puro horror, divididos entre a realidade e um atmosférico mundo sombrio nebuloso, mergulhado em imagens perturbadoras, inquietantes em seu nível mais árduo. Conduzindo o filme praticamente sozinho, Cazarré entrega um desempenho dramático bastante convincente, digno de nosso respeito enquanto espectadores que observam a entrega de um ator na condução de seu personagem. Situado numa história que não parece ter final favorável, Ademar se envolve num perigoso espiral e os resultados podem ser contemplados não apenas nas manifestações psicológicas do personagem, mas também pela eficiente maquiagem de Marcelo A. M. P.

Ademais, outro ponto que gostaria de ressaltar é a suposta superficialidade das discussões contextuais em Dente por Dente. É uma acusação injusta, pois o filme traça o pano de fundo, mas se assume enquanto narrativa fantasmagórica, deixando para o espectador, supostamente leitor crítico e ativo, o papel de realizar as ilações. Se uma narrativa precisa entregar didaticamente todas as explicações para o seu público, temos que decretar, urgentemente, a falência do entretenimento inteligente. Como já dito, o filme não termina em si mesmo, mas é o produto de um triângulo, parte da estética da recepção, mecanismo que envolve os realizadores, a narrativa e a recepção, sendo o terceiro momento um ato que não representa o desfecho, mas na verdade, o começo do legado longo ou curto de uma determinada produção. A especulação imobiliária, aquecida no atual cenário pandêmico, está infiltrada na trama principal, mas não dita exclusivamente pelos diálogos do roteiro, sendo representada também pelos traços estéticos que compõem o filme.

Podemos encontra-la na captação de imagens da direção de fotografia de Bruno Tiezzi, responsável por nos apresentar os prédios e demais manifestações arquitetônicas frias, impessoais, caixas para acoplagem de pessoas nas zonas urbanas com inchaço demográfico. Os filtros acinzentados e a constante cena noturna demonstram que a cidade de São Paulo, território para o desenvolvimento dos conflitos, oferece ao protagonista espaços dúbios, para qualquer um circular desconfiado. Em algumas cenas, essa escolha é tão bem realizada que a câmera acompanha Cazarré por detrás, como se alguém estivesse em sua cola, pronto para alvejá-lo e nos surpreender com algum susto que logo se revela, não vai acontecer. A crítica social também está na atmosfera sombria, ao estilo Rubem Fonseca, com alguns traços de Nelson Rodrigues, salvaguardadas as devidas proporções. O design de produção de Daniela Aldrovandi adequa-se ao trabalho de fotografia para compor espaços que falam pela visualidade dos cenários e da direção de arte, bem como o importante trabalho de Melina Schleder nos figurinos, ideais para comprarmos algumas ideias da narrativa. O trabalho de Wong na textura percussiva é outro ponto forte, somado ao design de som também eficiente de Gustavo Nascimento. No geral, um bom exercício da linguagem cinematográfica. Uma trama claustrofóbica e curiosamente sombria.

Dente por Dente — Brasil, 2020
Direção: Júlio Taubkin, Pedro Arantes
Roteiro: Arthur Warren
Elenco: Juliano Cazarré, Phillip Lavra, Bruno Bellarmino, Adriano Barroso, Paula Cohen, Paolla Oliveira, Aderbal Freire, Juliana Gerais, Renata Sorrah, Brenda Ligia, Chico Santos
Duração: 90 min.

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1 comentário

Julio cezar 28 de abril de 2021 - 20:00

Me perdoem os que gostaram do filme porém eu o assisti e sinceramente o considero um lixo….é lamentável perceber que o nosso cinema é tão desprovido de primeiro lugar senso de coerência,alguma coisa minimamente atrativa ao espectador,não que gosto de receber tudo já mastigado,mas o cinema nacional como que flerta em demasiado com a ficção dando a impressão de sempre estarmos assistindo um filme independente….meio “sem pé nem cabeça” como dizia minha mãe quando assistia um filme desconexo e que apela ao maravilhoso,tenta ser terror mas não é nem uma coisa nem outra e ainda termina sem desfecho convincente.Decepcionante diria.

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