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Crítica | Dersu Uzala (1975)

por Ritter Fan
531 views (a partir de agosto de 2020)

Não sei se é em razão da proximidade do Natal ou se é pelo tema principal de Dersu Uzala, mas senti a necessidade de fazer um depoimento pessoal sobre o filme, fugindo um pouco da objetividade crítica que deve sempre guiar esse trabalho. No entanto, resistindo bravamente às tentações, decidi, no final das contas, fazer as duas coisas: meu “nhé, nhé, nhé” pessoal e a crítica. E, ainda por cima, respeitando meus leitores, eu o fiz em dois momentos claramente identificáveis por sub-títulos. Quem não quiser ler as palavras bem pessoais que afloraram assim que acabei de rever a obra soviética de Akira Kurosawa, podem passar para o segundo capítulo, que trata efetiva e objetivamente da crítica.
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A Amizade e a Velhice

Sempre que assisto Dersu Uzala, eu me emociono. E olha que sou costumeiramente conhecido como um cara durão, que não se emociona fácil e por aí vai. Mas, na verdade, é tudo uma máscara para eu manter minha fama de mau e esconder um bobalhão que tem que resistir para não se debulhar em lágrimas ao testemunhar, por exemplo, o desespero de Marlim ao ver seu filho Nemo sendo pescado em Procurando Nemo.

No entanto, mais do que temas de amor, abnegação, sacrifício e outros corriqueiramente utilizando em dezenas e mais dezenas de filmes, a amizade é um que me toca profundamente. Hoje, com redes sociais mil e relacionamentos à distância, o conceito puro de amizade desapareceu ou mudou completamente, o que torna Dersu Uzala uma obra ainda mais urgente, ainda mais contemporânea de uma maneira anacrônica (se é que vocês me entenderam). Não é que amizades não possam perdurar por décadas se os amigos estão distantes geograficamente. Elas podem sim, mas essas amizades nasceram, provavelmente, de contatos pessoais, próximos, de alguma conexão qualquer que acabou unindo aquelas duas pessoas.

Chamem-me de quadrado, antiquado, velha guarda e o que mais vocês quiserem, mas amigo não é conhecido ou colega. Amigo é algo raro, que cada um de nós deve (sim, deve) ter poucos, por mais popular que sejamos. Ter 500 “amigos” no Facebook nada significa. Ter um amigo de infância pode significar o mundo. Tem pessoas que conheço há quase duas décadas e que não considero amigo de verdade. São conhecidos muito próximos e tal, mas amigo mesmo é aquele cara que, sem pedir absolutamente nada em troca, quando te vê depois de 5 meses (ou mesmo 5 anos) sem te ver, te entende perfeitamente e, em alguns segundos, conversa com você sem que aquele período distante tenha significado mais do que um soluço na amizade. Um amigo não quer reconhecimento, não quer conversar ao telefone todos os dias, não quer receber um e-mail ou uma mensagem a cada minuto.

Amigo ultrapassa a barreira do que é ditado pela sociedade como “correto” para efetivamente ser seu amigo. Com isso, quero dizer que seu amigo não é aquele cara que lembra de seu aniversário todos os anos, mas sim o cara que, quando você dá parabéns, agradece como se nada tivesse acontecido e engata em outro assunto completamente diferente. Amigo não espera os parabéns. É o que eu disse: amigo só é amigo se não quer absolutamente nada em troca. E amigos envelhecem juntos. Trocam experiências e ajudam um ao outro a crescer pessoalmente.

E o envelhecimento é outro tema importante, tema esse que só me emocionou agora, quando assisti Dersu Uzala para escrever a presente crítica. Afinal de contas, a idade chegou para mim e eu consigo me identificar com o “problema”. Sim, não sou velho propriamente dito. Tenho 40 anos. Mas é muito diferente de quando você tem 20 ou 30… Ter 40 é melhor.

E realmente acredito que as coisas só continuam a melhorar. Sim, vamos envelhecendo fisicamente e sim, podemos fazer menos coisas do que fazíamos quando jovens. Mas, quando jovem, você olha para trás sem qualquer senso de ter feito alguma coisa na vida. E você olha para frente como se não existisse o dia de amanhã. Quando um pouco mais velho – como agora, eu aos 40 – ao olhar para trás vejo tudo aquilo que construí e que vou deixar para minha família (certamente minha maior “construção”). Olho para frente e vejo – com a cautela que vem com a vivência e alguma sabedoria – as oportunidades que terei. Algumas poderei abraçar sem titubear. Outras terei que deixar passar. Mas sem arrependimentos.

Bom, minha gente, se vocês leram até aqui, agradeço imensamente. Tinha que literalmente colocar isso “para fora”. Na pior das hipóteses, se nenhuma das mensagens que tentei passar acima funcionar, pelo menos reparem como um filme pode mexer com uma pessoa.
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A Crítica de Dersu Uzala

Depois que acabou O Barba Ruiva, o contrato de Akira Kurosawa com o estúdio Toho também acabou. O próprio Kurosawa viu a oportunidade de crescer com seus próprios pés e partiu para uma empreitada hollywoodiana ao ser tragado para a malfadada produção de Tora! Tora! Tora!, da Fox. Digo tragado para usar um eufemismo pois o diretor foi, na verdade, ludibriado pelas promessas dos produtores, que diziam que David Lean dirigiria as sequências americanas e Kurosawa as japonesas (o filme trata do ataque a Pearl Harbor pelos dois ângulos).

Acontece que, na verdade, Richard Fleischer é que acabou dirigindo e Kurosawa não conseguiu adequar-se às exigências de Hollywood, sendo defenestrado em três semanas. E, como se esse desgaste todo não bastasse, o filme foi um fracasso de crítica e bilheteria. Com isso, Kurosawa teve que brigar muito para conseguir fazer seu filme seguinte, Dodeskaden, primeira experiência do diretor com cores (ainda que tenha flertado com isso antes) e belíssimo, por sinal. No entanto, o diretor amargurou outro fracasso, o que acabou dificultando em muito a obtenção de fundos para projetos futuros.

Toda essa situação somadas a problemas de saúde e pessoais levou Kurosawa a tentar se matar em 1971. Somente dois anos depois é que, procurado pelo estúdio soviético Mosfilm, o mestre finalmente arregaçou as mangas e voltou a fazer aquilo que fazia de melhor: deixar o público de queixo caído e olhos abertos com suas deslumbrantes imagens em movimento. O resultado foi a obtenção do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e sucesso nas bilheterias, além de ter chamado atenção novamente para sua capacidade como autor.

Assim nasceu Dersu Uzala, obra baseada em livro autobiográfico do explorador russo Vladimir Arseniev. A tocante história do experiente caçador do povo Goldi que forma laços de amizade com um capitão do exército russo que está nas inóspitas terras do leste da Rússia em 1902 consegue ficar ainda mais poderosa por ser baseada quase que integralmente em fatos reais. E claro, apesar de já ter sido levada às telas antes pelo cineasta soviético Agasi Babayan, a narrativa se beneficiou muito do estilo Kurosawa de filmar.

Dersu Uzala foi o primeiro filme do diretor falado em língua não japonesa (é integralmente falado em russo) e a primeira — e única — experiência dele com filme de 70 mm. O resultado é que as já famosas panorâmicas de Kurosawa evocam ainda mais os temas do filme que não só se relacionam com a amizade e a velhice como, também, com a integração com a natureza e com a invasão da chamada “civilização”.

Filmado quase que totalmente em locação no leste da União Soviética ao longo de um ano e meio, o aspecto naturalista do filme é fortemente ressaltado. Somos jogados para dentro da natureza selvagem em uma época em que a chamada civilização ainda não havia chegado a todos os rincões perdidos do planeta. Apesar do tour de force que foi fazer o filme, o resultado é extremamente contemplativo, sereno, capaz de nos fazer olhar para nós mesmos e indagar determinadas atitudes que temos.

Em determinado momento, Dersu Uzala (Maksim Munzuk) leva o Capitão Vladimir Arseniev (Yuriy Solomin) para uma cabana perdida na floresta. Antes de partirem, Dersu faz questão de consertar o teto do local e de pedir mantimentos não perecíveis ao capitão para deixar por ali. Quando indagado do porquê, Dersu simplesmente diz que isso impediria que outros, que porventura usassem a cabana, morressem de fome.

Vejam só que coisa mais linda: um homem simples e que nada tem a não ser a mochila em suas costas que se preocupa não só por quem conhece, mas por pessoas que nunca viu e que, provavelmente, nunca verá. O mundo em que hoje vivemos simplesmente não comporta mais pessoas assim e é isso que vemos gradativa acontecer na fita. Há outro momento mais para a segunda metade do filme em que Dersu diz que, apesar de ter conseguido algum dinheiro com a venda de peles de animais, não tem mais nada pois ele pediu para um comerciante guardar seu dinheiro e, ele não sabe explicar, o cara desapareceu sem dar explicações. A forma como Dersu explica isso ao capitão, sem realmente entender o que aconteceu, é de partir o coração e nos fazer ficar com raiva da humanidade que nos cerca. A atitude aparentemente ingênua de Dersu não é ingênua, mas sim verdadeiramente humana. Tanto é assim que, ato contínuo, o capitão fica sem palavras – literalmente – e tem que sair por breves momentos da companhia do amigo para, longe da câmera de Kurosawa, provavelmente ponderar sobre o ponto em que nós chegamos, isso se ele não tiver chorado.

Kurosawa não usa muitos close-ups e trabalha muitas vezes em plano médio quando lida com Dersu e o capitão. Mesmo assim, as atuações de Munzuk e de Solomin são edificantes. Munzuk não parece estar atuando. Ele simplesmente é Dersu Uzala. Já Solomin me lembra muito Omar Sharif em Doutor Jivago: um nobre soldado que compreende e fica fascinado com a natureza humana.

Quando o filme evolui para tratar dos problemas trazidos pela velhice, Kurosawa mistura o lado místico da crença dos Goldi com as realidades do dia-a-dia. Dersu começa a perder a visão e acredita que isso se deve ao fato de ter atirado em um tigre, animal sagrado para ele. Ao fazer isso, o diretor consegue, de maneira muito eficiente, mostrar a proximidade da relação de Dersu com a natureza e, ao mesmo tempo, de Dersu com o capitão, que oferece moradia em sua casa na cidade.

E o final, já lindamente telegrafado por Kurosawa na já descrita cena do roubo do dinheiro de Dersu, é absolutamente crível e tocante. É o fim de uma era. O fim de um tipo de humanidade e o começo de outra, talvez tão boa quanto, mas certamente muito diferente. É nesse momento que nós, espectadores, assim como o Capitão Arseniev, caímos de joelhos e choramos pela perda de alguém ou alguma coisa muito especial e que é insubstituível.

Dersu Uzala é um dos filmes mais bonitos já feitos e mostrou a todos que, mesmo desiludido, traído e desesperançoso, Kurosawa foi um dos maiores diretores que já existiram.

Dersu Uzala (Japão, URSS, 1975)
Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa, Yuriy Nagibin (baseado na obra de Vladimir Arseniev)
Elenco: Yuriy Solomin, Maksim Munzuk, Mikhail Bychkov, Vladimir Khrulev, V. Lastochkin, Stanislav Marin, Igor Sykhra, Vladimir Sergiyakov, Yanis Yakobsons
Duração: 142 min.

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12 comentários

Vinicius Maestá 18 de abril de 2020 - 23:46

Texto lindo Ritter. Sou uma pessoa que não se emociona fácil com filmes, mas aqui lágrimas saíram dos meus olhos em dois momentos: a cena da “ingenuidade” de Dersu; e depois me emocionei pela película como um todo ao perceber que estava assistindo uma obra-prima. Chorar duas vezes em um filme nunca me tinha ocorrido.

Dito isso, acredito que Maksim Munzuk (não o conhecia) teve uma das melhores atuações que eu já vi. Se alguém chegar para mim e dizer que aquele cara não era um ator, mas sim uma pessoa que de fato vive na natureza, eu iria acreditar sem levantar questionamentos. Belíssima atuação em um dos melhores personagens que já vi. Gosto muito do capitão também, pois a princípio esperamos por mais um cara xenofóbico, que se acha superior ao chinês que vive na selva. Mas não, me senti muito representado pelo fascínio que sentia por aquele SER HUMANO.

Enfim, foi minha primeira obra do Kurosawa e, ao menos por enquanto, ela já está no meu top 15 filmes favoritos.

Abraços.

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planocritico 19 de abril de 2020 - 01:22

Que depoimento bacana, @vinicius_maest:disqus ! Esse filme é espetacular e é interessante que ele foi sua porta de entrada para a filmografia do Kurosawa! Já viu outros do diretor? Pergunto, pois Dersu Uzala é um filme, digamos, peculiar no currículo dele.

Abs,
Ritter.

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Vinicius Maestá 19 de abril de 2020 - 02:31

Ainda não, é meio complicado achar os filmes dele, já que eu não gosto de pirataria. Felizmente, o Petra Belas Artes chegou com um ótimo streaming cult e só então eu pude ver alguma obra dele, além de outros grandes diretores como o Tarkovisky. Trono Manchado de Sangue deve ser o próximo.

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planocritico 19 de abril de 2020 - 17:22

Trono é sensacional!

Espero que goste!

Abs,
Ritter.

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Crítica | Dersu Uzala (1975) – Críticas 8 de agosto de 2018 - 05:53

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Luiz Santiago 5 de agosto de 2018 - 05:49

É engraçado como as coisas funcionam. Como o tempo passa (rápido até demais para nosso gosto), mas alguns sentimentos sempre permanecem. Eu lembro o quão bobo fiquei quando li esse texto pela primeira vez, lá no final de 2012, assentindo em relação à sua visão de amizade, de laços, de entendimento do que é estar e querer estar junto, mas que nem todo mundo sabe o que está em jogo e ou cobra demais ou não é leal o bastante para chegar no ponto certo. Isso e o fato dessa reflexão ter um peso grandioso para a obra do Kurosawa, uma leitura extremamente emotiva e bela que você faz. Este é um filme que nos toca de inúmeras formas. O livro já é incrível, mas o filme consegue ser uma grandiosa obra-prima.

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Dersu Uzala é Dez! - Veio em Folha 3 de maio de 2018 - 13:17

[…] Ritter Fan do Plano Crítico (https://www.planocritico.com/critica-dersuuzala/), sobre o ator que interpretou Dersu Uzala: “Munzuk não parece estar atuando. Ele […]

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Anton Chigurh 9 de fevereiro de 2018 - 04:05

Dersu Uzala é provavelmente um dos personagens com mais pureza e bondade no coração, já retratados na história do cinema. Quando acabou o filme, fiquei com a sensação e vontade de voltar no tempo e ter a oportunidade de conhecer e ser amigo do verdadeiro Dersu.

Este filme é de uma beleza ímpar. E o mestre Kurosawa usa toda sua inteligência para dirigir o filme no ritmo certo, aliando as belas imagens, e conseguindo criar tensão na dose certa, como na belíssima cena em que Dersu salva o “Capitan” de morrer congelado depois que se perderam próximo ao lago gelado, contrastando com o um intenso por do sol.

Para mim esse filme só caiu um pouco o ritmo no 2º ato, mas nada que atrapalhe mais uma grandiosa obra de um dos maiores mestres do cinema.

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planocritico 9 de fevereiro de 2018 - 09:57

Dersu Uzala é realmente belíssimo. Simplesmente adoro esse filme. Um dos meus favoritos de Kurosawa. Gosto tanto que não consigo nem notar a queda que você menciona no segundo ato!

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 9 de fevereiro de 2018 - 09:57

Dersu Uzala é realmente belíssimo. Simplesmente adoro esse filme. Um dos meus favoritos de Kurosawa. Gosto tanto que não consigo nem notar a queda que você menciona no segundo ato!

Abs,
Ritter.

Responder
thiago 6 de maio de 2017 - 14:53

Vi esse filme recentemente é lindíssimo, mas digo q a crítica me ajudou na imersão do pós filme, um dia verei de novo, dessa vez com uma qualidade melhor rs.kurosawa é foda.

Responder
planocritico 6 de maio de 2017 - 23:44

Fico feliz em ter ajudado, @disqus_A7depsGfsg:disqus ! Esse filme vale ser revisto, sem dúvida!

Abs,
Ritter.

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