Crítica | Deslembro

O ano de 2019, em termos de cinema brasileiro, ficou muito marcado por Bacurau e A Vida Invisível, merecidamente. No entanto, acredito que Deslembro merece ser mais lembrado (trocadilhos à parte). A diretora Flávia Castro criou uma linha muito tênue entre ficção e o documentário ao fazer uma dramatização das memórias de sua infância.

Após seu pai desaparecer durante o regime ditatorial brasileiro, Joana (Jeanne Boudier) — versão ficcionalizada de Flávia — vai para o exílio em Paris com o resto de sua família. Quando a anistia é decretada, a jovem deve voltar para o Rio de Janeiro e encarar tanto seu passado quanto os problemas típicos de uma adolescente.

Deslembro acaba que é dois filmes em um. Não somente é um recorte social de um Brasil recém-democrático, que ainda carrega as tensões da ditadura. Mas. Joana, de certa maneira, também sofre uma revolução interna e carrega toda a tensão sexual de sua idade. Assim, macro e micro se misturam. Ao mesmo tempo que a protagonista se descobre como uma adolescente com desejos e angústias, o Brasil se descobre como democracia.

Portanto, o que se têm em Deslembro é uma visão até um pouco ingênua daquele mundo. É o próprio ponto de vista de Joana, o que fica muito refletido com os enquadramentos de Castro, que constantemente cortam da cintura para baixo, na altura da menina.

Deslembro não está tão preocupado em seguir a estrutura tradicional de uma narrativa. Na verdade, ele é como um grande passeio pela memória. Até por isso, existe essa edição com cortes tão abruptos. Mais do que corte, são recortes. A chuva durante a trilha, o encontro romântico na praia. É tudo muito intimista e que remetem aos momentos alegres.

Esse vai-e-vem acaba gerando um confronto interno, pois esse presente é interrompido pelo passado, que surge apenas como um lapso. É como se o próprio subconsciente de Joana fizesse este trabalho de deslembramento, esquecimento, para sua proteção. Mas, enquanto isso, a protagonista parte em uma jornada investigativa para descobrir aquilo que a incomoda tanto.

Conforme o quebra-cabeça vai se encaixando, o seu universo parece acertar o seu eixo. É o típico “enfrentar o passado para seguir em frente”. Assim, a atriz Jeanne Boudier consegue carregar esse peso nas costas de sua personagem de maneira muito impactante.  Ela possui essa rebeldia típica, mas, simultaneamente, vive fechada em seu próprio mundo e na inocência dos livros.

Deslembro carrega esses últimos suspiros da ditadura que, apesar de superados, ainda se fazem presente nos pequenos detalhes, como a falta de autorização para Joana ir ao passeio, pois não existe certidão de óbito do pai. No entanto, o progresso é inevitável e, no fim, esse fantasma é exorcizado através da memória. O (des)lembro.

Deslembro – (Brasil, 2019)
Direção: Flávia Castro
Roteiro: Flávia Castro
Elenco: Jeanne Boudier, Eliane Giardini, Sara Antunes, Jesuíta Barbosa, Márcio Vito, Hugo Abranches, Arthur Vieira Raynaud
Duração: 96 minutos

MICHEL GUTWILEN . . . Já toquei uma gaita com Sergio Leone, lutei contra o sistema com Ken Loach, me apaixonei com James Gray, xinguei minha mãe com Xavier Dolan, tive uma crise de ansiedade com Darren Aronofsky, fui a um baile de máscaras com Stanley Kubrick e nasci do útero de de Naomi Kawase. Um constante indeciso. Acredito que não há verdades absolutas na crítica cinematográfica, com uma exceção: Star Wars - The Last Jedi é maravilhoso e isso é irrefutável — leve essa última frase na brincadeira....ou não.