Crítica | Depois de Horas

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“Eu provavelmente vou ser culpado por isso.’

O espaço urbano encontra-se vivo em enorme parte das produções cinematográficas do cineasta norte-americano Martin Scorsese. Dos caminhos perigosos que deram nome a um dos primeiros grandes longas-metragens do diretor, passando pelo motorista de táxi que protagonizou o clássico homônimo reverenciado como uma das suas obras-primas, à ninguém surpreenderia constatar as cidades e os seus componentes como um personagem por si só do seu cinema. No geral, essas obras procuram explorar os contrastes dos centros populosos, logo apresentando questionamentos às metrópoles e, consequentemente, seus moradores. Entretanto, mesmo que menos conhecido em comparação a outros projetos do cineasta, este exemplar oitentista conta com a mais rica e fascinante desventura de Scorsese por entre prédios, bares, becos e carros. Em conjunto com um estudo de gênero estimulante – uma mistura de comédia maluca com o cinema noir -, o cineasta apresenta Nova Iorque como cenário para um enredo enlouquecido. De maneira mais específica, Scorsese reconstrói a noite deste imenso centro urbano como uma cidade dos pesadelos, não necessariamente para todos, no entanto, certamente para este nova-iorquino, estrangeiro a ela. Quando apenas poucas pessoas continuam acordadas, depois do horário comercial, um jovem se joga noite adentro e descobre o que mantém a cidade desperta nestas horas – um mundo paralelo.

Paul Hackett (Griffin Dunne) é um mero operador de computador – ou alguma coisa da espécie -, que larga a sua vida moribunda para ir de encontro a uma garota que acabara de conhecer numa lanchonete. Para ele, preso a seu cotidiano – e a palidez na performance de Dunne em poucos minutos já confirma isso -, o universo não ultrapassa a sua mediocridade. Dada a sua chamada à missão, o homem, contudo, não esperaria ter que passar por horas a fio passeando perdido pela cidade, em meio a confusões em série, que logo exemplificam os sentimentos, tão contrastantes, de uma região urbana à noite. Pelas primeiras cenas, parece que o interesse da obra se encontra no romance, criando uma expectativa nisso que se transforma, mais tarde, em ironia. Hackett não quer, ora, um amor, mas simplesmente transar, ou seja, momentaneamente sair da sua zona de conforto entediante, nem que seja por uma noite. Porém, o que se tem naquele pequeno encontro ainda assim irá, supostamente, restaurar a vontade de se viver de um homem extremamente consumido pela sua vida banal. Como pontapé a isso, o motor que principia a narrativa é justo uma sensualidade provocante, mediante o convite de uma recém-conhecida do protagonista, Marcy Franklin (Rosanna Arquette), para que ele vá a sua casa. Quando lá enfim chega, o personagem, então, é recebido por uma amiga de Marcy vivida por Linda Fiorentino – que encontra-se semi-nua.

Não tarda, porém, para os desejos carnais de Hackett serem castrados, gradativamente, de uma maneira tão contínua que chega ao ponto do protagonista até recusar as investidas sexuais explícitas de uma outra mulher, Julie (Teri Garr) – ao passo que Marcy, por sua vez, mostrara estar interessada muito mais numa companhia do que em outra coisa, o que Hackett, por outro lado, não concedeu por se assustar com uma realidade distinta da sua. Para muitos, o personagem principal pode soar como um pobre coitado, engolido pela noite de maneira repentina. Em contrapartida a esse pensamento, Paul atua muito mais como uma figura passiva e incapaz de assumir o volante de sua vida, seja na noite ou no próprio dia, do que como um alguém merecedor de nossa piedade. Quando os seus vinte reais voam pela janela do táxi, Dunne, em cena, é incapaz de impor sua voz para chamar a atenção do taxista. O ser simplório, como o protagonista, não espera que o outro seja complexo, seja único, como as pessoas que ele encontra no caminho são. O longa realça mais esse confrontamento do que caracteriza a noite nova-iorquina como ameaçadora – ao passo que, numa cena, Hackett se lamenta, dois homens beijam-se apaixonadamente no fundo. Há amor em Nova-Iorque – a personagem de Fiorentino é outro exemplo disso -. porém, para a enxergar é necessário emancipar-se de um casulo – não apenas espacial, como acontece a Paul, mas mental.

A que lugar pertence o protagonista, portanto, às ruas abandonadas pela população que ou se encontra dormindo ou se entretendo ou aos computadores que automaticamente desejam bom dia para ele? O seu verdadeiro hábitat natural é, assim sendo, repensado por um longa-metragem que sucessivamente contrasta o personagem em relação as suas expectativas e as reais conclusões. Em um momento, o protagonista está massageando uma pessoa, de uma maneira que, para ele, a sua ação soa como uma sedução. Pelo contrário, enquanto que, para Paul, a personagem está se aproximando dele, ela, contudo, adormece, ouvindo a história que o jovem a conta. Nem para usar o mictório o personagem principal possui sossego, por causa do desenho ao lado que ilustra um tubarão prestes a decepar um pênis humano. E que montagem bem ácida, por sinal, a de Thelma Schoonmaker, sempre com algum corte preciso para consolidar as rupturas ao tesão de Hackett e, em outros momentos, para constatar a fadiga dele, que é consequência de sua incapacidade de escapar da sua própria insignificância. O mais agitado dos ambientes, por exemplo, que é uma festa para gente com moicano, termina sendo recusado por Paul, que rapidamente resolveria seus impasses caso se rendesse ao corte de cabelo. Pela ruptura entre mundos, Scorsese consegue, assim, movimentar o seu projeto mais engraçado, que zomba da tal “tragédia” de seu protagonista.

Em termos estruturais, o seu enredo é, consequentemente, um compilado de anti-clímaxes, um surgindo depois do outro, rompendo com as esperanças do homem médio em apenas ter uma noite fora dos eixos de sempre. Como isso aconteceria, no entanto, se o cidadão em si não se permite deixar de ser um exemplar ordinário de ser humano? O mundo na madrugada torna-se, sem surpresas, um pesadelo concreto para Paul Hackett, característica que o longa em si procura promover. Um dos aspectos do roteiro que complementa o raciocínio onírico, juntamente a um senso cômico irônico, é a reiteração dos mesmos ambientes que o personagem visita. Não serão poucas as vezes em que um lugar, como um bar, por exemplo, terá que ser retomado por Paul, sempre com mais problemas para resolver. Os mesmos personagens, no mais, vão indo e vindo, encorpados por coincidências que sufocam ainda mais o protagonista. No âmbito imagético, no mais, os vigilantes que ameaçam Paul parecem registrar uma barbárie urbana prestes a ocorrer – pelo ponto de vista do protagonista, é isso que se supõe -, mas nada violento de concreto ocorre. Dentre as ambiguidades que permeiam o longa de Scorsese, uma delas é justo o sentimento ao mesmo tempo de realidade e de surrealismo, ao passo que excentricidades de certos personagens tornam-os únicos, reais, e também assombram Hackett, por fugiram dos parâmetros que conhecia.

Nesta joia esquecida da carreira de Scorsese, o seu protagonista não quer nada mais do que viver, e ainda assim essa parece ser a busca mais tortuosa já produzida no cinema do cineasta. Quando ouve um comentário que remete a eventos prévios da mesma noite, a reação de Griffin Dunne, no papel de sua vida, reinstaura o pânico, eterno, do seu personagem. Ele é, agora, alguém cansado de tudo de novo que o rodeia, enquanto, antes, ele era o homem entediado com tudo de velho que o rodeava. Na existência de um longa de gênero que, em paralelo a isso, anseia transmitir um estudo da relação do cidadão médio com a noite urbana, Martin Scorsese arrisca-se num projeto virtuoso e acessível. Há o entretenimento inerente da comédia maluca na obra, mas, junto a isto, de maneira subjacente reside o desespero do seu protagonista e seu fardo. O mundo, ao menos sua versão noturna, mostra ser pouco convidativo para pessoas como Paul Hackett, operadoras de computador ordinárias. Por consequência, a maior tragédia do ser medíocre é ter que se contentar com a sua própria mediocridade. “Eu quero viver”, exclama o personagem, ironicamente aquele que só se sente verdadeiramente confortável quando dentro de um casulo, a estátua humana de papel machê, que encaminha-o para o esperado encerramento do seu pesadelo. Logo depois, no entanto, mora o começo de outro, mas pelo menos esse é um que Paul já está acostumado a viver.

Depois de Horas (After Hours) – EUA, 1985
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Joseph Minion
Elenco: Griffin Dunne, Rosanna Arquette, Verna Bloom, Tommy Chong, Linda Fiorentino, Teri Garr, John Heard, Cheech Marin, Catherine O’Hara, Will Patton
Duração: 97 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.