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Crítica | Depois da Tempestade (A Imagem Errante)

por Luiz Santiago
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Escrever sobre Depois da Tempestade é uma tarefa complicada, porque estamos falando de um filme que passou muito tempo perdido e, mesmo depois da reconstituição feita pela Cinemateca Brasileira (depois de ser encontrado em São Paulo, em 1986, após anos considerado perdido), ainda não o temos por completo, sendo essa falta um problema notável quando nos dispomos a analisá-lo.

O filme, datado de 1920, foi a primeira colaboração de Fritz Lang com Thea von Harbou, com quem se casaria dois anos depois e de quem se divorciaria em 1933, após ela aliar-se ao partido nazista. A obra tem um cuidado muito grande com a personagem feminina e carrega uma nota de melodrama, espiritualidade e filosofia, discutindo alguns conceitos ousados se considerarmos a época em que foi realizado — e não digo isso em relação aos conceitos em si, mas ao trabalho deles no cinema.

Um filósofo adepto do “amor livre” encontra-se com uma jovem por quem se apaixona (a seu modo) e com ela resolve estabelecer uma relação duradoura, sem, no entanto, entregar-se ao que ele considerava ser uma ‘prisão e terrível obrigação social’, ou seja, a formalização do casamento civil. A situação segue de maneira mais ou menos tranquila até que Irmgard (Mia May) engravida, e então a liberdade do amor e ausência de rótulos e títulos sociais parecem não ser mais tão interessantes.

O roteiro mostra esse drama de modo alinear, algo que no filme completo certamente teria melhor figuração, mas que na reconstituição parcial se coloca um pouco confuso. Isso não impede que o espectador assista à obra tranquilamente ou mesmo a compreenda, mas sequências que de alguma forma nos parecem forçadas ou reticentes provavelmente não seriam se tivéssemos todo o material original em mãos.

Fritz Lang faz um trabalho incrível nas tomadas externas, com destaque para todas as cenas nas montanhas. Elas são de uma beleza bucólica e lírica que tornam mais interessante todo esse bloco do filme, tanto na forma narrativa quanto estética. O cunho espiritual e filosófico também ganham aí maior força, e mesmo que pareçam ingênuos, têm sua importância na história e são tratados de maneira muito bonita pelo diretor.

O final do filme talvez seja o seu maior ponto fraco, mesmo que consideremos perdido o ponto de ligação entre o retiro do personagem dado como morto e sua “volta à vida”. A tragédia, elemento essencial da obra até aquele momento, é pincelada com uma cor que não combina com o todo e, mesmo que não tenha o poder de estragar a obra, termina por dar-lhe um ar extremamente chavão que não aceitamos com facilidade, principalmente porque todo o restante do filme foi construído como uma densa história de essência e existência humanas, algo definitivamente nada raso.

Depois da Tempestade / A Imagem Errante (Das wandernde Bild) – Alemanha, 1920
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Fritz Lang, Thea von Harbou
Elenco: Mia May, Hans Marr, Rudolf Klein-Rogge, Loni Nest, Harry Frank
Duração: 45 min. (versão encontrada no Brasil e restaurada pela Cinemateca Brasileira. O filme, no entanto, está incompleto, muitos metros de seus rolos originais foram perdidos).

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