Crítica | Destacamento Blood

Das muitas maneiras possíveis que existe para se trabalhar o trauma de uma guerra em uma produção ficcional, talvez a mais frequente seja a tentativa de readequação de um soldado a um mundo que nunca mais será o mesmo para ele. O trauma, no entanto, opera de maneira diferente para diferentes pessoas, com algumas conseguindo conviver de modo menos doloroso ou menos agressivo com as memórias ou perturbações de um evento que lhe feriu a humanidade. O tipo de ferida que não importa o que se faça, jamais se curará. E é nessa eterna marca que Spike Lee toca em Destacamento Blood (2020), primeira produção do diretor realizada diretamente para a Netflix.

No roteiro, o cruzamento de dois tempos para mostrar a amizade de um grupo de soldados negros que, na atualidade, retornam ao Vietnã com o objetivo de encontrar e retornar para casa o corpo de um dos membros do destacamento, morto em ação. Existe também um outro motivo, o elemento que dará um sabor… digamos… tarantinesco a determinadas cenas, mas com um critério de pensamento crítico, racial e sociológico que não nega a identidade do diretor da obra. A viagem, todavia, acaba tendo alguns encadeamentos que não foram inicialmente planejados, e eles vão da camada psicológica desse retorno (como uma espécie de terapia de choque não intencional) até o ajuste de contas dentro do grupo de amigos e também com a família, sendo esta a camada que o roteiro usa para puxar linhas de identificação com a atualidade.

Como a mudança de percepção aqui é muito importante para destacar os sentimentos e a óbvia tentativa de deslocamento de atmosfera, chamando a atenção para o anacronismo de parte da abordagem, vemos já nos primeiros minutos as alterações na razão de aspecto e no tipo de lente utilizada a cada grupo de cenas, dando aos espaços a sua “prisão” ou “liberdade” momentânea e também fazendo uma agradável escolha de representação a partir de formatos coerentes com a necessidade do tempo histórico ou daquilo que o diretor queria que espectador visse com mais intensidade na tela. Isso em vez de depositar todas as fichas de mudanças na fotografia aliada ao desenho de produção, como frequentemente se faz.

Como a essência do filme tem a ver com a memória histórica e emocional da Guerra do Vietnã, o texto não se ressente em nenhum momento em escancarar um bom número de debates em decorrência dessa memória, passando por dívida histórica, pelo grande perigo do identitarismo, pelo abraço ideológico que indivíduos oprimidos fazem aos planos de seus opressores (make America great again) e pelas diversas contradições que encontramos em todos os grupos humanos, sendo o recorte aqui realizado para a comunidade negra dos EUA e para os vietnamitas. As divergências ideológicas entre os amigos, a difícil relação entre pai e filho, a paranoia e a dor do personagem de Delroy Lindo (que está incrível no papel, especialmente após a entrada do grupo na selva) e a questão capitalista, que abala ainda mais essas relações, são coroadas por elementos críticos, praticamente servindo de material humano sincrônico e diacrônico a fim de que o diretor nos mostre impactos da guerra; decisões e consequências que só pioraram a realidade social, econômica, cultural e mental de milhares de indivíduos.

Talvez para reforçar as memórias de guerra e tecer linhas muito claras com o presente é que o cineasta tenha caído no didatismo, mostrando fotografias de personagens históricos que não havia necessidade de mostrar (principalmente no começo) e intercalando alguns vídeos ou fotos de contexto que nem sempre funcionam. Outro ponto que pareceu cruzar a linha da insistência desnecessária foi o boné MAGA, que num primeiro momento serve para marcar o terreno de disparidade ideológica entre esses camaradas de guerra, mas depois serve como um “lembrete sociopolítico” que é óbvio demais. Tenho dúvidas se a intenção geral aqui era a comédia em torno do ridículo que isso representa… ou se o diretor estava utilizando o boné como uma marcação irônica diante de cada nova tragédia, a cara da “Grande América“, que na verdade é uma cópia da América assassina, discriminadora e desigual que mandou seus filhos negros para servirem de bucha de canhão em mais uma tentativa dos Estados Unidos em dilacerar um país em nome do que eles acreditam ser a democracia, a paz, os bons valores, a liberdade.

Ainda assim, essa insistência no boné me pareceu chateante, pois a mensagem é bastante clara e a opinião do diretor para este tema também. O resultado desse lado mais político-ideológico da fita, no entanto, é perfeitamente coerente com a proposta geral da obra, ou seja, utilizar uma busca por restos mortais (a desculpa pessoal) para na verdade buscar ouro (recorrência na política externa dos Estados Unidos, não importa de qual “ouro” estamos falando) e, no meio de tudo, encontrar uma tardia maturidade ou alguma paz de espírito confrontando um horror do passado. Juntamente com tudo isso, o filme insere discussões sobre a presença do povo negro nesse tipo de conflito, opondo os diferentes pensamentos sobre a guerra e a forma como cada um recebeu e viveu essas ideias ao longo dos anos.

Destacamento Blood é um filme sobre as lutas que acontecem em diferentes camadas de uma mesma comunidade, de uma mesma classe social, tentando apontar uma justificativa para o por quê de ser tão difícil unir sofredores em momentos fora do desespero completo. Um filme sobre como homens feridos podem reagir quando confrontados com o motivo de seu sofrimento. Não é uma obra fácil, nem delicada e não segura críticas, seja para os engajados na luta do black lives matter, seja para os que, décadas antes, eram vistos de duas formas: ou como assassinos de inocentes ou como vítimas estigmatizadas de uma pátria assassina. Coisas que a guerra, mesmo distante do front, é capaz de fazer. E coisas que nenhum ser humano consegue suportar sem ser irremediavelmente abalado.

Destacamento Blood (Da 5 Bloods) — EUA, 2020
Direção: Spike Lee
Roteiro: Danny Bilson, Paul De Meo, Kevin Willmott, Spike Lee
Elenco: Chadwick Boseman, Jean Reno, Paul Walter Hauser, Delroy Lindo, Jasper Pääkkönen, Mélanie Thierry, Van Veronica Ngo, Jonathan Majors, Clarke Peters, Isiah Whitlock Jr., Norm Lewis, Rick Shuster, Casey Clark, Alexander Winters, Mav Kang
Duração: 154 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.