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Crítica | Descender – Vol. 1: Estrelas de Lata

por Kevin Rick
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Eu sempre começo a ler uma HQ do prolífico Jeff Lemire com expectativas altíssimas, seja suas séries no Universo de Black Hammer, quadrinhos da Marvel e da DC, ou então obras independentes como Descender, onde, na minha opinião, o autor brilha com mais força.  A espera positiva pode ter efeitos negativos com aquela já conhecida decepção, porém, Lemire é aquele tipo raro de criador que é tão bom no que faz, sempre consistentemente espetacular apesar da quantidade absurda de HQ’s que escreve anualmente, que a expectativa é normalmente batida, e muitas vezes superada. Dito isso, a nota acima – até pequena para os parâmetros do autor – expõe como me sinto a respeito deste primeiro volume, Estrelas de Lata, mas não reflete minha animação para com a série como um todo, que apresenta sinais de uma possível obra-prima no progresso dos seus seis volumes.

O conceito apresentado é de um grupo de mundos chamado Megacosmo, sob o governo do Conselho Galáctico Unido, extremamente avançado tecnologicamente com carros voadores, naves espaciais e uma sociedade harmônica entre humanos e (servos) robóticos, como nosso protagonista Tim-21, uma criança-robô criada para fazer companhia à famílias carentes ou necessitadas de acompanhamento infantil. O personagem é programado para sempre simpatizar com a humanidade, daí inicia-se – ou pelo menos espera-se – a famigerada narrativa de um ser artificial em busca de humanização. O curioso da proposta de Lemire, é que Tim já passou por esse desenvolvimento com sua família designada, que, através de sentimentais e pontuais flashbacks transpostos por meio de backups, apresentam a transformação e descoberta de algo parecido com amor ou pelo menos empatia do personagem em relação à sua “mãe” e “irmão”. O fato do roteiro pegar a típica história do artificial em busca do humano e partir da ideia do depois já torna a leitura intrigante, e, para mim, o elemento que prepara o leitor para uma (possível) série verdadeiramente especial.

Além disso, o autor concebe dois núcleos principais neste volume introdutório, sendo o primeiro já dito, de uma história mais intimista do protagonista, mas incluído na segunda narrativa mais ampla do quadrinho: a guerra do humano – melhor dizendo, carnal, já que temos alienígenas – versus máquina. Robôs gigantes, posteriormente conhecidos como Ceifadores, causaram um assassinato em massa pelo Megacosmo, resultando na destruição do relacionamento harmônico entre as “espécies”, pois os sobreviventes do genocídio encontraram nos parceiros robóticos uma válvula de escape para o ódio e o luto. Tim-21 “acorda” dez anos após o evento trágico, agora em um Universo que odeia sua existência, mas com um quê curioso: o código genético de Tim é o mesmo dos misteriosos Ceifadores que desapareceram desde seu ato hediondo, resultando em uma perseguição geral ao personagem.

Dessa forma, Lemire fragmenta o arco do protagonista entre o choque de acordar em um Universo que antes o tratava como quase-humano para ódio total, em uma forma de inversão da trama do artificial à procura da humanidade para Tim, além de mergulhar o personagem em uma trama de conflito Universal, no qual seu papel é de extrema importância para resolver o mistério tecnológico/histórico da obra. Uma jornada de herói (ou seria vilão?), envolta de uma fantástica concepção metafísica, meio espiritual para os robôs – existe uma cena onírica sensacional, com uma pegada messiânica, que passa muito bem essa idealização -, que, aliás, me leva à arte de Dustin Nguyen, passando bem longe do conceito de artificial do roteiro para uma ilustração etérea de cores, bastante leve na aquarela espalhada ao mesmo tempo que é detalhista nas figuras, com um efeito maravilhoso de algo mais espiritual na paleta de cores inserido ao detalhismo robótico.

De início, Descender vai lembrar várias obras de ficção científica partindo da ideia de descobrimento andróide infantil como A.I. ou Astroboy, ou até algo na veia de Blade Runner com a caçada de máquinas, mas Lemire pega vários ingredientes conhecidos e concebe algo que, mesmo talvez não sendo tão original – até aqui, pelo menos -, é simplesmente magnífico e intrigante. Um belo arco introdutório, cheio de mistérios e um existencialismo artificial onírico bastante curioso, mantendo, como já é comum, altas expectativas pelo que Lemire apresentará depois.

Descender – Vol. 1: Estrelas de Lata (Descender – Vol. 1: Tin Stars) – EUA, 2015
Contendo: Descender – Vol. 1: Tin Stars (#1 a 6)
Roteiro: Jeff Lemire
Arte: Dustin Nguyen
Letras: Steve Wands
Editora original: Image Comics
No Brasil: Intrínseca (8 de novembro de 2019)
Páginas: 144

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3 comentários

Dialógico 21 de março de 2021 - 17:13

Há três dias li toda a saga. Lemire é desses autores que arrastam uma história até não poder mais, porém, curiosamente nos prende até a última página. Para ser um autor classe A, na minha opinião, só falta ele arrastar menos e melhorar nas conclusões.
No mais, uma das últimas grandes obras em hqs que li recentemente.

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Kevin Rick 22 de março de 2021 - 12:22

Nossa, como viu pelo texto, eu já acho o Lemire um autor classe A hehehe Mas consigo ver seu ponto. Senti isso – apesar de pouco – do alongar da história em Sweet Tooth. Gostou da obra como um todo? Achei essa introdução maravilhosa.

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Dialógico 22 de março de 2021 - 16:37

Adorei! Como tudo que o lemire faz, é viciante, você não consegue parar antes de chegar ao fim, mas a experiência perde um pouco da magia durante a jornada. Me senti assim com black hammer e Sweet Tooth.

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