Crítica | (Des)encanto – 2ª Temporada

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  • A versão criticada foi a dublada em português.

“Acorda pra cuspir”

Me sinto mal em depreciar uma obra de Matt Groening. Ainda mais que (Des)encanto perde muita força ao assisti-la dublado e, portanto, perdemos os diálogos originais. O diretor, porém, já provou que consegue escrever roteiros que se desprendem da sua língua oficial construindo dublagens eficientes, a exemplos de Futurama e Os Simpsons. Sendo assim, a péssima adaptação ao Português é algo a que devemos nos debruçar.

É nítida as horas de (Des)encanto que deveriam ser engraçadas. Isso porque, geralmente, a piada acontece e, logo após, temos cerca de dois segundos mudos para processá-la, como uma espécie de respiro para o telespectador. O que incomoda, todavia, é que rimos pouquíssimas vezes nesses momentos; na verdade, esse efeito repetitivo gera angústia. Talvez o maior erro seja na citada adaptação ao português, pois a série deve se adaptar ao público-alvo. Vemos, entretanto, uma gama de piadas internas, que apenas conhecedores de memes americanos encontrariam alguma graça. Quando diante de uma piada brasileira, parecia mais uma necessidade de transparecer que a série foi adaptada; não acrescentando sentido algum ao que estava acontecendo. 

Um exemplo claro é na cena em que Derek acorda o Rei Zog repetindo a palavra “acorda”, e, repentinamente, o garoto cita o memeacorda pra cuspir”, seguido dos tradicionais dois segundos de silêncio. É claro que essa cena na voz original fez algum sentido, porém o Rei não tinha qualquer necessidade de cuspir, e isso não faz referência a qualquer ação do personagem na temporada.

Esse problema não acontece na primeira temporada, por exemplo. Inclusive, o grande sucesso de (Des)encanto no Brasil foi por causa dessa eficiente adaptação. A publicidade, assim, foi feita pelas próprias pessoas, que compartilhavam vídeos com momentos específicos da série que remetiam a piadas brasileiras. Entretanto, a defasagem no roteiro original descarta qualquer possibilidade de uma boa produção a outras línguas. As cenas são voltadas ao que está nos olhos do diretor, se caracterizando como sequências direcionadas ao povo americano e que são incapazes de se adaptar a outros idiomas. Neste ponto, devemos entender que a dublagem é uma adaptação, e não um salva-vidas.

Outro problema aparente é a falta de linearidade do enredo, tanto nos personagens quanto na história.

No caso da história, o diretor precisa se decidir qual o propósito da série. Se nos basearmos na série mais conhecida dele, Os Simpsons, é esclarecido que cada episódio é particular; ou seja, não tem ligação direta com o próximo (salvo algumas exceções). Porém, quando uma história necessita de uma continuação, Os Simpsons termina o arco eficientemente, com começo meio e fim. Isso não acontece em (Des)encanto.

Esse erro se encontra presente desde a primeira temporada, na qual a história do exorcista, personagem antagonista de Luci, não tem o arco fechado. Seria comum que isso acontecesse na primeira temporada para que fosse aproveitada na segunda, mas esse arco não é ao menos citado. Um outro exemplo é que no final da primeira, a história da Rainha Dagmar, mãe de Bean, puxa o assunto principal da temporada seguinte. Porém ela aparece apenas no primeiro e no último episódio da segunda temporada. Além disso, nos é mostrado uma nova cidade com imperadores misteriosos que sequer são explorados ou citados ao longo da trama. Mais um exemplo, somente para o parágrafo não ocupar muito espaço, no episódio 2X04, Bean descobre símbolos místicos de Maru em volta do castelo. Que símbolos são esses? Pelo andar da carruagem, nunca saberemos.

Mesmo que Groening volte atrás e resolva fechar todos os arcos em uma terceira temporada, já é um erro irreparável. Há duas temporadas que não contam nada e, muito menos, acrescentam algo. Se fosse pra ser assim, que seguisse o protótipo de Os Simpsons e produzisse episódios particulares.

SPOILERS!

No caso dos personagens, parece que Luci e Elfo não são os mesmos da temporada anterior. Enquanto na primeira Luci é frio e calculista, na segunda ele se mostra sentimental e carismático. Embora o demônio tenha de fato um lado amigável, essa mudança é muito elevada e acontece de forma repentina. Ele, inclusive, engana o líder do inferno para resgatar Elfo da morte. O Luci da primeira temporada nunca faria isso.

Já o Elfo parece que foi reduzido a uma criança. Na primeira temporada, ele demonstra um aspecto infantil em suas falas, porém ainda tem ações de um elfo rebelde. Na segunda, porém, suas falas e ações são singelas, de modo que fica claro o exagero para representar um personagem que, embora seja rebelde, ainda é uma criança.

A nota oferecida só não é menor porque (Des)encanto tem uma boa arte gráfica, e é interessante para telespectadores que buscam apenas o passatempo: é uma série leve de se ver. Mas, se o problema for passatempo, é claro que temos outras muito melhores.

Infelizmente (Des)encanto Parte II tem muitos erros para ao menos se manter como uma série mediana. Apesar de eu ter apontado uma clara defasagem da segunda temporada em relação à primeira, o público parece considerar as duas no mesmo nível: ambas alcançaram 75% de aprovação no Rotten Tomatoes. Enfim, tomara que Matt Groening resolva permanecer em Os Simpsons.

Desencanto (Disenchantment) – 2 Temporada (EUA, 22 de Setembro de 2019)
Direção: Matt Groening
Roteiro: Matt Groening
Elenco: Abbi Jacobson, Eric André, Nat Faxon, John DiMaggio, Tress MacNeille, Matt Berry, David Herman, Maurice LaMarche, Lucy Montgomery, Billy West
Duração: 255 minutos

FERNANDO ANNUNZIATA . . . Por meio de um sonho, fui convocado pessoalmente pela Marilyn Monroe a participar do mundo das críticas cinematográficas. Sem saber o que esse mundo me reservava, cavalguei com a Lady Godiva em busca do Lendário Livro de Verdades. Atravessamos Gotham, Hogwarts e Twin Peaks atrás do nosso objetivo. Com a revelação dentro de um baú feito de mármore a dois metros dos nossos olhos, nos deparamos com o melhor final possível: o Livro era um espelho. Agora sou o dono de todas as verdades e faço parte de um culto de bruxos chamado Plano Crítico. A única resposta que não tenho é se prefiro minha antiga vida, quando eu era um mortal estudante de Comunicação Social de 18 anos, ou a vida atual, na qual eu descobri a verdade sobre Bohemian Rhapsody.