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Crítica | Desejo Humano (1954)

por Gabriel Zupiroli
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Os planos iniciais de Desejo Humano conduzem o espectador por longos trilhos de trem, inserindo-o em um movimento contínuo, um fluxo de imagens. Ao longo do filme – o qual boa parte transcorre dentro de trens -, esta movimentação da câmera sempre acompanhará as transições, como que para indicar um deslocamento perene. Uma das últimas obras da fase hollywoodiana de Fritz Lang, o longa trabalha constantemente com essa ideia de movimentação, sempre transitando entre os estados e os desejos.

Um ex-combatente da Guerra da Coreia e maquinista finalmente retorna a sua casa, onde conhece a esposa de outro funcionário das ferrovias e passa a se envolver com ela após a ocorrência de um assassinato motivado por ciúme e dinheiro por parte de seu marido. O deslocamento está presente na narrativa mesmo no próprio retrato dos personagens: o ex-soldado que retorna ao lar para pilotar trens, a busca pela mulher amada e o vai-e-volta consigo, o crime ocasionado por uma condição intermitente. Tudo isso atrelado ao desejo, a este elemento da psicologia humana que catalisa todas as movimentações.

Lang procura elaborar uma obra cujo suspense e drama se entrelacem, criando uma atmosfera que é ao mesmo tempo assustadora, em certos momentos, e melancólica. Alternando o protagonismo entre o maquinista solitário e apaixonado e a esposa cúmplice do crime, a própria transição entre estas personalidades para progressão da trama implica um deslocamento constante de pontos de vista. Ora nos pegamos encarnados na alma daquele homem quase ridículo com a pose de galã solitário, ora estamos avidamente envoltos na condição dupla da esposa: cúmplice e amante mentirosa. É como se sempre houvesse uma camada a se desdobrar – assim como as mentiras da personagem, que vão sempre se desfazendo, aos poucos, em verdade.

E essas camadas e movimentações estão sem dúvidas atreladas ao desejar – sexualmente, financeiramente ou socialmente. Seja o desejo de uma vida idealizada (voltar aos trens, ir ao cinema), seja o desejo pelo outro como corpo diferente, como amor construído, ou seja pelo dinheiro mesmo. Mas todos estes elementos estão amarrados de maneira a evidenciar que há sempre uma falta, que a solução para os problemas sempre acarreta em um infortúnio do outro lado. Assim, o assassinato leva ao fim de uma relação e o desejo pelo outro leva à mentira e ao engano.

E Lang filma muito bem tudo isso. Há muitos planos fechados em rostos cuja expressão é contida, mas carregada de um peso emocional vibrante. Os confrontos são cercados de tensão através de quartos fechados com uma câmera que sempre se posiciona na lateral, revelando um espaço mais dilatado do que aquele esperado pela realidade. Soa curioso como justamente os momentos de maior carga emocional se realizam sempre no plano contido, no sufocamento. A morte, o desejo, a mentira, todos estes elementos da psicologia humana se fazem ali, entre quatro paredes, quase como um segredo. Paralelamente, os únicos momentos de desafogo, de respiro, se dão nos trilhos de trens ou nas casas confortáveis, desarrumadas. Um confronto de espaços cadenciado pela movimentação das perspectivas.

Desejo Humano é um filme que se usa de uma roupagem tradicional de suspense para adentrar nas dimensões psicológicas do sujeito. Lang filma de maneira muito consciente e, ainda que em alguns momentos pareça perder aquilo que está em mente, encarna todo seu passado de cineasta consagrado para criar ótimos momentos. Um dos últimos filmes de sua carreira nos EUA, mas ainda apresentando um grande diretor.

Desejo Humano (Human Desire) – 1954, EUA
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Alfred Hayes
Elenco: Glenn Ford, Gloria Grahame, Broderick Crawford, Edgar Buchanan, Kathleen Case, Peggy Maley, Diane DeLaire, Grandon Rhodes
Duração: 91 min.

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