Crítica | Desenterrando Sad Hill (Sad Hill Unearthed)

Como fã: 

Como crítico:

Existem algumas obras que desafiam a barreira que um crítico cinematográfico precisa construir para impedir que seu lado fã invada sua tentativa de objetividade na redação de seus textos. Afinal, o crítico não é uma pedra de granito fria e inamovível que roboticamente despeja sua visão técnica sobre determinado filme. Desenterrando Sad Hill é uma dessas obras que tornam tênue a fronteira entre o fã e o crítico, pelo que os parágrafos a seguir estarão “manchados” pelo lado fanboy.

E tudo começou pelo passeio diário pelo catálogo do Netflix que tanta gente reclama, mas que tem tantas preciosidades. Eis que o nome “Sad Hill” aparece e ele me diz algo: “onde já vi isso antes?”. O irritante trailer automático então começa a rolar e nem bem três segundos de imagens passam e BAM, eu faço a conexão de “Sad Hill” com Três Homens em Conflito, um dos melhores faroestes já feitos e um dos filmes que consta de meu Top 10 pessoal. A decisão de começar a assistir o documentário é imediata, sem que qualquer outra consideração seja necessária e mesmo diante do adiantado da hora.

A premissa é daquelas de fazer fãs mundo afora abrirem um sorriso de felicidade cinematográfica: um grupo de espanhóis começa uma campanha para limpar e, depois, reconstruir o cemitério de Sad Hill, o mítico local do “trielo” entre o Bom, o Mau e o Feio ao final da maravilha cinematográfica capitaneada por Sergio Leone. Construído especialmente para o filme na província de Burgos, na Espanha, a locação foi deixada à mercê da ação do tempo após o encerramento das filmagens. Mas ela sobreviveu, mesmo que coberta pela vegetação, já que o círculo central é feito de pedras, mantendo, à distância, o formato original.

Com o aniversário de 50 anos do filme aproximando-se (em 2016), o grupo fanático (no absoluto bom sentido aqui, pois eu teria ido feliz para lá!) começou o trabalho de limpar as pedras, algo em tese simples, mas que o grupo diminuto logo reparou que daria mais trabalho do que imaginado. Nada que uma campanha na internet para chamar mais gente para arregaçar as mangas não desse conta, o que atraiu, para surpresa do grupo original, um pequeno exército. O projeto, então, passou da mera limpeza para a efetiva reconstrução dos túmulos falsos todos ao redor e, claro, a produção do documentário que resultaria desse esforço por meio de campanha de financiamento coletivo.

Deixe-me dizer logo de uma vez: a dedicação, a paixão, a veneração do grupo original ao projeto é coisa de trazer lágrimas aos olhos dos fãs mais durões. A conexão entre eles por um projeto tão pessoal e específico é belíssima. Desenterrar Sad Hill pode não mudar o curso da Humanidade, mas fez muita gente feliz, algo amplificado pelo documentário sob análise.

Aliás, falando em análise, a produção é surpreendentemente sofisticada e de amplo alcance, já que eles conseguiram atrair a atenção de James Hetfield, vocalista do Metallica, cuja entrevista perpassa toda a obra. O porquê do Metallica é tênue, mas está lá: há décadas o grupo inicia seus shows com The Ecstasy of Gold, de Ennio Morricone, e as cenas iniciais do “trielo” projetadas em um telão. A costura de diversos trechos dos comentários de Hetfield, por mais empolgados que possam ser, cansa um pouco pela distância entre ele e os eventos que se desenrolam na fita, retirando o espaço de um pouco mais de construção que acaba faltando na progressão da narrativa.

Outro ponto que subtrai da experiência como um todo – e, novamente, olhando mais pelo lado do crítico “chato” – é a história paralela sobre a famosa sequência da ponte no mesmo filme. Apesar de a ponte e o embate entre Confederados e a União terem sido filmados na mesma região, não há ligação maior entre esses momentos e o “trielo”, que não seja o fato de os dois constarem do mesmo filme. Fica parecendo uma anedota divertida – quem é realmente fã conhece a história – usada para dar mais corpo ao documentário, novamente retirando da abordagem direta sobre o trabalho em Sad Hill.

Mas, como deixei claro no início, esses “problemas” só existem em retrospecto. O fã em mim amou cada segundo dos 83 minutos de duração do documentário e emocionou-se com a dedicação daqueles fãs ali na Espanha. Diria até que ficou uma ponta de inveja por não ter participado pessoalmente desse projeto incrível que só mesmo o Cinema pode criar. Desenterrando Sad Hill é um monumento ao fandom sadio, aquele que não fica de picuinhas ridículas internet afora e trata de realmente desencavar pérolas da Sétima Arte para a apreciação de todos.

Desenterrando Sad Hill (Idem/Sad Hill Unearthed – Espanha, 2018)
Direção: Guillermo de Oliveira
Roteiro: Guillermo de Oliveira
Com: David Alba, Diego Montero, Joseba Del Valle, James Hetfield, Joe Dante, Eugenio Alabiso, Stephen Leigh, Christopher Frayling, Ennio Morricone, Peter J. Hanley, Sergio García, Will Ross, Devan Scott, Clint Eastwood
Duração: 83 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.